Presidente da Ford Europa: "Nove em cada 10 Mustang Mach-e são comprados por clientes novos na Ford"

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Entrevista

Presidente da Ford Europa: “Nove em cada 10 Mustang Mach-e são comprados por clientes novos na Ford”

Estivemos à conversa com Stuart Rowley, presidente da Ford Europa, que nos detalhou a transformação pela qual a Ford está a passar.

Foi numa mesa redonda com jurados do Car of The Year que Stuart Rowley, presidente da Ford Europa, nos ajudou a compreender tudo o que está a mudar na Ford para torná-la tão ágil quanto uma startup. Uma mudança que surge num momento em que a indústria automóvel se está a eletrificar, uma  transformação que pode ser mais complicada pela pesada estrutura que, tipicamente, estas multinacionais têm.

No início de março foram dados os primeiros passos dessa transformação radical com o intuito de acelerá-la.

Vimos serem estabelecidas, assim, as unidades de negócio independentes Ford Blue (veículos com motores de combustão) e Ford Model e (veículos elétricos), que se juntam à Ford Pro, dedicada aos veículos comerciais, à Ford Drive (ex-Ford Mobility) e à Ford Credit.

VEJAM TAMBÉM: Ford cria divisões específicas para modelos elétricos e de combustão
Stuart Rowley presidente Ford europa
Stuart Rowley, presidente da Ford Europa.

“Não se trata de uma alteração de estratégia, mas antes de uma aceleração dos planos de eletrificação porque uma unidade de negócio dedicada aos veículos elétricos permite ganhar foco e especializar quem trabalha nessa área.
E com este anúncio damos uma primeira ideia da nova geração de modelos da Ford, 100% elétricos e nos quais estaremos empenhados para reposicionar a nossa marca com 119 anos de vida, cujo passado temos que compreender para podermos ser bem sucedidos no futuro”

Stuart Rowley, presidente da Ford Europa

A Ford, recorde-se, é uma das últimas marcas de automóveis com a liderança a cargo de uma família o que, segundo o presidente da Ford Europa, “define o ADN de tudo o que a empresa faz num mercado extremamente competitivo, seja para os clientes, funcionários e concessionários”.

Só carros elétricos em 2030

Poucos contestarão a ideia de que a eletrificação do automóvel constitui a mudança mais transformativa nesta indústria em mais de um século. Não há marca que não se esteja a reinventar e a trabalhar a fundo nesse trajeto, que nos vai levar a um futuro da propulsão totalmente elétrica.

Rowley explica que essa é, de resto, a razão pela qual a Ford assumiu três compromissos de base para o seu futuro a curto, médio e longo prazo: “vamos ter uma gama totalmente elétrica de veículos de passageiros até 2030 e de comerciais igualmente isentos de emissões até 2035; oferecer soluções e serviços de mobilidade que vão redefinir a experiência de ter um Ford e implementar uma estratégia sustentável na Europa, no sentido de cumprirmos o acordo climático de Paris”.

O líder da marca norte-americana na Europa quer recuperar de algum atraso relativamente a concorrentes diretos (como a Volkswagen, a Peugeot, entre outras) com um plano ambicioso.

“Iremos passar de dois modelos elétricos que temos hoje a nove em 2024. Em 2026 pensamos vender mais de 600 000 carros elétricos na Europa (e dois milhões globalmente) que chegarão a 75% das nossas vendas nesta região em 2030, até ao objetivo final de 100% elétricos em 2035. E isto com o objetivo paralelo de alcançar uma margem de lucro de 10%, também em 2026”.

Stuart Rowley, presidente da Ford Europa
Ford elétricos 2024
São nove modelos elétricos — tecnicamente serão sete, com duas variantes — que a Ford terá em comercialização em 2024.

2022 começou com lucros

A Ford Europa teve um lucro de 3% (197 milhões de euros) no primeiro trimestre de 2022, depois de três trimestres consecutivos de prejuízos.

Isto apesar da queda de vendas, em parte motivada por disrupções causadas pela invasão da Ucrânia, com paragens na produção do Focus na fábrica de Saarlouis, na Alemanha, e do Tourneo na fábrica da Volkswagen Poznan, na Polónia, onde é fabricado ao lado do Volkswagen Caddy, com que partilha a plataforma.

