Durante uma semana Monterey foi a capital mundial da celebração do automóvel

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Monterey Car Week 2022

Durante uma semana Monterey foi a capital mundial da celebração do automóvel

A Monterey Car Week há muito que se tornou uma semana de celebração do automóvel, com corridas, concurso de elegância, exposições, desfiles, leilões e nem faltaram novidades.

Em Monterey, Califórnia, EUA

O Monterey Car Week tem as suas origens em 1950, localiza-se na baía de Monterey, à beira do Pacífico — 190 km a sul de São Francisco, EUA — e começou por promover eventos em que o automóvel era a grande estrela, primeiro com corridas nas vias públicas e exposição de modelos novos e alguns clássicos.

É o que nos confirma Sandra Button, a presidente Pebble Beach Concours d’Elegance: “era apenas um evento de apoio às corridas que chamavam mais público”.

Com o passar dos anos, o evento foi crescendo, passando a elencar diversas atividades sobre o grande lema agregador Monterey Car Week, até se tornar naquele que é considerado por muitos a maior celebração do automóvel do mundo, que se realiza tradicionalmente entre a segunda e terceira semana de agosto a cada ano.

2021 FOI ASSIM: Monterey Car Week 2021. Do automóvel meticulosamente restaurado ao mais futurista
Pebble Beach Tour, chegada
Sabia que…
O impacto financeiro do Monterey Car Week sobre a região supera já os 60 milhões de dólares, com os mais de 100 000 visitantes de fora do estado a ajudarem a chegar a essa importante verba. Tem ainda uma componente solidária, com doações de mais de dois milhões de dólares — 2,67 milhões este ano, um novo recorde, mais de 30 milhões de dólares acumulados desde o início desta ação de beneficiência no evento — que têm como destino 10 mil crianças carenciadas.

Museu vivo

Mais uma vez, deslocámo-nos a este muito especial evento na Califórnia e, como habitualmente, o calendário oficial da 71.ª edição da Monterey Car Week arrancou, a 17 de agosto, com a longa viagem Pebble Beach Motoring que leva uma caravana de preciosidades a cobrir uma distância de cerca de 1600 km ao longo da costa do Pacífico entre Seattle e Monterey, algumas das quais até vão participar no evento principal do programa, que é o Concurso de Elegância de domingo.

Para os que tinham menos tempo ou vontade de passar tantas horas dentro de veículos quase sempre mais desconfortáveis — acho sempre que os carros clássicos são melhores para admirar do que para experienciar… — a Tour d´Elegance liga Pebble Beach e a zona costeira conhecida como Big Sur. Passando, obrigatoriamente, pela pitoresca vila de Carmel-by-the-sea e de volta a Pebble Beach, pela sinuosa artéria circular 17 Mile Drive.

Aqui o cenário é marcado pela acidentada linha costeira, decorada com árvores altíssimas e, claro, o Cipreste Solitário, a árvore-símbolo da Península de Monterey que podemos ver nos uniformes da polícia local, bandeiras municipais, etc.

“Quem dá mais?”

A meio da semana começam a ser organizados vários leilões — de empresas com a prestígio e know-how da Gooding & Company, a leiloeira oficial do evento, da Bonhams ou da RM Sotheby’s. É assim desde o começo dos anos 90 (esta foi a 18.ª edição), estando agora entre os mais famosos e movimentados à escala planetária.

Espaço da Gooding & Company
Espaço da Gooding & Company.

Sem atingir o recorde unitário de 2018, este ano os leilões de Monterey renderam uma nova soma máxima histórica: nada menos que 469 milhões de dólares (aprox. 473 milhões dólares), superando o anterior recorde de 395 milhões (398,3 milhões de euros), fixado em 2015.

No relatório fornecido pela seguradora Hagerty consta também a informação de que foram leiloados 790 veículos clássicos de um total de 956 — uma taxa de sucesso superior a 80% —, mais de uma centena dos quais por valores acima do milhão de dólares.

