Desde 30 133 euros

Volkswagen Golf 2.0 TDI testado. Mais do mesmo? Olhe que não, olhe que não…

A oitava geração do Volkswagen Golf já se encontra entre nós e é a mais digital e conectada de sempre. Colocámos à prova o 2.0 TDI com caixa manual.

“Mais do mesmo” tem sido a principal acusação feita ao Volkswagen Golf geração após geração. Acusação justificada pela aposta da Volkswagen numa evolução linear, sem transições abruptas — mesmo quando as há e não as vemos — em relação aos seus mais imediatos antecessores.

É uma abordagem conservadora? Sim, mas… Não tem sido impedimento para o Golf ser a bitola pela qual os outros se têm medido ao longo das décadas, reunindo um conjunto de características, sejam elas objetivas ou subjetivas, que o tornam, por defeito, numa das propostas mais completas e competentes do segmento.

Os resultados são inegáveis e o Golf tem sido, com poucas exceções, o automóvel mais vendido na Europa desde há muitos e muitos anos. Se funciona, para quê mudar, certo?

VÊ TAMBÉM: Testámos o Volkswagen Golf 1.5 eTSI. Tem o que é preciso para continuar a liderar?

Bem, parece que desta vez a Volkswagen mudou mais do que é o habitual e é evidente o salto entre a sétima e oitava geração. No entanto, quando olhamos para ele, não parece. Por fora continua a ser um… Golf — o perfil é inconfundível:

Volkswagen Golf 2.0 TDI First Edition
Inconfundível. Dois volumes bem definidos, pilar C típico na forma e generoso em dimensão, contenção na expressividade dos vários elementos, rigor e precisão na execução, permanecem fiéis à identidade do Golf. © Thom V. Esveld / Razão Automóvel

Invasão digital…

Se por fora tenho de ceder à opinião que é “mais do mesmo”, quando nos instalamos no seu interior não podia estar mais longe da verdade — o salto foi radical.

De fora ficaram botões, interruptores, manípulos… O design muito mais minimalista e sofisticado em aparência é composto, sobretudo, por comandos e superfícies táteis, com (praticamente) todas as funcionalidades a concentrarem-se nos dois ecrãs.

É notório o esforço dos designers em conseguirem uma integração mais harmoniosa e coesa dos ecrãs e comandos no todo, colocando-os sobre uma unificadora e contínua superfície em preto brilhante (que ganha sujidade com alguma facilidade, diga-se…). O resultado final convence bem mais do que noutras propostas — com tablets “espetados” na consola central —, mas esta digitalização massiva traz um custo.

VÊ TAMBÉM: Teste completo ao novo Mercedes-Benz A180d (W177)

E esse custo chama-se usabilidade. A concentração de funções no sistema de infoentretenimento (até as mais usadas como a climatização); ou os vários comandos táteis sem resposta háptica dificultam a operação do interior, obrigando a mais precisão e concentração da nossa parte.

Não é uma crítica específica ao Golf, mas sim à indústria no geral. A digitalização dos interiores dos automóveis já decorre há vários anos e os resultados práticos, na larga maioria, deixam a desejar nestas questões de usabilidade e ergonomia no geral.

VÊ TAMBÉM: Proibido de conduzir por usar sistema de infoentretenimento? Aconteceu na Alemanha

…, mas ainda analógico

Entramos no novo Volkswagen Golf e não há que enganar: este é um carro de séc. XXI. Estamos rodeados pela nova realidade “tátil” e digital que cada vez mais domina o interior dos automóveis, o que torna ainda mais curiosa a experiência de condução. É que de digital e sintético a experiência de condução do Golf nada tem, e ainda bem que assim é.

A começar, o “nosso” 2.0 TDI vem equipado com uma mecânica e interativa caixa manual de seis velocidades, cuja substancial alavanca até parece não ter lugar neste sofisticado interior — nada a ver com o muito mais diminuto e delicado manípulo shift-by-wire das versões DSG.

Manípulo da caixa de velocidades manual © Thom V. Esveld / Razão Automóvel

A sua ação é positivamente mecânica, apesar de não tão “oleada” como algumas unidades japonesas. O escalonamento está muito bem ajustado ao 2.0 TDI, o curso é adequado e há algum peso na sua ação, em perfeita harmonia com os restantes comandos, como a direção.