Estes resultados são melhores do que os da Ford Motor Company, que perdeu 3,1 mil milhões de dólares também no primeiro trimestre deste ano por culpa da queda abrupta das ações da startup Rivian (que fabrica pick-up e SUV elétricos), na qual a Ford tem uma importante participação de 1,2 mil milhões de dólares.

Aliás, quando a Rivian foi cotada em bolsa, em novembro de 2021, a sua capitalização excedia em quase 50% o valor em bolsa da Ford Motor Company, um dos seus principais investidores. Wall Street não morre mesmo de amores pela «velha» indústria automóvel…

rivian r1t
Rivian R1T

Antes de nos centrarmos de novo na Europa, importa salientar que a Ford quer ser o segundo maior construtor americano de elétricos já em 2023, logo atrás da Tesla.

O importante Mustang Mach-E

De volta à Europa, onde a Ford deixou este ano de ser uma entidade autónoma 55 anos após a sua criação, trata-se de continuar o plano iniciado com a chegada ao mercado do Mustang Mach-E (em 2021).

https://youtu.be/RW8ICFKT7fM

Um modelo que tem tido uma aceitação muito interessante no mercado europeu, como detalha Stuart Rowley: “vendemos 23 000 Mach-E em 2021 e temos uma previsão a rondar as 40 000 entregas em 2022, além de ser um carro que está a trazer muitos novos clientes para a marca, uma vez que nove em cada 10 compradores deste modelo são novos na Ford, com uma elevada percentagem de clientes habituais de marcas de automóveis premium”.

Uma das áreas de negócio mais importantes para a Ford na Europa é a dos veículos comerciais, que agora é denominada de Ford Pro, em que é líder há sete anos consecutivos.

Ford E-Transit e Mustang Mach-E
Ford E-Transit e Mustang Mach-E, os dois elétricos da oval azul já em comercialização.

Rowley entende que a propulsão elétrica casa na perfeição com este segmento de mercado: “estamos a observar um enorme interesse na nossa frota Ford Pro e o lançamento, esta primavera, da E-Transit é um momento decisivo, por se tratar da carrinha de carga mais vendida no mundo.”

“No final de 2022”, continua “deveremos ter entregue 7000 E-Transit aos nossos ansiosos clientes, depois de termos feito vários meses de testes-piloto em condições reais com protótipos quase finais nos serviços municipais, de correios, entrega de artigos alimentares na Alemanha, Reino Unido e Noruega”.

Ford E-Transit linha de montagem
A Ford E-Transit já iniciou a sua produção em Kocaeli, na Turquia.

O novo desenho da pegada industrial

A Ford está a trabalhar na modernização e melhoria da fábrica de Craiova (Roménia), que terá um papel importante nesta transformação, tendo passado a estar sob a alçada da joint venture que a Ford tem há mais de duas décadas na Turquia.

Está a ser feito um investimento de 300 milhões de dólares nesta fábrica para produzir um novo comercial ligeiro acessível, a Transit Courier, bem como uma versão de passageiros Tourneo Courier — ambos em 2023 — e, no ano seguinte, uma versão elétrica.

Rowley não hesita quando afirma que “o sucesso desta área de negócio é crucial para que sejam concretizados os objetivos quantitativos e qualitativos da Ford na Europa, tal como a implementação de um sistema de produção eficaz, sustentável e integrado, dos veículos e baterias. Estamos a preparar um modelo de produção neutro em carbono, que deverá estar ativo até 2035, o que significa uma redução para zero das emissões geradas nas nossas fábricas, logística e fornecedores principais”.

A Ford assinou, já este ano, um acordo com a SK On e a Koc Holding para a construção de uma das maiores fábricas de baterias para veículos comerciais na Europa. “Trata-se de uma joint venture com sede na Turquia, cujo pilar é a gigafábrica nas proximidades de Ancara, onde serão produzidas células NMC (níquel, manganês e cobalto) para incorporação nos módulos de baterias”, explica o presidente da Ford Europa.