A companhia em destaque foi, uma vez mais, a RM Sotheby´s, que leiloou o carro mais caro da semana, um Ferrari 410 Sport Spider de 1955, por 22,005 milhões de dólares, ainda assim abaixo do seu valor estimado, entre os 25 e os 30 milhões.

Muito distante ficou a Gooding & Company com a venda de um Bugatti Type 57 Atalante de 1937, que encontrou um novo dono pela quantia de 10,345 milhões de dólares.

Seguiram-se os Mercedes-Benz 540 K de 1937 (9,905 milhões de dólares), Hispano-Suiza H6C Torpedo de 1924 (9,245 milhões de dólares) e Ferrari 500 TRC Spider de 1957 (7,815 milhões de dólares), todos eles transacionados pelo RM Sotheby´s.

Paralelamente foram-se realizando outras exposições, de dimensão e importâncias variáveis.

O “Concorso Italiano” deu grande destaque aos 75 anos da Ferrari que se assinalam este ano, 2022, que até tiveram direito a parada e tudo. As “Lendas das autoestradas alemãs” celebraram os modelos germânicos mais rápidos naqueles que são os asfaltos públicos mais rápidos do mundo.

O “Concurso Lemons” (limões) distingue-se dramaticamente dos outros com alguns veículos com genes de aberração e outros simplesmente em avançado estado de decomposição a provocarem, nos visitantes, caretas semelhantes às que fazemos quando experimentamos a acidez do fruto na sua forma mais natural).

Nos vários eventos há também tendas carregadas de automobilia, quadros (alguns dos quais pintados ao vivo, diante dos carros), esculturas e outros objetos que fazem as delícias dos colecionadores.

Arte no Monterey Car Week

Um salão automóvel gourmet

Na sexta-feira aconteceu, então, a 19.ª edição do “The Quail — A Motorsports Gathering”, que se está a tornar cada vez mais um evento sucedâneo ao que dantes conhecíamos como salões de automóveis e que parecem estar, cada vez mais, à beira da extinção.

Lamborghini no Monterwy Car Week
Não é só de clássicos que se faz o Monterey Car Week. Há cada vez mais marcas a usar este palco para revelar os seus novos modelos, como a Lamborghini, que mostrou o Urus Performante, com Stephan Winkelmann, o CEO da marca italiana, a servir de anfitrião. © Razão Automóvel

Cada um dos 3500 visitantes (lotação limitada) paga 1500 dólares (1506 euros) — ainda assim, menos do que os bilhetes mais caros do concurso de elegância de domingo, que chegam aos 3000 dólares — para se passear (e não só) num relvado artificial muito bem tratado por entre automóveis clássicos, sim, mas cada vez mais, novos lançamentos.

Quase sempre a exigir muitas dezenas ou mesmo centenas de milhares de dólares/euros para levar para casa e até concept cars que deixaram, em muitos casos, de ter palcos condignos para se exibir. Uma espécie de salão automóvel para ricos… com muitas novidades (sigam a ligação).

Ilustre companhia

Claro que para além dos carros e dos visitantes mais ou menos excêntricos também deu para ver várias personalidades do universo automóvel como Mary Barra, CEO da General Motors, ou Franz von Holzhausen, chefe de design da Tesla.

Também Adrian Hallmark, CEO da Bentley, estava presente e foi «vítima» de um encontrão suave e dissimuladamente involuntário, quando estava a admirar uma das relíquias da Bentley que fez furor em Le Mans: “o seu próximo carro de serviço?” atiro, à falta de melhor inspiração, para uma resposta bem disposta do presidente da aristocrática marca britânica: “nem nos meus sonhos mais ousados”.

