Legado

No adeus aos Renault Sport, recordamos 5 dos mais especiais

Acabou. A Renault Sport fechou portas para dar lugar à Alpine. Recordamos o legado das letras R.S. reunindo cinco dos seus mais especiais e memoráveis modelos.

Foi em 1976 que nasceu a Renault Sport, o novo departamento de competição da marca, resultado da fusão das atividades desportivas da Alpine e da Gordini.

Teríamos de esperar por 1995 para que fosse criada uma divisão na Renault Sport dedicada ao desenvolvimento de versões de alta performance de automóveis de produção — em 2016, assumiria a designação de Renault Sport Cars —, resultando no fim da Alpine, que fechava portas com o término da produção do A610, um coupé desportivo de motor traseiro — tal e qual o Porsche 911.

Porém, já este século, com Carlos Ghosn ao leme da Renault e com o contributo essencial de Carlos Tavares, na altura o n.º 2 do construtor e hoje em dia o n.º 1 do novo gigante Stellantis, a Alpine “voltava à vida” em definitivo em 2017 com o lançamento do A110, fazendo com que esta história retorne, de certa forma, ao ponto de partida.

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2014 Renault Megane RS
Os R.S. também deixaram a sua marca na Razão Automóvel. Um desses momentos aos comandos do Mégane (III) R.S. Trophy, em 2014. @ Gonçalo Maccario / Razão Automóvel

É que agora, chegados a 2021, é a Renault Sport que “sai de cena” para dar lugar à Alpine, com as atividades da Renault Sport Cars (veículos de produção) e da Renault Sport Racing (competição) a serem absorvidas pela histórica marca francesa, mas sempre sediados em Dieppe.

Não sabemos ainda ao certo (à altura da publicação deste artigo) o que esta mudança significará para futuras versões “endiabradas” dos Renault de estrada, mas estes 26 anos de atividade deixaram um vasto e valioso legado de modelos marcados com as letras R.S., na larga maioria hot hatch que foram, quase sempre, os “alvos a abater”.

Com o fim anunciado, reunimos uma mão cheia de R.S., provavelmente os mais especiais de todos eles, e que mostram o quão fértil foi a sua existência e a elevada competência das pessoas por detrás destas máquinas focadas na excelência dinâmica e na experiência de condução mais excitante.

Renault Spider Renault Sport

Previsivelmente teríamos de começar pelo primeiro automóvel de estrada lançado pela Renault Sport, e que a deu a conhecer ao mundo, em 1995: o Spider Renault Sport. Nasceu para ser um Alpine, curiosamente, e tratava-se de um roadster extremista, reduzido ao essencial, sem para-brisas — item que seria disponibilizado opcionalmente, um ano depois.

Sim, a marca dos Twingo, Espace e Clio lançava um roadster tão ou mais radical que o Lotus Elise, revelado nesse mesmo ano. Se havia um modelo para colocar a Renault Sport no mapa, o Spider seria esse modelo.

O extremismo desta criação e o seu “esqueleto” em alumínio ajudavam a obter uma massa contida de apenas 930 kg (965 kg com o para-brisas), fazendo com que os (modestos) 150 cv de potência — usava o bloco de 2,0 l atmosférico do Clio Williams, mas aqui montado atrás dos dois ocupantes — fossem mais que suficientes para prestações convincentes, mas era a experiência de condução, onde nada era assistido, que se destacava.

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O radicalismo da proposta — e também o sucesso do primeiro Elise — fez com que a sua produção de quatro anos (1995-1999) traduzisse-se em apenas 1726 unidades, derivando ainda dele uma versão Trophy de competição (para um troféu monomarca) com 180 cv.

Renault Clio V6

Se o Spider era uma excentricidade, o que dizer do Renault Clio V6? Este “monstro” evocava outro… “monstro” do passado da marca do losango, o Renault 5 Turbo, um modelo que continua a fazer parte do imaginário de muitos fãs dos ralis.

À imagem do seu antecessor espiritual, o Clio V6 parecia um Clio após uma overdose de esteróides quando o vimos em 2000 — era impossível passar despercebido. Muito mais largo que os outros Clio, e com uma nada discreta entrada de ar nos flancos, prescindia dos lugares traseiros para lá “arrumar” um enorme V6 de 3,0 l de capacidade (denominado ESL), atmosférico, com 230 cv.

Rapidamente ganhou uma reputação de ter uma dinâmica… sensível, difícil de lidar nos limites, sendo ainda infame o seu diâmetro de viragem digno de um camião.

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Apesar do caráter exótico do Clio V6, tivemos direito a uma segunda versão, coincidindo com o restyling da segunda geração do Clio. A Renault Sport aproveitou a oportunidade para limar as arestas dinâmicas do seu “monstro”, ao mesmo tempo que o V6 crescia em potência, até aos 255 cv. Mais coeso e menos intimidante, mas não menos apaixonante.

A produção terminaria em 2005, tendo sido feitas aproximadamente 3000 unidades (Phase 1 e Phase 2). Só a produção do Phase 2 e das versões Trophy, destinadas à competição, saíram de Dieppe. Os Clio V6 Phase 1 foram desenvolvidos e construídos pela TWR (Tom Walkinshaw Racing), em Uddevalla, na Suécia.

