500 mil euros

Há luxo e depois… há luxo. Ao volante do Cullinan Black Badge, o SUV mais exclusivo do mundo

Após um recorde de vendas em 2019 (5152 unidades, +25% do que em 2018), a Rolls-Royce quer conquistar novos grupos de clientes, bilionários mais jovens, especialmente nos EUA e na China, os seus dois principais mercados. Este "Coolinan", ou melhor, Cullinan Black Badge é a fórmula para fazê-lo.

Em Snow King Mountain, Estado do Wyoming, EUA

O Rolls-Royce Cullinan Black Badge, uma versão ainda mais exclusiva do imenso SUV, continua a ser um automóvel “à parte”. Com motor V12 de 6.75 l e 600 cv, é, literalmente, o Rolls-Royce dos SUV.

A longa espera valeu a pena porque depois de uma ou outra incursão do design relativamente aberrantes (durante a fase experimental), o Rolls-Royce Cullinan, o seu primeiro SUV acabou por nascer, em meados de 2018, como se imaginava: conforto quase infinito e ambições legítimas para sair de estrada e com rasgos que fazem sentido à luz dos cânones estéticos desta marca centenária.

Claro que a beleza está sempre nos olhos de quem observa e mesmo que diversos críticos não encontrem qualquer elegância neste Phantom “de saltos altos”, dificilmente se pode negar que o Cullinan tem uma aparência muito imponente.

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Rolls-Royce Cullinan Black Badge

Mas isso já foi quase há dois anos e o que agora temos em mãos é o Cullinan Black Badge, ou BB para “os amigos”. Com esta linha, a Rolls-Royce quer atrair um público mais jovem que não se identifica com a imagem institucionalmente séria da marca inglesa, nas mãos do BMW Group.

Spirit of Ecstasy
A estatueta Spirit of Ecstasy que coroa o topo da grelha de todos os Rolls-Royce, tem no Cullinan a sua mais alta colocação de sempre, 8,7 cm mais alta do que alguma vez brilhou no capot de um Rolls em 106 anos de história.

No exterior chamam a atenção os elementos negros que seduzirão artistas, desportistas e influenciadores (muito, muito relevantes…) deste mundo: grelha do radiador, estatueta Emily, R duplo em fundo preto e, por dentro, o símbolo bordado nos fabulosos encostos dos bancos e gravados nas soleiras das portas: “é uma espécie de alter ego da Rolls-Royce”, arrisca Torsten Müller -Ötvös, chefe da marca britânica de hiper-luxo.

Depois dos Black Badge Wraith, Ghost e do descapotável Dawn, o Cullinan também passa a existir com um feitio mais irreverente. O nobre SUV, que mais parece um castelo sobre rodas, é surpreendentemente cool e descontraído nesta versão de insígnia negra.

Rolls-Royce Cullinan Black Badge

As jantes forjadas de 22″ rodam nos luxuosos arcos das rodas, entre cujos raios brilham pinças de travão vermelhas brilhantes, pela primeira vez na história da empresa (um verniz desenvolvido especialmente para suportar altas temperaturas).

Ou seja, o preto não é a única cor possível neste carro e essa designação é até enganadora porque o Cullinan Black Badge pode ser encomendado em uma das 44 000 variações de tons que a Rolls-Royce oferece nos seus ateliês.

E se o cliente puder pagar — e sim, pode pagar… — pode até definir sua própria pigmentação personalizada: tudo aplicado em várias camadas de tinta e cuidadosamente polido dez vezes à mão. Se isso ainda não for suficiente, existe ainda a Coach Line, uma linha contrastante ligeiramente elevada que é aplicada manualmente nos dois lados do veículo por dois funcionários especialmente treinados na fábrica de Goodwood.

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V12 com mais uns pozinhos de magia…

Enquanto em termos de proporções, dimensões e relação entre carroçaria e superfícies vidradas existe uma clara aproximação a um Range Rover, no que toca a sistemas de propulsão o Cullinan Black Badge não vai de modas e enche a boca para anunciar o que o faz mover.

Nada de oito cilindros ou seis cilindros com reforço de propulsão elétrica até porque o SUV da Rolls-Royce (produzido na plataforma que o novo Phantom estreou uns meses antes, feita em alumínio com o sugestivo nome de “Luxury Architecture”) faz questão de estar bem apetrechado para rubricar prestações dignas de um desportivo — notável considerando o seu peso a rondar as 2,7 t (e vazio).

Rolls-Royce Cullinan Black Badge

O motor é o 6.75 V12 biturbo montado na frente do Cullinan de 5,34 m de comprimento, aqui com 600 cv e 900 Nm, ou seja, mais 29 cv e mais 50 Nm do que no Cullinan “normal”.

E assim ficam explicadas as tais prestações “de desportivo” (a relação peso/potência de 4,5 kg/cv ajuda a perceber quase tudo), conforme o disparo desta massa mastodôntica até aos 100 km/h em breves 4,9s ou os 250 km/h de velocidade de ponta (eletronicamente “amordaçada”) bem o ilustram (uma espécie de cruzamento de elefante com gazela).