Mary Barra no espaço da Cadillac
Mary Barra, CEO da General Motors, no espaço da Cadillac;

Este tipo de encontros com diretores executivos, designers de topo ou até pilotos acontece com bastante frequência ao longo de todo o Monterey Car Week (muitos deles são jurados honorários do Pebble Beach Concours d’Elegance), notando-se que estão sempre muito descontraídos, ao ponto de reconhecerem e se darem ao trabalho de trocar algumas impressões com um jornalista com quem conversaram uma mão-cheia de vezes na vida.

Franz von Holzhausen a admirar clássico
Franz von Holzhausen, chefe de design da Tesla, — surfista convertido em designer convertido em surfista —, descoberto a admirar um clássico que gostaria de ter desenhado noutra vida.

Nuns casos encontros fortuitos, noutros menos, como o que tive com o “sr. Le Mans” no dia seguinte, no circuito de Laguna Seca, palco da Motorsport Reunion: “sim, é verdade, há uns 20 anos fizemos juntos uma viagem de Sevilha a Montecarlo numa pequena caravana de Bentley Continental GT”, diz-me Tom Kristensen, recordista absoluto de vitórias na 24 Horas de Le Mans (nada menos que nove).

É uma honra claro (e foram, exatamente, 20 anos), daquelas que insuflam o ego mesmo antes de arrancar para duas voltas ao traçado de Laguna Seca, ao volante de um Audi e-tron GT a tentar não perder o contacto com Kristensen, só possível porque o campeoníssimo dinamarquês não passou dos 60% da sua potencial raçidez.

Tom Kristensen com Jackie Icks
Tom Kristensen, aqui acompanhado por Jackie Ickx.

No final da experiência, saio do e-tron GT e quase sou abalroado por Henri Pescarolo, que caminha em passo quase tão acelerado quanto o que usou nas últimas das 33 edições de Le Mans nas quais correu (o que o torna o recordista de participações).

Isto porque uma das iniciativas aqui na Motorsport Reunion foi a de promover uma largada “à Le Mans”, ou seja, com os pilotos a correrem — ou em paso doble a poupar as «juntas» — para entrarem nas suas máquinas e saírem disparados para este momento de glorificação do passado.

Celebrar um século de Le Mans

Quase sem querer, já estamos bem metidos no circuito de Laguna Seca, onde as grandes vedetas da Monterey Car Week de 2022 são os vencedores de Le Mans nos seus 100 anos de história.

100 anos Le Mans
As 24 Horas de Le Mans vão celebrar em 2023 o seu centenário.

O Automobile Club de L´Ouest contactou os promotores da Monterey Car Week para que aqui tivesse lugar o pontapé de saída das comemorações do centenário (1923-2023) da corrida mais emblemática do mundo e a parceria nasceu com naturalidade.

“Esta é a mais completa e numerosa coleção de carros que correram em Le Mans alguma vez reunida nos EUA” explica, com evidente orgulho, Barry Topke, diretor de eventos clássicos e de relações públicas neste circuito. São mesmo muitos, meia centena dos quais foram vencedores (absolutos ou das respetivas categorias) ao longo do último século.

Monterey Car Week é também palco de corridas (que aqui decorrem desde 1974), reunindo mais de 500 clássicos — essencialmente europeus e americanos — por 14 grupos, com quatro categorias só para os carros de Le Mans (1923-55, 1956-71, 1972-1982, 1981-2005).

O circuito de Laguna Seca é conhecido pela corkscrew — ou saca-rolhas, um “s” em descida muito acentuada, de 18 m, e com ponto de entrada «cego» — e Jim Farley, presidente da Ford Motor Company, teve a sorte de por lá passar repetidas vezes durante estes dias.

Tudo porque andou a saltitar entre os seus dois carros de corrida, um Shelby Cobra 289 de 1966 e um Lola T298 da classe Le Mans 1972-82, tendo terminado em segundo nas respetivas classes — à frente dele e do seu Lola terminou um tal de Dario Franchitti, multi-campeão na Indycar, nas 500 milhas de Indianápolis e nas 24 Horas de Daytona,

Importância dos jurados e jurados importantes

Para serem admitidos no Pebble Beach Concours d’Elegance os candidatos devem apresentar-se à organização até ao início de janeiro. Têm que estar impecavelmente restaurados/conservados e, preferencialmente, sem terem participado em nenhum outro concurso ou mesmo em Pebble Beach nos 10 anos anteriores.

