Emprestaram-me um Renault Clio Williams e fui para o Estoril

Quando surgiu em 1993, o Renault Clio Williams arrebatou corações e… secou carteiras. Todos queriam ter um. E eu, do alto dos meus 6 anos, também…

Quanto a ti não sei, mas quando tinha 6 anos a semanada era curta para tantas despesas fixas. Entre os «obrigatórios» cromos dos Cavaleiros do Zodíaco, Push Pops e Peta Zetas, tinha de poupar para o meu maior vício: revistas de automóveis. O vício era tal que perdi a conta aos jogos da Mega Drive que ficaram por comprar em virtude do meu derradeiro vício: carros! E naquela altura os 10 contos (50 euros) de um cartucho para a Mega Drive ainda dava para muitas revistas…

Numa dessas revistas (ainda as guardo), apanhei um tal de Renault Clio Williams. Foi amor à primeira vista. Não sei bem porquê, mas do alto da minha ignorância automóvel no meio de páginas e páginas de Porsches, Ferraris e companhia, era aquele pequeno francês que me fazia folhear a revista centenas de vezes, uma e outra vez. Já que estou numa de «regresso ao passado» saibam que há carros pelos quais nutri uma paixão avassaladora sem grande explicação, um deles foi um Nissan Micra (K11) de Troféu.

Do passado para o presente

Desde puto que sonhava conduzir um Renault Clio Williams. A oportunidade surgiu quando entreguei o Porsche 911 Carrera 2.7 MFI (escrevi sobre ele aqui) ao Jorge Nunes, proprietário da Sportclasse – uma espécie de Master Yoda dos Porsche em Portugal. Para além de modelos Porsche a perder de vista, o Jorge Nunes também tem na coleção da Sportclasse vários desportivos de outras marcas. Um deles é este «modesto» Renault Clio Williams (nas imagens), modelo que frequentemente é considerado um dos melhores hot hatches de sempre – veremos se é ou não é…

Renault Clio Williams (52)

Assim que o vi estacionado à porta, combinámos que na semana seguinte o Williams seria «meu». Subi para o escritório e tratámos logo de ligar para o Autódromo do Estoril para fazer um teste a preceito! Carro: check! Autódromo: check! Calma Guilherme! C-A-L-M-A!

Sobre o Renault Clio Williams

Antes de arrancar literalmente para o Estoril em palavras, deixa-me introduzir o Clio Williams aos nossos leitores mais jovens – alguns deles nascidos no séc. XXI.

Ao contrário destes últimos, Renault Clio Williams nasceu em 1993. Em primeiro lugar com o propósito de comemorar as conquistas da Renault na Fórmula 1 com Nigel Mansell (Campeão do Mundo em 1992), em segundo lugar com o propósito de criar uma versão de homologação do Clio para ralis. Bastavam 2500 exemplares, mas a Renault decidiu produzir 12.100 unidades do Renault Clio Williams – algo que não agradou aos proprietários da phase 1 porque a Renault prometeu não fazer mais de 3800 carros… e fez 3 vezes mais!

A animar o modelo, encontramos uma unidade 2.0 litros 16V com 150cv derivada diretamente do bloco 1.8 16V usado em modelos “normais”. Para chegar aos 2 litros e 150cv de potência este motor foi trabalhado exaustivamente pela Renault Sport para ganhar mais músculo e um caráter mais desportivo – o gosto por regimes altos por exemplo. Nova cambota, válvulas maiores, distribuição reconfigurada, árvore de cames a permitir débitos superiores, caixa de velocidades especifica e coletor de escape foram apenas algumas (das muitas!) modificações operadas pelos «mágicos» da Renault Sport que se dedicaram a este Clio.

Por fora, são as vias mais largas e musculadas do eixo dianteiro, a suspensão rebaixada, os autocolantes a dizer “Williams”, as jantes Speedline douradas e a magnífica cor azul que nos fazem perder a cabeça! No interior são os cintos, a alcatifa, a manete da caixa de velocidades (horrível!) e os mostradores azuis que fazem a diferença. Os bancos, com um “W” bordado, conseguem ser confortáveis e oferecer apoio ao mesmo tempo.

