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Piloto por um dia ao volante do Abarth 695 Biposto

Este artigo não é apenas um ensaio ao Abarth 695 Biposto. Também é sobre o meu sonho de ser piloto, nem que fosse apenas por um dia. E fui, ao volante deste endiabrado escorpião.

O ensaio ao mais venenoso dos escorpiões surgiu por acaso, nem eu estava à espera. Ainda tenho a mensagem da marca guardada com convite.

Queres levar o Biposto? Está pronto.

Foi como perguntar a um cego se quer ver. Confesso que tive de ler a mensagem duas ou três vezes. À minha resposta “Isso era perfeito”, recebi a confirmação da hora de levantamento.

Com muita expectativa e o sorriso de miúdo a quem prometem o mais apetecido dos brinquedos, lá fui buscar o Abarth 695 Biposto.

Porquê tanta excitação?

Quem gosta de automóveis sabe que o Biposto é o mais puro dos escorpiões, aquele que exibe de forma mais exuberante o ADN da competição que definiu a longa história da Abarth desde 1949. Tudo neste carro é elevado ao máximo. Experiência de condução, redução de peso, potência, tração, travagem, e muito mais.

Se a minha ansiedade já era muita, tudo evoluíu para um patamar mais elevado quando vi o meu sonho realizado: ser piloto! Nem que fosse apenas por um dia.

É assim que nos sentimos ao volante do Abarth 695 Biposto, seja qual for o andamento que imprimimos. Podemos até estar apenas a fazer a volta de reconhecimento, a conduzir dentro do paddock, ou arrefecer motor, travões e pneus. Tudo neste carro é sensorial.

Aliás, o 695 Biposto é na sua essência um verdadeiro carro de competição a quem alguém por engano montou uma chapa de matrícula. Mas vamos avançar, ponto a ponto, para perceberem porquê.

Abarth
Hoje com estatuto de marca, a Abarth começou a sua atividade como preparadora. Fundada em 1949 por Carlo Abarth, a «casa do escorpião» sempre teve uma especial predileção por modelos desportivos, sobretudo da marca e Grupo Fiat. Em 2009 a Abarth pegou no bem-sucedido Fiat 500 com o objetivo de criar uma versão “apimentada” do citadino italiano. Nasceram assim as versões Abarth do 500. O Biposto é o expoente máximo.

Redução de peso ao máximo

Para vos situar, com todos os opcionais de redução de peso, o Biposto pesa tão somente uns 997 kg. Como? A redução de peso foi levada ao extremo. Não há lugares traseiros, e em vez disso temos um rollbar traseiro em titânio que funciona como reforço estrutural. Esqueçam qualquer tipo de mordomia dos carros modernos — a experiência é tão extrema que não existe ar condicionado, nem rádio. Cruise control e sistemas de auxílio à condução também não são para as corridas, naturalmente.

Eu disse que era um carro de competição, não disse?

A redução de peso é extendida às jantes OZ, com apenas 7,0 kg cada uma, e aos pernos das rodas em liga de titânio. Também no interior contamos com titânio e carbono para uma redução de peso, como o punho da caixa e do travão de mão, ambos em titânio. Nas portas não existe… nada! Perdão, existe uma fita vermelha que serve de puxador, e uma ridícula e quase inútil rede, para além do manípulo de abertura da porta, o resto é apenas e só… fibra de carbono.

Estas fazem parte de um kitkit carbono — que coloca o mesmo material no tablier e consola, e ainda nas costas das soberbas baquets Sabelt.

Não sendo suficiente, ainda existem as janelas em policarbonato — mais um kit opcional — com apenas uma pequena abertura para fazer passar… a carta de controle numa prova ou a carta de condução às autoridades. Para mais do que isso já é complicado.

Conseguir colocar o braço de fora para pagar uma portagem é… um desafio. É hilariante, mas tão único que só por si vale a experiência.

Afinal, não nos esqueçamos que quem está mal sou eu, que ando com um carro de corrida na via pública.

