Automóvel. O «corpo estranho» que traz vida e dinheiro às cidades

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Automóvel. O «corpo estranho» que traz vida e dinheiro às cidades

Querem transformar o automóvel no «inimigo público n.º 1» nas nossas cidades. Agora até o Primeiro-Ministro o apelida de «corpo estranho».

Depois de há umas semanas ter mostrado bom-senso ao pedir à União Europeia o adiamento da entrada em vigor das normas de emissões, o nosso Primeiro-Ministro, António Costa, decidiu «atacar» o automóvel.

Segundo António Costa, “As cidades levaram, desde o pós-guerra, 50 anos a adaptarem-se para acomodar o corpo estranho que era o automóvel. Agora temos muito menos tempo para nos habituarmos a viver sem esse corpo estranho”.

Tal aconteceu à margem da cerimónia de consignação da empreitada de construção da Linha do Hospital do Sistema de Mobilidade do Mondego, em Coimbra.

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A tudo isto, o Primeiro-Ministro acrescentou ainda — de forma alarmante e nada otimista — que para assegurar a sobrevivência da humanidade “o melhor a fazer é estacionar o automóvel” e que o país se deve concentrar em “encontrar um novo sistema de mobilidade”.

Convém ainda ter em conta que muitos dos automóveis que entram nas nossas cidades provêm dos subúrbios para onde muitos portugueses foram «empurrados» pelo aumento sistemático do custo da habitação.

O que o nosso Primeiro-Ministro se parece ter esquecido é de que o setor automóvel representa uma parte importante do PIB nacional.

Outro fator que parece ter sido descartado é o peso do malfadado automóvel na receita fiscal. Basta ver que entre janeiro e maio de 2022 o Estado arrecadou 1718,9 milhões de euros com o ISP.

A este imposto há que juntar os valores arrecadados com o IUC, portagens, e os inúmeros impostos que pagamos sempre que decidimos comprar um carro novo. Feitas as contas o setor automóvel representa mais de 20% da receita fiscal em Portugal — o que não difere substancialmente dos restantes países europeus.

Isto não significa que não se deva promover o uso dos transportes públicos ou de mobilidade suave em meio urbano. Tem tanta importância numa cidade uma bicicleta ou o metro como tem o automóvel.

Para cada necessidade de mobilidade há uma solução, e dificilmente atacando uma em detrimento da outra vamos resolver os problemas com que as cidades se deparam há já demasiados anos.

Convém ainda ter em conta que muitos dos automóveis que entram nas nossas cidades provêm dos subúrbios para onde muitos portugueses foram «empurrados» pela falta de planeamento das nossas cidades num primeira fase e, mais recentemente, pelo aumento sistemático dos custos da habitação.

Achar que os milhões de automóveis que entram todas as semanas nas nossas cidades podem desaparecer está perto da utopia. A rede de transportes atual já tem dificuldade em responder às necessidades daqueles que a utilizam, imaginem como seria se esse número fosse ainda maior.

Autocarro STCP
Mesmo sem um aumento da procura, a rede de transportes públicos já tem dificuldades para responder às necessidades dos seus utilizadores, principalmente nas horas de ponta.

Por fim, ao considerar o automóvel um «corpo estranho», António Costa parece esquecer-se que Portugal não é apenas Lisboa e Porto. São várias as capitais de distrito às quais os moradores dos concelhos vizinhos dificilmente chegam a não ser no seu automóvel — e não se prevê que haja alternativa viável em tempo útil.

Por lá o carro não é um luxo, mas sim quase um bem de primeira necessidade. Seja para aceder a cuidados médicos ou a outros serviços que, infelizmente, cada vez mais escasseiam nas aldeias, vilas e cidades de um país cuja distância geográfica não deveria permitir distinções entre «litoral» e «interior».

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Qual destes modelos foi criado especificamente para o mercado nacional?
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Mas pode descobrir a resposta aqui::

Portugal. Os automóveis “nacionais” criados pelos impostos e portagens

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