E depois realça o caráter global desse esforço: “entretanto, já estamos a construir uma fábrica de baterias também nos Estados Unidos (com um orçamento de 5,8 mil milhões de dólares) e não ficaremos por aqui, porque o nosso plano requer, pelo menos, 240 GWh (Gigawatts-hora) de capacidade de células de baterias até 2030. A fábrica na Turquia irá contribuir com cerca 40 GWh já a partir de meados da presente década”.

Ford Mustang Mach-E

Ora, se somarmos estes 40 GWh aos 130 GWh que deverão ser somados em três fábricas nos Estados Unidos chegamos a 170 GWh, ainda longe dos tais 240 GWh anuais de que a Ford vai necessitar, mesmo com o contributo adicional do Centro de Eletrificação de Colónia, como veremos a seguir.

Três crossover compactos elétricos

Por outro lado, o Puma (que também é feito em Craiova) — do qual se venderam mais de 130 000 unidades na Europa em 2021 — vai passar a ter uma versão elétrica na Europa em 2024 (em contrapartida, o Ecosport será descontinuado até ao final de 2022).

Stuart Rowley, Presidente da Ford Europa
Stuart Rowley, Presidente da Ford Europa, durante a apresentação do Puma.

Tal como o Courier, o Puma elétrico será feito sobre a atual plataforma de segmento B (Fiesta/Puma) adaptada para a eletrificação e não a MEB da Volkswagen ou outra plataforma dedicada.

Toda a investida elétrica na Europa tem como ponto nevrálgico o Centro de Eletrificação de Colónia (Alemanha): “a fábrica muito moderna vai ser uma realidade e será um dos projetos alimentados pelo investimento de dois mil milhões de dólares em automóveis elétricos. E confirmamos que vamos ter uma nova linha de montagem de baterias em Colónia, operativa a partir de 2024”.

Centro de eletrificação de Colónia
Da fábrica de Colónia, na Alemanha, vão sair dois dos novos elétricos da Ford, ambos com base MEB

A Ford já revelou que o primeiro modelo a rolar deste centro de competência será um crossover médio, que será dado a conhecer antes do final deste ano, com produção no início de 2023, a que se seguirá um segundo modelo, um crossover desportivo, em 2024. Ambos usarão a plataforma MEB da Volkswagen.

“Entre os dois, o volume de produção previsto será de 1,2 milhões de veículos durante o ciclo de vida destes produtos. E iremos fornecer e produzir futuros comerciais para a Volkswagen, com a plataforma estreada na E-Transit”, remata o confiante timoneiro da Ford Europa.

Ford elétricos
Os dois novos crossover elétricos, ainda sem nome e aqui identificados como “Medium-size Crossover” e “Sport Crossover”, irão posicionar-se entre o mais pequeno e futuro Puma elétrico e o maior Mustang Mach-E.

Diversificação no tipo de propulsão e de receitas

Sobre o impacto da guerra na Ucrânia, Rowley assegura que a principal preocupação da Ford é com os seus empregados na região, mas admite que “já houve interrupções em mais do que uma fábrica, além de que foi encerrada a atividade comercial na Rússia”.

Na questão da diversificação de sistemas de propulsão elétricos no futuro a médio/longo prazo, o n.º 1 da Ford no nosso continente descarta, de momento, qualquer investimento no hidrogénio: “o nosso foco está nos elétricos a bateria e até é possível que em algum momento haja potencial para veículos a pilha de combustível (elétricos alimentados por hidrogénio, portanto), no segmento dos comerciais pesados, mas não está nos nossos planos de momento”.

Entre a pandemia e a instabilidade geopolítica que afetaram e afetam o mundo desde 2020, poucos executivos de primeira linha se atrevem a fazer grandes previsões de evolução de volumes de vendas.

Ainda assim, o agora também diretor de qualidade da Ford Motor Company realça “o facto das vendas da Ford na Europa terem sido muito consistentes nos últimos anos” bem como a necessidade “de potenciar a faturação proveniente de outras fontes de receitas, como do negócio da conectividade e serviços relacionados, é onde existe maior potencial de crescimento do que propriamente pelo incremento de matrículas nesta região”.

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