Não é tudo. O kit especial 124 coloca-lhe capot de alumínio, e tampa do depósito e do óleo do motor em titânio. Isto sim são opcionais…

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Abarth 695 Biposto
Carbono por todo o lado…

Caixa de velocidades

Ora bem… como é que eu vos hei de dizer isto… Não há outra forma de o dizer. A caixa de velocidades (opcional) deste Biposto custa sensivelmente 10 mil euros. Sim, 10 mil euros. Chocado?  Posso-vos dizer que vale cada cêntimo.

É uma caixa da Bacci Romano, de engrenagens frontais — dog ring —, sem sincronizadores e que dispensa a embraiagem para mudar de relação. Não é tudo… esta caixa adiciona um autoblocante mecânico que faz com que o eixo dianteiro consiga colocar potência no chão de uma forma simplesmente absurda.

Que experiência! A caixa exige precisão e decisão no comando, não tem a mínima folga, e nas reduções o ideal é fazer ponta-tacão, uma vez mais… coisas de pilotos. Ainda assim é preciso apanhar o jeito, e por vezes depois da 1ª — que chega aos 60 km/h — ficamos pendurados com uma 2ª que não entrou, e perdemos o andamento. Falta de precisão, ou de hábito? Não sei, mas sente-se que faz parte da experiência.

Por falar nisso, a experiência, e coragem, de levantar o pé direito e, sem embraiagem, engrenar uma relação, seja em aceleração ou em redução é… memorável. Não ficamos no entanto com ideia de que poupamos tempo, já que a embraiagem é muito rápida e as passagens são muito curtas.

E os constantes ruídos metálicos das engrenagens entre todas as relações? Soberbo!

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Travões

Os travões Brembo cumprem escrupulosamente a sua missão. À frente temos discos perfurados de 305 x 28 mm. As maxilas de quatro êmbolos são em alumínio, o que contribui para a redução das massas não suspensas e naturalmente para a clareza das informações que nos chegam através do volante.

Posso comparar o Abarth 695 Biposto ao Porsche 911 GT3 RS?

Posso. São duas fórmulas distintas pensadas para atingir o mesmo propósito: oferecer a quem conduz a experiência de um verdadeiro carro de competição.

Abarth 695 Biposto
As jantes OZ de 18″ mais leves que qualquer outro Abarth. E os soberbos travões Brembo.

A eficácia do sistema leva a que os quatro piscas estejam constantemente a acender, tal é a desaceleração. Faz todo o sentido nos carros do dia-a-dia, mas num carro como o Biposto, talhado para pista e com um potencial de desaceleração tão grande, não faz sentido. Algo que os responsáveis se esqueceram de “afinar” nesta versão do Abarth.

Em pista os quatro piscas acendem na primeira travagem e dificilmente se voltam a apagar até à entrada nas boxes.

Chassis e suspensão

O controlo de chassis e o amortecimento da suspensão com amortecedores Extreme Shox — reguláveis — estão ao nível de um carro de competição, assim como a tração, para a qual o autoblocante mecânico faz milagres.

A suspensão é dura, muito dura, como aliás tem de ser, mas ao fim de um dia pagamos a fatura diretamente nas costas. Um desnível de poucos centímetros é suficiente para este escorpião ficar com o «ferrão no ar».

Abarth 695 Biposto
Dá para ter noção do curso da suspensão, certo?

Experiência intensa

A ausência de lugares traseiros projeta ainda mais o som do escape Akrapovic, assim como as janelas em policarbonato, que filtram tanto o ruído abertas como fechadas. O rollbar em titânio também serve para montar o opcional dos cintos de segurança de quatro pontos. Só faltaram mesmo estes para a experiência ter sido 100% real.

Kit Pista
O topo da experiência é alcançado com o Kit Pista. Inclui cintos de quatro pontos, sistema de telemetria e as baquets totalmente em fibra de carbono. Não estava presente na unidade ensaiada.

Aponta-se a frente e é mesmo ali que vamos entrar. Não existe a mínima subviragem porque o diferencial autoblocante mecânico é impressionante, irrepreensível, quase assustador num carro com uma distância entre eixos tão curta.