Mesmo admitindo um consumo médio de 15,1 l/100 km (forçosamente num trajeto com muitas estradas a descer…) a Rolls-Royce diz que não tem planos para fazer uma versão híbrida a curto prazo nem nada a puxar a carroça com menos de uma dúzia de cilindros, mas é do domínio público que há projetos para eletrificar todo o seu portfolio a médio/longo prazo e nem poderia ser de outra forma ou condenar-se-ia a uma solitária existência futura apenas em museus…

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1344 luzes no céu

O acesso ao interior digno de reis é feito, atrás, por portas de abertura invertida, como no Phantom, e todas (incluindo o portão da bagageira com 525/560-1930 l de capacidade) são operadas eletricamente.

Rolls-Royce Cullinan Black Badge

Para que os utilizadores de sangue azul não sintam qualquer desconforto ao entrar no Cullinan ele desce 4,0 cm numa espécie de vénia reverente para evitar estiramentos excessivos das pernas humanas (para tal basta pressionar um botão no comando da chave, regressando depois sozinho à altura normal quando o V12 é ligado).

Espaço não falta (com uma distância entre-eixos de 3,30 m mal seria…) seja com cinco ou quatro ocupantes, mas claro que a versão de duas poltronas individuais atrás é mais exclusiva, com monitores individuais, mesas, regulações elétricas, ventilação, refrigeração e massagem e tudo o que Suas Majestades possam desejar.

Rolls-Royce Cullinan Black Badge

Ao contrário do que acontece no Phantom aqui o último pilar do habitáculo está depois de quem se senta atrás e o facto da superfície vidrada ser bastante ampla acaba por “expor” bastante tão distinta “carga”, pelo que muitos Cullinan serão certamente comprados com vidros escurecidos atrás, para assegurar a apreciada reserva de identidade.

As enormes e luxuosas poltronas (cobertas por pele de vaca certamente massajada em sessões de relax ao som de valsas de Strauss nos verdejantes alpes bávaros) têm aquecimento e ventilação e parecem ser acolchoadas com nuvens. E nas traseiras (que podem ser duas ou três) há assentos mais altos que os da frente para que os passageiros mais importantes do veículo tenham uma visão tão livre quanto possível enquanto a viagem dure.

Também o painel de bordo é coberto por uma pele negra resistente à água e normalmente utilizada em malas de marcas de luxo. Onde não há couro, os designers contam com acabamentos de fibra de carbono, cada um coberto com seis camadas de laca, endurecidas por 72 horas e cuidadosamente polidas à mão. O processo tarda 21 dias, explica a Rolls-Royce, e as 23 peças em carbono são então verificadas por especialistas para tornar os reflexos uniformes.

Um destaque especial é o “Starlight Headliner”: 1344 luzes de fibra ótica que criam a ilusão de um céu estrelado. Quando o motor arranca, quase uma dúzia de estrelas cadentes passam por cima das cabeças dos ocupantes da frente. Pode soar a piroso, mas é impressionante e chega a ser um espetáculo viciante, especialmente quando se conduz no escuro.

Rolls-Royce Cullinan Black Badge

Na configuração de dois bancos (individuais) atrás pode haver um pequeno frigorífico e dois flutes de champanhe para celebrar a vida (guardados com proteção anti-choque para que não se estilhassem, mesmo com o amortecimento de nuvem desta suspensão), mas a ligação ao passado também pode ser feita com a montagem de um vidro para separar o habitáculo do porta-bagagens, remetendo para os tempos idos em que a bagageira dos automóveis era um compartimento separado e preso à traseira do carro.

Com três lugares atrás (configuração Lounge) há um banco com encosto dividido em duas partes assimétricas que podem ser reclinadas eletricamente. Uma vez deitadas na horizontal, as costas ficam mais altas do que o piso da bagageira, impedindo que quaisquer volumes escorreguem e invadam o compartimento de passageiros (mas também se pode pressionar um botão para que este desnível seja eliminado).

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Camarote com vista para as corridas

O portão traseiro tem uma dupla abertura, podendo a parte inferior ser usada como base para duas cadeiras que se instalam (a troco de qualquer coisa como 15 000 euros…) viradas para o exterior para servirem de bancada privada para um dia de champanhe, caviar e emoções nas corridas de cavalos de Ascot.

E mesmo que a chuva queira presenciar os sprints equídeos, os torneados chapéus das damas não têm porque se molhar dado que, embutido na porta traseira, há um guarda-chuva da cor do interior do Cullinan que tem circulação de ar permanente à sua volta para que eliminar a humidade.

Com tanto cuidado com o detalhe é uma surpresa ver que o ar condicionado não é automático (apenas comandos rotativos para mais quente ou mais frio e mais ou menos forte).

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Shhhhhhhhh… estamos nas nuvens

No caso da experiência ao volante que aqui lhe trazemos nem sequer se coloca a questão porque no estado do Wyoming e na zona de Snow King Mountain, por onde conduzimos, o trânsito é escasso e há mais semáforos do que pessoas na rua.