Este conjunto de modificações transfiguraram o Williams face ao Clio «normal» do dia para a noite, criando um dos melhores tração dianteira de todos os tempos. Dito isto, é hora de seguir para o Autódromo… finalmente!

Obrigado São Pedro… por nada!

Consegui marcar este teste para um dos dias mais chuvosos do ano. Que pontaria! Podia começar com aquele discurso meio gasto do “com o piso molhado fica mais fácil encontrar os pontos fracos e fortes do chassi”. Treta. Para além das magníficas fotografias do Gonçalo Maccario, a ida ao Estoril revelou-se pouco frutuosa. Preferia ter rodado com o piso seco – até porque infelizmente o meu nome é Guilherme Ferreira da Costa, não é Ayrton Senna da Silva.

Quatro voltas e algumas subviragens depois (because fwd…) comecei finalmente a tirar algum gozo da condução. A pista secou um pouco e os níveis de aderência passaram de «zero» para «suficiente».

Renault Clio Williams (11)

Falando do motor, os 150cv de potência referidos à pouco ainda moram debaixo do capot, estão bem saúde e recomendam-se – talvez porque este exemplar conta menos de 70.000km. Naturalmente, nestas condições de aderência é difícil colocar toda a potência no chão e nota-se a falta de um diferencial autoblocante nas curvas mais lentas. Ainda assim, saí do autódromo com boas indicações para o piso seco.

Indicações que se confirmaram na sua plenitude! Feitas as pazes com São Pedro, apanhei bom tempo durante o resto da semana e pude conduzir o Renault Clio Williams como queria… em seco. Fantástico! A base é ótima e a dianteira (pese embora a falta do tal diferencial autoblocante) comporta-se com rigor em todas as situações. No vértice da curva é fácil de controlar os acontecimentos e as reações são sempre progressivas. O eixo traseiro merece alguma atenção, e caso as coisas corram mal convém não esquecer que o São Controlo de Estabilidade, padroeiro dos aflitos ao volante, não opera os milagres no Williams…

Renault Clio Williams (54)

Mas é um gozo tremendo conduzir o Renault Clio Williams. Tanto ao nível das performances do motor como do chassi, nota-se que é um carro da velha guarda, mas da boa velha guarda. Isto é, sem as nuances comportamentais difíceis de digerir de alguns modelos mais antigos. Bem conduzido, ainda é capaz complicar a vida a alguns pocket-rockets bem mais modernos.

Naturalmente, há pormenores que acusam a idade do projeto. Nomeadamente a posição de condução, a ergonomia dos comandos e a montagem pouco rigorosa do interior. Detalhes que perante o gozo de condução que o Clio Williams oferece são irrelevantes. Pergunta de um milhão de euros: merece o título de melhores tração dianteira dos anos 90? Não os conduzi a todos, mas é um forte candidato. Há máquinas que são intemporais e este modelo é um deles.

Se está à venda? O Jorge diz que não…

“Jorge, quanto é que queres pelo Clio?”, o Jorge olhou para o carro e disse que não sabia se o queria vender – entretanto, já está nesta dilema há mais de 15 anos.

Renault Clio Williams (34)

Para além do Jorge, este Clio só conheceu mais um proprietário. O estado dele não é imaculado, mas está em ótimas condições. Confesso que se estivesse imaculado, teria menos vontade de o conduzir. Os carros são para ser usados, e seria um desperdício este não ser usado como merece. Nasceu para ser conduzido e no que depender de mim, cumprirá certamente o propósito com que foi produzido.

Parte boa: 24 anos depois, confirmo que o puto de 6 anos tinha motivos de sobra para gostar do Williams. Parte má: 24 anos depois, continuo a não conseguir comprar um – e já não tenho a desculpa dos cromos nem das guloseimas. E sim, ainda continuo a comprar revistas, mas gosto de pensar que através da Razão Automóvel, gratuita e online, estou a contribuir para que os mais jovens apreciadores de automóveis poupem uns trocos. Ao contrário de mim…

Se for dinheiro poupado para comprar um Williams tanto melhor.

Renault Clio Williams (24)

Nota: Uma vez mais obrigado à Sportclasse por ter emprestado as chaves de um dos seus carros de coleção.

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