Sim, a direção não é tão leve como seria de esperar, mas ainda bem que assim é, pois dá-nos uma “base” onde nos apoiar com confiança quando abordamos curvas de forma mais entusiasmada. Esta é complementada com um volante corretamente dimensionado e espesso q.b. que resulta numa muito boa pega.

Bancos dianteiros
De aparência simples, mas bastante confortáveis e muito bons em dar suporte ao corpo. © Thom V. Esveld / Razão Automóvel

O Volkswagen Golf não entretém nas curvas como um Ford Focus, mas não deixa de possuir uma certa qualidade orgânica na forma como lida com as secções mais enroladas da estrada que é muito satisfatória. Isto sem nunca comprometer a estabilidade ou o conforto dos ocupantes. Aliás, o equilíbrio dinâmico está num patamar bastante elevado, sendo um dos melhores do segmento.

TENS DE VER: Qual é o melhor SUV 2020? Captur vs 2008 vs Kamiq vs Puma vs Juke

Estradista nato

Mas onde o Volkswagen Golf surpreendeu mais foi na autoestrada — bem… não deixa de ser original do país das autobahn. Não me recordo de ter conduzido um carro deste segmento que fosse tão estável e imperturbável como o compacto alemão.

Volkswagen Golf 2.0 TDI First Edition © Thom V. Esveld / Razão Automóvel

Longas tiradas a velocidades de cruzeiro elevadas são uma brincadeira de crianças. A estabilidade impressiona — mesmo quando em algumas das nossas autoestradas surgem curvas mais pronunciadas do que deviam —, assim como o refinamento. Ruído mecânico, rolamento e aerodinâmico são eficazmente contidos.

VÊ TAMBÉM: Conduzimos o Volkswagen ID.3. Mais barato em Portugal do que na Alemanha

Também para as suas qualidades estradistas em muito contribui o eficaz 2.0 TDI que nesta variante de 116 cv toma o lugar do anterior 1.6 TDI e eu digo: ainda bem… Isto porque como os americanos dizem…

“There’s no replacement for displacement”

Ou seja, algo como “não há substituto para a capacidade (do motor)” que, por norma, é uma expressão associada a estremecedores V8 “tamanho familiar”. Porém, esta muito americana expressão encaixa que nem uma luva neste muito germânico automóvel, especificamente no 2.0 TDI em teste. Porquê?

Motor 2.0 TDI 116 cv © Thom V. Esveld / Razão Automóvel

Pessoalmente nunca fui grande fã do 1.6 TDI: não era a unidade mais agradável de usar, pois parecia sofrer de alguma “anemia” (sobretudo em baixas) e o refinamento (acústico e vibrações) deixava também algo a desejar. No entanto, era económico…

Os 400 cm3 adicionais do 2.0 TDI melhoram, e de que maneira, a experiência. Os 116 cv são os mesmos do 1.6 TDI, mas temos muito mais “pulmão”, que é como quem diz, disponibilidade. Desde os mais baixos regimes até aos mais altos — onde se sente bastante à vontade, algo invulgar para um Diesel —, o 2.0 TDI é uma unidade mais competente e bem mais satisfatória em todos os aspetos.

Jantes de 17"
As jantes de 17″ são opcionais. De série o First Edition vem com 16″ © Thom V. Esveld / Razão Automóvel

E sem que os consumos saiam penalizados — bem pelo contrário… A velocidades moderadas cheguei a registar menos de 4,0 l/100 km e em autoestrada fixou-se nos cinco litros certos. Para ultrapassar a marca dos seis litros só mesmo com intensos “para-arranca” urbanos ou com um tipo de condução muito mais agressivo.

VÊ TAMBÉM: Novo SEAT Leon FR 2020 testado. Mudou tudo, mas está melhor?

É o carro certo para mim?

Sem surpresa, o novo Volkswagen Golf revela ser uma das propostas mais competentes do segmento. Não é a proposta mais acessível, ou aquela que oferece mais espaço — apesar das convidativas acomodações traseiras, onde temos um apoia-braços com porta-copos integrado e entradas USB-C —, mas praticamente tudo o que faz, faz muito bem, melhor que a maioria dos rivais.

No caso específico deste 2.0 TDI e dado as excelentes qualidades estradistas reveladas pelo Golf, só o poderíamos recomendar aos verdadeiros “papa-léguas”. Se o uso for sobretudo urbano, apesar de consumir mais, o bem mais acessível e refinado 1.0 TSI cobre todas as necessidades.