A primeira constatação é de que os cerca de 100 quilos de material de isolamento acústico que o carro recebeu são um luxo pouco consentâneo nos nossos dias para a maioria das marcas (cada grama pesa em emissões…) mas que aqui são determinantes para que a paisagem lá fora passe como um filme que estamos a assistir sem som.

Rolls-Royce Cullinan Black Badge

Até o V12 (cedido pela BMW, mas muito trabalhado pelos engenheiros ingleses) parece mudo em muitos momentos da aceleração quase dando a sensação de estarmos a bordo de um SUV elétrico, tanto pelo silêncio como pela linearidade e prontidão da resposta, sempre em muito boa cooperação com a suave e rápida caixa automática de oito velocidades (com a competente assinatura da ZF).

A suspensão pneumática recorre ao sistema de 48 V que intervém em fracções de segundo; analisa a aceleração da carroçaria, das rodas, o movimento do volante e os dados da câmara para ajustar o amortecimento e as barras estabilizadoras ativas que dão importante contributo para evitar um rolamento excessivo da carroçaria, que não deixa de se sentir em curvas mais fechadas e a velocidades mais altas — não há milagres num SUV com perto de três toneladas e lotação esgotada…

Rolls-Royce Cullinan Black Badge

Seja como for, esse comportamento não desvirtua a essência de um Rolls-Royce, mais focado no conforto extremo do que na agilidade, mesmo que o eixo traseiro direcional faça com que o Cullinan se mova com mais facilidade em ambientes menos desafogados do que poderíamos supor e mesmo em condução mais veloz.

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Meio milhão de euros na lama?

O Cullinan é o primeiro Rolls-Royce de produção em série com tração às quatro rodas e que juntamente com suspensão elevada (para uma capacidade de vau de até 54 cm) e binário “infinito” (embora não haja redutoras) as probabilidades de ficar atascado são reduzidas, mas ainda assim a ideia assusta…

O interface ao lado do comando multimédia apenas permite selecionar o programa Offroad e depois o SUV adapta-se sozinho ao tipo de piso. Talvez por não ser um carro que vá sair muito do asfalto, a seleção de lama, gravilha, neve, etc tenha sido deixada para os menus do info-entretenimento.

Rolls-Royce Cullinan Black Badge

Fica maximizada a aderência, o que é feito por uma espécie de “empurrão” das rodas para o solo, ao mesmo tempo que os travões são operados individualmente em cada uma das rodas e controlada a distribuição de binário.

Neste modo o acelerador assume uma resposta mais suave, a suspensão é recalibrada para a posição mais alta, o amortecimento torna-se mais duro e o controlo de tração passa a ser mais tolerante para admitir algum deslizamento das rodas e não estar permanentemente a intervir em superfícies soltas. Como as de gravilha e terra das pistas de esqui que subimos com uma facilidade quase insultuosa — mesmo com pneus “de verão” quase sem recorrer a um efeito simulado de redutoras que se obtém na posição “Low” da transmissão.

No sentido inverso deu para ver que o sistema de Controlo de Descida de Pendentes funciona a preceito, permitindo ajustar a velocidade em andamento como é conveniente. Tudo bastante simples, porque este carro não é para fanáticos da condução, mas sim para amantes da viagem que já é, em si mesmo, um destino.

Sobre a instrumentação há ainda a referir a sua convincente apresentação clássica, onde permanece a tradição de mostrar a Reserva de Potência (binário disponível em percentagem), que joga com as saídas de ventilação que têm que ser puxadas para deixar passar o ar.

Em todo o trajeto ficou provada a integridade da construção do Cullinan à custa da tal nova plataforma estreada no Phantom em 2018 (30% mais rígida que a do seu antecessor).

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SUV mais exclusivo do mundo

Na Alemanha o Cullinan Black Badge tem um preço de entrada a bater nos 400 000 euros — com os impostos “à portuguesa” serão inflacionados para perto do meio milhão de euros.

O que quer dizer que este passa a ser o SUV mais exclusivo do mundo, como assenta bem a um Rolls-Royce, muito acima de um Bentley Bentayga Speed, o seu mais próximo rival, ainda assim 19 cm mais curto e quase 150 kg mais leve.

São quase 100 000 euros mais do que o Cullinan sem Black Badge, mas a este nível de preços torna-se difícil para um comum mortal emitir juízos de opinião sobre o que vale ou não vale a pena…

Rolls-Royce Cullinan Black Badge

Texto: Joaquim Oliveira/Press-Inform.

Primeiras impressões

7 / 10
A aristocrática Rolls-Royce conseguiu criar uma limusina de luxo com aptidões para se sujar fora de estrada, mesmo que com baixas probabilidades de o fazer. Nesta variante Black Badge, recheada com ainda mais requintes de malvadez, torna-se na poltrona sobre rodas mais perfeita a que alguém pode aspirar neste mundo. E com um preço a condizer.

  • Luxo e qualidade geral

  • Qualidade de rolamento

  • Prestações

  • Preço

  • Ar condicionado sem automático

  • Modos de condução só selecionáveis por menus


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