Renault Clio R.S. 182 Trophy

Entramos agora no reino dos hot hatch “clássicos”, onde a Renault Sport rapidamente se tornaria uma referência a começar com o primeiro Renault Clio R.S., o início de um dos mais ricos legados recentes na classe dos hot hatchsem detrimento dos seus notáveis antecessores…

Baseado na segunda geração do utilitário francês (1998), o primeiro Clio R.S. chegaria um ano depois, equipado com o 2.0 l (F4R) atmosférico de 172 cv. Já após o restyling, a potência subiria até aos 182 cv assim como os elogios às aptidões dinâmicas deste hot hatch, que já não eram modestas para começar.

Renault Clio R.S. 182 Trophy

Mas seria perto do final da sua carreira, em 2005, que o Clio R.S. 182 seria elevado ao estatuto de lenda entre os hot hatch, com o lançamento do (muito) limitado Trophy. Só 550 unidades foram produzidas, com a larga maioria delas a ser com volante à direita, para o mercado britânico, com apenas 50 unidades com volante à esquerda, para o mercado suíço.

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Como o nome indica, mantinha os 182 cv dos outros Clio R.S., com o trabalho efetuado ao nível do chassis a assumir o protagonismo. A principal diferença do R.S. 182 Trophy para os outros R.S. 182 residia nos seus amortecedores de competição da Sachs (com reservatório de óleo separado).

Itens de qualidade e (muito) caros, o Trophy diferenciava-se ainda pelos cubos de roda específicos, partilhados com o R.S. 182 Cup; jantes de 16″ Speedline Turini, 1,3 kg mais leves que as de série; spoiler traseiro herdado do Clio V6; bancos desportivos da Recaro; a cor exclusiva Capsicum Red; e, como não podia deixar, pela presença de uma placa numerada para não nos esquecermos do quão é especial este Clio.

Renault Clio R.S. 182 Trophy

Os vereditos não se fizeram esperar e foram várias as publicações — naturalmente as britânicas, que ficaram com o grosso da produção — a considerar o Renault Clio R.S. 182 Trophy como o melhor hot hatch de todos os tempos, um título que alguns dizem ainda lhe pertencer, apesar de já terem passado 15 anos e muitos novos hot hatch durante esse tempo.

Renault Mégane R.S. R26.R

Um segmento acima do Clio, surgia em 2004 o primeiro Mégane R.S., desenvolvido a partir da segunda geração do pequeno familiar francês.

Demorou algum tempo para se elevar a um dos melhores da sua classe, mas em 2008 conquistaria automaticamente o epíteto do derradeiro hot hatch quando a Renault Sport mostrava o Mégane R.S. R26.R, que seria apelidado por muitos como o 911 GT3 dos hot hatch.

Talvez o mais radical de todos os hot hatch (provavelmente só superado pelo atual Mégane R.S. Trophy-R) a ver a luz do dia, o R26.R acusava menos 123 kg que os outros Mégane R.S.

O que, combinado com o revisto chassis, transformaram-no num devorador de curvas e num mediático conquistador do “inferno verde”, o Nürburgring: seria coroado como o tração dianteira mais rápido no lendário circuito. Sem dúvida que espicaçou a concorrência, pois o recorde de 8min17s que conseguiu nunca mais parou de cair.

Para o conhecer em mais detalhe, convidamos a ler ou reler o nosso artigo dedicado a esta fantástica máquina:

Renault Mégane R.S. Trophy-R

Fechar com chave de ouro é o mínimo que podemos dizer do último produto a ser desenvolvido pela — agora defunta — Renault Sport. E tal como o R26.R, o Mégane R.S. Trophy-R é a versão mais extremista e radical da atual geração do hot hatch francês.

Mais uma vez temos uma máquina feita para curvar e para bater recordes, tendo como némesis o não menos fenomenal Honda Civic Type R.

Foi em 2020 que o Guilherme teve oportunidade de testar a fundo esta máquina prodigiosa, sendo, sem dúvida, um dos que terá presença garantida no panteão dos hot hatch — quem adivinharia que seria o último a ostentar as letras R.S.?

E agora?

Inadvertidamente, o Mégane R.S. (nas suas várias versões) será o último modelo a ter o cunho da Renault Sport. O próximo Renault desportivo que veremos poderá nem sequer ostentar o losango da marca, mas sim poderá ter um “A” de Alpine; não será difícil de imaginar que possa acontecer algo nos moldes do que vemos entre a SEAT e a CUPRA ou a Fiat e a Abarth.

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No entanto, o mais importante talvez nem seja o símbolo ostentado. Atendendo aos planos do Grupo Renault para a Alpine, o fim da Renault Sport marca também o fim dos motores de combustão nestes modelos desportivos. Em poucos anos conheceremos os primeiros frutos dessa estratégia, com o primeiro modelo anunciado a ser um hot hatch 100% elétrico com a marca Alpine.

Será que convencerá, entusiasmará e encantará como estes cinco Renault Sport que vos trouxemos? Aguardemos…

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