No meu tempo os carros tinham volante

Enquanto nós andamos entretidos com a eterna discussão automáticos Vs manuais, a indústria automóvel prepara outro ataque ao prazer de condução. E este ataque pode ser fatal. Só depende de nós…

“O que é aquilo pai?”, “Aquilo é um volante filho. Servia para mudar a direção”, “E isso não era perigoso pai?”, “Era filho, mas era tão divertido!”. Num futuro não muito distante, aposto 5 euros em como vão ter esta conversa com os vossos filhos e/ou netos.

Para nós, petrolheads de alma e coração, será uma conversa mais difícil de ter do que a clássica “Pai, como se fazem os bebés?”. Essa conversa é fácil para nós: “era uma vez um pistão, um sistema de injecção e uma câmara de combustão… pá, pá, pá, pá! Admissão, compressão, explosão e escape. Ao fim de nove meses tu saíste da linha de produção sem os extras mais caros: cadeirinhas, berços, roupas e biberons. Tive de comprar tudo after market“.

“São esses momentos que fazem da condução a melhor coisa que podemos fazer vestidos. A chave para o futuro é mesmo essa: deixar morrer os 65% maus e preservar os 35% bons.”

Fácil de explicar, não é? Pois… agora tentem explicar a um puto, daqui a uns 10 anos, que nós andámos durante este tempo todo a divertir-nos à grande, ao volante de grandes máquinas, e deixámos para eles os carros autónomos: sem volante, sem mudanças, sem nada, 100% autónomos – tipo isto. É como comer a carne e deixar os ossos; comer as bolachas e arrumar o pacote; gastar a água quente e fugir de fininho… é feio. Não se faz. É este mundo que queremos deixar aos nossos filhos? Talvez seja. Pensando bem, não é um mundo necessariamente mau. Vem aí a era da segurança.

Amiúde, confesso que 65% das vezes que estou ao volante apetece-me cortar os pulsos – com especial incidências às segundas-feiras e dias de trânsito mais intenso (moro na margem sul do Tejo, the struggle is real!). Dito isto, estar vivo é um milagre tendo em consideração que ganho a vida a testar carros…

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O que me mantêm vivo e de boa saúde são os outros 35% em que não apanho trânsito, em que a estrada é boa e o carro condiz com as condições (vejam este artigo sobre o outono). São esses momentos que fazem da condução a melhor coisa que podemos fazer vestidos. A chave para o futuro é mesmo essa: deixar morrer os 65% maus e preservar os 35% bons.

Como? Não sei muito bem. Mas num futuro em que todos os carros são autónomos espero que se criem uma espécie de “reservas naturais de condução”. Caramba, hoje ninguém anda a cavalo no meio de Lisboa e no entanto há quem pratique hipismo. Acredito que o prazer de condução no futuro passe por uma solução análoga. Mais autódromos, mais espaços para queimar borracha, sem radares e em liberdade total. Uma espécie de reserva de caça onde as presas são as curvas. Uma herdade tipo Goodwood ao virar da esquina.

É impossível contrariar a evolução dos tempos, mas adaptar os novos tempos às nossas necessidades não é. Além do mais não acredito que a humanidade vá desistir do seu ópio: a velocidade. Como dizia um senhor na RFM “vale a pena pensar nisto…”.

mazda mx-5 na (2)

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