Em muitos aspetos a oitava geração do Volkswagen Golf continua igual a ela própria, mas está longe de ser “mais do mesmo”. Se este costuma ser o argumento usado pelos críticos do Golf, a verdade é que sempre foi uma das suas maiores virtudes. Mas o Golf 8 é diferente…

Volkswagen Golf 2.0 TDI First Edition © Thom V. Esveld / Razão Automóvel

A digitalização e conectividade é a maior aposta desta nova geração. Abre um mundo de novas possibilidades — atualizações remotas e Car-to-X, por exemplo —, e dá ao compacto alemão novos argumentos que podem atrair toda uma nova geração de clientes.

Mas o enorme salto que é o redesign do seu interior e as consequentes implicações na nossa interação com ele pode tornar o Golf 8 no mais divisivo de todos os Golf, até entre os seus fãs.

Preço

unidade ensaiada

34.057

Versão base: €30.133

IUC: €225

Classificação Euro NCAP:

  • Motor
    • Arquitectura: 4 cilindros em linha
    • Capacidade: 1968 cm3
    • Posição: Dianteira Transversal
    • Carregamento: Injeção Direta Common Rail; Turbo de Geometria Variável; Intercooler
    • Distribuição: 2 a.c.c./4 válv. por cilindro
    • Potência: 116 cv entre 3250-4000 rpm
    • Binário: 300 Nm entre 1750-3200 rpm
  • Transmissão
    • Tracção: Dianteira
    • Caixa de velocidades: Manual de seis velocidades
  • Capacidade e dimensões
    • Comprimento / Largura / Altura: 4284 mm / 1789 mm / 1456 mm
    • Distância entre os eixos: 2636 mm
    • Bagageira: 380-1237 l
    • Jantes / Pneus: 225/45 R17
    • Peso: 1380 kg
  • Consumo e Performances
    • Consumo médio: 4,2 l/100 km
    • Emissões de CO2: 114 g/km
    • Vel. máxima: 202 km/h
    • Aceleração: 10,2s
  • Equipamento
    • Ar condicionado automático "Climatronic"
    • Bancos dianteiros com regulação do apoio lombar
    • Bloqueio eletrónico do diferencial XDS
    • Car-Net com serviço "Guide & Inform" e "Security & Service"
    • Car2X
    • Cockpit Digital
    • Cruise Control Adaptativo ACC, com "Front Assist" com proteção de pedestres e ciclistas
    • Faróis dianteiros e traseiros em LED
    • Inserções decorativas "Nature Cross Brushed"
    • Interface USB-C
    • Monitorização da pressão dos pneus
    • Pacote "Lights & Vision"
    • Punho da alavanca de velocidades em couro
    • Reconhecimento de sinais de trânsito
    • Retrovisor interior com função anti-encandeamento
    • Retrovisores exteriores rebatíveis eletricamente
    • Sensor de chuva
    • Sensores de estacionamento dianteiros e traseiros
    • Sistema "Travel Assist" (Câmara multifunções; Retrovisores exteriores rebatíveis eletricamente; "Lane Assist")
    • Sistema Bluetooth com carregamento por indução
    • Sistema de navegação "Discover Media" incl. Streaming & Internet
    • Volante multifunções em couro
Extras
Jantes de Liga Leve "Ventura" 17" — 1063,24 €; Pacote Life — 2860,99 €;
Avaliação
8 / 10
Se à primeira vista parece ser "mais do mesmo", na verdade não o é assim tanto. Porém, há aspetos que permanecem: o Golf 8 continua tão competente e eficaz como esperamos de um Golf. Não encanta, mas convence. Esta geração surpreende pelas qualidades estradistas tendo no 2.0 TDI um excelente parceiro — as prestações tendem para o modesto, mas os consumos são agradavelmente baixos. O outro destaque desta nova geração é a grande aposta na conectividade e na digitalização. E se, por um lado, abre novas possibilidades, por outro, a usabilidade acabou por dar um passo atrás em relação ao antecessor.
  • Relação conforto/comportamento
  • Estabilidade em autoestrada
  • Consumos baixos
  • Refinamento geral
  • Usabilidade interior podia ser melhor

Mais artigos em Testes, Ensaio