Juris do Pebble Beach Concours d'elegance
Nada é deixado ao acaso pelos júris do concurso de elegância em Pebble Beach.

A lista definitiva é divulgada em abril já com as diferentes categorias que vão a concurso: existem as “residentes” e as especiais específicas de cada ano, num total de 27 categorias em 2022.

Antes de passarem pelo criterioso crivo de qualidade dos jurados honorários — composto por diretores de design, diretores executivos e outros especialistas de automóveis das mais importantes marcas mundiais —, os candidatos são sujeitos à avaliação não menos competente de outros especialistas.

Juris do Pebble Beach Concours d'elegance
Os jurados honorários do Pebble Beach Concours d’Elegance desta ano.

Um deles é Ken Gross, jurado há mais de três décadas e uma verdadeira enciclopédia com pernas no que diz respeito a modelos classificados como Hot Rods.

Os 90 anos do histórico Ford Roadster de 1932 foram a motivação para a escolha desta classe (Ford Historic Hot Rods) e a definição feita por Gross é bastante precisa: “carros anteriores a 1960, modificados, com pouca carenagem, motor musculado e travões a condizer”. A isto se chama um especialista na matéria.

Hot rod Pebble Beach Concours d'Elegance
Um dos vários Hot Rods presentes no Pebble Beach Concours d’Elegance.

As classes de 2022

Mas a Ford Historic Hot Rods é apenas uma das oito categorias especiais de 2022. Fiquem com as restantes:

  • Lincoln Centennial — celebração dos 100 anos desde que Henry Ford comprou a falida marca americana;
  • Unorthodox Propulsion — sistemas de propulsão muito alternativos, como um carro movido a madeira, outro a carvão ou ainda dois veículos sem embraiagem e com pedais para o arranque;
  • Talbot-Lago Grand Sports — existem apenas 28 dos 32 exemplares fabricados no final dos anos 40;
  • Carrosserie Hermann Graber — carroçador suíço famoso pelo bom gosto na execução de descapotáveis e coupés de 1925 a 1970;
  • Alfa Romeo 8C 2300 — considerado o mais avançado touring car de sempre por muitos colecionadores;
  • McFarlan — o “Rolls-Royce” americano, com produção de 1910 a 1928 de que resistem apenas 20 unidades;
  • Otto Vu — Fiat que pensava que era um Ferrari, de motor V8, que foi usado entre 1952 e 1954 por alguns carroçadores de renome mundial;
  • Le Mans Centennial — oito dos carros na passadeira verde de Pebble Beach ainda deitavam fumo, acabados de chegar do circuito.

Ken Gross esclarece que “cada ano a escolha das categorias é feita com uma preocupação de criatividade, evitando que se repitam ou, no mínimo, que sejam variações inéditas”.

Best of show!

No desfile da tarde de domingo o direito a desfilar pela passerelle é concedido aos três primeiros classificados de cada classe, mas apenas o vencedor de cada uma da quase trintena de categorias acede ao glamoroso desfile final.

Nesta 71.ª edição, o Concurso de Elegância acabou por consagrar como “Best of Show” o Duesenberg J Figoni Sports Torpedo, de 1932. propriedade de Lee R. Anderson Sr. Um exemplar único do fabricante americano, que é o mais premiado na história septuagenária de Pebble Beach (soma agora sete títulos).

A presidente da organização, Sandra Button, destacou “o casamento da potência do motor americano com a criatividade do carroçador europeu”, numa vitória muito celebrada pelos donos deste clássico que chegou a ter o chassis separado da carroçaria antes de se ter iniciado o seu complexo processo de restauração.

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