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O bom, o mau e o vilão. Os carros que marcaram a era Marchionne

O bom, o mau e o vilão… não, não vamos falar sobre o filme, mas sim, sobre automóveis. Aqueles que marcaram a liderança de Sergio Marchionne à frente da FCA.

O recente e rápido desaparecimento de Sergio Marchionne, que liderou os destinos do Grupo Fiat, Chrysler — que se fundiriam na FCA —, e Ferrari (após o spinoff desta), deixou um vazio no universo automóvel. Figura pouco consensual, incansável era também um dos mais exigentes CEO do setor. Reconhecido pela frontalidade, nunca teve problemas em dizer as coisas tal e qual elas são, sem “paninhos quentes”; dirigiu com um pragmatismo incomum dois grupos que todos diziam estarem condenados, e tornou-os lucrativos, sustentáveis e sem dívidas.

Mas quando o assunto são automóveis — objetos com elevada carga emocional, muito longe da gestão pragmática de Marchionne — serão muitos poucos aqueles que gostaram das suas decisões.

Reunimos alguns automóveis da “era Marchionne”, aqueles que acertaram na mouche, outros nem por isso, e os verdadeiros “badass”…

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O bom

Destacamos o Fiat 500, o Alfa Romeo Giulia e praticamente tudo com símbolo Jeep. Do outro lado do Atlântico, o Chrysler Pacifica e a incontornável Ram Pick-up, sem esquecer a “outra” Fiat, a da América do Sul, destacando modelos como a pick-up Toro ou o Argo, aquele que poderia ser o sucessor do Punto por cá.

Modelos que se destacaram e destacam-se pelo seu sucesso comercial, juntamente com excelente rentabilidade. No caso do Giulia, mais importante ainda, é talvez a tentativa mais séria e, do nosso ponto de vista, com melhores probabilidades de sucesso, no recuperar da marca italiana.

O mau

Em claro destaque o Fiat 500e, não pelo carro em si — que sempre recebeu excelentes críticas —, mas pelo efeito nas contas da FCA. São infames as palavras de Marchionne:

Espero que não o comprem, porque cada vez que vendo um perco 14 mil dólares. Sou honesto ao ponto de vos dizer isso.

2013 Fiat 500e
Apesar das excelentes críticas pelos média, o Fiat 500e foi um muito mau negócio para a FCA. Trata-se de um carro que nasceu apenas e só para a FCA estar em conformidade com os requisitos californianos: para comercializar automóveis no Estado da Califórnia, um grupo automóvel tem de ter pelo menos uma proposta de zero emissões ou então pode comprar créditos de carbono a outros construtores. Como tal, o investimento no seu desenvolvimento — a cargo da Bosch —, e produção — incompatível com a linha de produção do 500 com motor de combustão —, fez disparar o custo por unidade para valores incomportáveis. A principal forma de o adquirir em novo é através de leasing, que chega a ser tão baixo como 99 dólares por mês.

Os clones da Chrysler com símbolo Lancia podiam ser evitados — pouco tempo após a aquisição da Chrysler, chegou a ser comentado um plano de transformar a Chrysler e e Lancia nas duas faces da mesma moeda, um pouco como a Opel e a Vauxhall . O Lancia Thema, Flavia e Voyager — exercícios “puros e duros” de badge engineering dos, respetivamente, Chrysler 300, 200 Convertible e Town&Country — apareceram tão depressa como desapareceram. Diga-se que não fizeram favores nenhuns à Lancia…

As berlinas Chrysler 200 e Dodge Dart, tal como o 500e, não são automóveis maus, ambas as propostas eram baseadas na plataforma CUSW — uma evolução da plataforma do Alfa Romeo Giulietta —, mas revelaram-se inadequados. Não só as berlinas “compactas” (como os americanos lhe chamam) têm sofrido no mercado contra os SUV/crossover, como a sua rentabilidade é insuficiente — as vendas para frotas adicionam volume, mas não o retorno necessário. Mais uma vez, recordamos as palavras de Marchionne:

Posso vos dizer agora que tanto o Chrysler 200 como o Dodge Dart, apesar de serem produtos bons como eram, foram os empreendimentos menos recompensadores financeiramente que fizemos dentro da FCA nos últimos oito anos. Não conheço um investimento que fosse tão mau como estes dois foram.

O Dodge Dart chegou a conhecer uma segunda vida como Fiat Viaggio na China, do qual foi declinado o Fiat Ottimo, a versão de dois volumes e cinco portas, mas também não conhecerem grande sucesso.

O vilão

Integramos neste grupo as máquinas que nos fazem ferver o sangue. Colocá-las no grupo dos “bons” parecia inadequado — são mais do que isso. Apelam ao nosso lado negro, ao cheiro a borracha queimada, ao ruído de poderosos motores alimentados a muitas octanas… e felizmente, a FCA não se esqueceu delas. Apesar de todo o pragmatismo presente na gestão de Sergio Marchionne, teria de haver alguma veia petrolhead no CEO.

Como justificar um novo Viper? Ou o Hellcat…everything? Uma marca com poucos recursos como a Dodge revitalizou a sua imagem com este obsceno V8 Supercharged (Hellcat é o nome do motor) de mais de 700 cv, que acabou por encontrar lugar no Challenger, Charger e… Jeep Grand Cherokee. E que estaria na origem do destruidor das “drag strips” Demon, o único carro de produção capaz de fazer um “cavalinho”!

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Também transformou a Abarth numa marca de pleno direito, por exemplo — dando-nos preciosidades como o 695 Biposto. O renascimento da Alfa Romeo deu-se com o junior supercar 4C e o primeiro Giulia que conhecemos foi o todo-poderoso Quadrifoglio, com motor “by Ferrari”. E falando na Ferrari — polémicas SUV à parte — foi com o seu aval que tivemos criaturas como o híbrido LaFerrari, ou o último e glorioso capítulo dos V8 naturalmente aspirados na marca, o 458.

O que vem a seguir?

Durante os próximos anos veremos ainda produtos concebidos sob a batuta de Sergio Marchionne. O plano apresentado a 1 de junho revelou o que podemos esperar: forte aposta na eletrificação, sobretudo na Maserati, mas também na Alfa Romeo, Fiat e Jeep. Em termos de produtos específicos, esperem um baby-Jeep, posicionado abaixo do Renegade; o sucessor do Fiat 500 e Panda; novos SUV da Alfa Romeo, mas também um novo GTV — coupé de quatro lugares —, e o 8C, um superdesportivo. Também a Maserati terá um novo coupé e spider, além de um SUV mais pequeno do que o Levante. Não nos podemos esquecer também que o infame FUV — Ferrari Utility Vehicle — vem a caminho.

Esperam-se anos muito interessantes para a FCA. Nada disto seria possível sem o legado de Sergio Marchionne.

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