O 695 Biposto é para homens de barba rija, pilotos. É para ser conduzido sempre em modo Sport — nem faz sentido ter mais modo nenhum. É preciso força de braços para o volante, porque é um escorpião muito irrequieto. A relação peso potência é fantástica. São apenas 5,2 kg por cavalo. Os 100 km/h são atingidos em 5,9 segundos — desde que a 2ª relação entre direitinha.

A pressão máxima do turbo — 2,0 bar — é atingida entre as 3000 e as 5000 rpm, momento em que o Abarth 695 Biposto dispara de uma forma explosiva. Entre as 5500 e as 6000 é a altura ideal de passagem de caixa, confirmada pela luz de mudança de relação no painel, mas podemos ir até pouco para lá das 6500 rpm.

Biposto. Tão especial

É o mais egoísta dos carros em que já andei, afinal, é só mesmo para o piloto. É um carro que não faz sentido nenhum na estrada, mas é isso que o torna tão especial. Os sons ao volante — escape, caixa, pedras a saltar — são memoráveis.

O motor 1.4 Turbo, com 190 cv, chega e sobra para uma experiência de condução intensa.

São naturalmente poucas as unidades de um 695 Biposto que poderemos ver a circular por aí, pela sua excentricidade, pelo preço, pelo pouco sentido que faz ter um carro como este, mas ainda assim, teria outro valor se tivessem adicionado à sua exclusividade uma numeração para cada unidade. Afinal, com todos os opcionais disponíveis para o Biposto — kit carbono, kit janelas racing, kit especial 124, caixa de velocidades Bacci Romano, kit Pista — o valor de um Abarth 695 Biposto é de aproximadamente 70 000€. Sim, setenta mil euros.

Uma coisa é certa, poucos são os carros que oferecem uma experiência de condução como este Abarth 695 Biposto. Eu fui piloto por um dia, mas quem tiver um na garagem, pode ser piloto todos os dias.

Ficha técnica
Abarth 695 Biposto

Preço

unidade ensaiada

68.705

Versão base: €46.000

IUC: €167

Classificação Euro NCAP: 3 / 5

  • Motor
    • Arquitectura: 4 cilindros em linha
    • Capacidade: 1368
    • Posição: Tranversal Dianteira
    • Carregamento: Injeção indireta com turbocompressor
    • Distribuição: 4 válvulas por cilindro
    • Potência: 190 cv
    • Binário: 270 Nm
  • Transmissão
    • Tracção: Dianteira
    • Caixa de velocidades: Bacci Romano de cinco velocidades
  • Capacidade e dimensões
    • Comprimento / Largura / Altura: 3657 mm / 1627 mm / 1488 mm
    • Distância entre os eixos: 2300
    • Jantes / Pneus: 215/35 R18
    • Peso: 997 kg
    • Relação peso/potência: 5,2
  • Consumo e Performances
    • Consumo médio: 6,2 l/100 km
    • Emissões de CO2: 145 g/km
    • Vel. máxima: 230 km/h
    • Aceleração: 5,9 s
  • Garantias
    • Pintura e corrosão: 2 anos
    • Mecânica: 2 anos
  • Equipamento
    • Ar condicionado
    • Rádio
    • Vidros elétricos
Extras
Kit 124 especial - 4000€ Kit Racing Windows - 2500€ Kit Carbono - 5000€ Caixa competição Dog Ring - 10.000€ Kit Pista - 5000€
Avaliação
8 / 10
O facto de ser único, de me fazer sentir piloto em cada viagem, nem que seja só até ao fundo da rua, e de não haver, até ao momento, mais nenhum carro que me tenha proporcionado as mesmas sensações que senti ao volante do Biposto, faz com que este seja um carro muito especial, ainda que nada racional. A experiência de condução ao volante do Biposto é única, é um carro de troféu, sempre ao "máximo". Está tudo concentrado na condução, que é do mais intenso que podemos pedir, e é isso mesmo que conquista neste Biposto.
  • Experiência de Condução
  • Comportamento
  • Som
  • Preço
  • Posição de condução
Sabes responder a esta?
A que empresa se juntou a Abarth para a produção de um camião especial?
Não acertaste.

Mas podes descobrir a resposta aqui:

Iveco junta-se à Abarth. Deste casamento nasceu o camião Stralis XP Abarth

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