Mazda não desiste dos motores de combustão e anuncia «super Diesel»

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Mazda não desiste dos motores de combustão e anuncia «super Diesel» de seis cilindros

Numa altura em que quase todas as marcas anunciam o fim dos motores de combustão, a Mazda segue uma estratégia diferente. Entrevistámos Joachim Kunz, um dos responsáveis pelos destinos da marca japonesa.

Ao longo do tempo, a Mazda têm vindo a habituar-nos a decisões arriscadas. Querem exemplos?

Quando todas as marcas desistiram dos motores Wankel, a Mazda continuou a apostar nesta tipologia de motores — brevemente será lançado um novo modelo com esta tecnologia.

E mais recentemente, quando todas as marcas reduziram a cilindrada dos seus motores (vulgo downsizing), a marca japonesa decidiu seguir um caminho distinto e aumentou a cilindrada dos seus motores — podem recordar o fundamento dessa decisão neste artigo.

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Mazda Motores 2021
Os motores da Mazda que vamos conhecer nos próximos tempos: desde os seis cilindros em linha (podem ver as cabeças nas extremidades da imagem), ao novo híbrido plug-in (ao meio), que o CX-60 vai estrear.

Regressando ao presente — sem grande surpresa — a história volta a repetir-se. Num momento em que praticamente toda a indústria automóvel anuncia o fim dos motores de combustão, a Mazda «sorri» e alegremente volta a contrariar a tendência vigente.

Investimento nos motores de combustão continua

Em 2023 a Mazda vai lançar uma nova família de motores de alta cilindrada e seis cilindros em linha.

É exatamente isso que acabaram de ler: seis cilindros e alta cilindrada. E um destes novos motores recorrerá a um ciclo Diesel — tecnologia agora infame, sobretudo na Europa.

Esta aposta arriscada por parte da marca de Hiroshima foi um dos temas abordados pela Razão Automóvel durante a apresentação do novo Mazda CX-60: o primeiro modelo a recorrer a esta nova família de motores:

Neste evento, falámos com Joachim Kunz, Senior Manager Technical Development Co-Creation da Mazda, que nos explicou os motivos que levaram a marca japonesa a contrariar — mais uma vez… — aquela que é a tendência dominante na indústria automóvel.

Motores de combustão. Estratégia kamikaze?

Kamikaze — que em japonês significa “vento divino” — foi a alcunha que os japoneses atribuíram aos pilotos de avião, durante a II Guerra Mundial, cuja missão era realizar ataques suicidas contra os navios dos Aliados.

Desde então, a palavra kamikaze passou a ser usada em diferentes línguas como metáfora para pessoas, ações ou práticas potencialmente devastadoras — em português inclusive.

Joachim Kunz
Na imagem, Joachim Kunz. Há mais de 21 anos que este engenheiro alemão de 61 anos trabalha na Mazda. ©Razão Automóvel

Como sabemos, a Mazda gosta aplicar palavras japonesas às estratégias dos seus modelos — hoje não há praticamente ninguém que já não tenha ouvido falar do design Kodo ou da filosofia Jinba Ittai da marca japonesa.

Já estão a perceber onde é que isto nos leva…

Questionámos Joachim Kunz se a estratégia que a Mazda está adotar, perante as restrições anunciadas para os motores de combustão, não são um pouco… kamikaze. Joachim Kunz sorriu à nossa provocação mas respondeu com convicção:

Recordo que a Mazda tem o compromisso de atingir a neutralidade carbónica até 2050, e que temos previstos modelos elétricos para os próximos anos. Mas continuamos a acreditar que os motores de combustão fazem parte do futuro do automóvel. Escolhemos esta nova arquitetura convencidos que é a melhor solução para os nossos clientes. Os elétricos ainda não são solução para todos os utilizadores.

Joachim Kunz, Senior Manager Technical Development Co-Creation da Mazda
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Esta questão suscitou a reação de outro responsável da Mazda, presente na sala, que ouvia atentamente a nossa entrevista — ainda que de forma um pouco mais distante. Em poucas palavras resumiu o estado de espírito da marca japonesa:

Há marcas de automóveis na Europa que têm duas posturas. Para fora comunicam e defendem os elétricos, mas junto das entidades responsáveis continuam a pressionar para manter os motores convencionais. A Mazda não é uma dessas marcas.

Klaus Hüllen, senior manager da Mazda

Notou-se no tom destes responsáveis a convicção que, por um lado, continua a haver margem para desenvolver e aumentar a eficiência dos motores de combustão e que, por outro lado, a eletrificação total do parque automóvel — nos moldes e nos prazos definidos pelas entidades europeias — poderá criar constrangimentos na mobilidade do futuro.

Na imagem, Klaus Hüllen. Este responsável não poupou críticas aos congéneres europeus no que diz respeito aos desafios da transição energética.

Porquê motores de seis cilindros?

Ultrapassada a questão relativa à estratégia da marca — que só o tempo dirá se é a mais acertada — centrámos as nossas questões na parte mais técnica. Em primeiro lugar, porquê motores de seis cilindros:

É uma arquitetura que nos permite oferecer uma experiência de condução melhor. Além disso, é hoje de entendimento generalizado que o tamanho ideal para uma câmara de combustão é de 500 cm³. Vemos várias marcas a adotarem motores com esta volumetria, por isso, na procura por mais potência e eficiência aumentámos o número de cilindros.

Joachim Kunz, Senior Manager Technical Development Co-Creation da Mazda

A Mazda sempre defendeu motores com cilindradas mais elevadas. Há um fundamento para esta opção — já explicado neste artigo — que permite aos motores maiores serem mais eficientes do ponto de vista termodinâmico e, consequentemente, mais ecológicos.

É por isso que o novo motor Skyactiv-X da Mazda vai ter seis cilindros e consequentemente 3000 cm3 de capacidade — os tais 500 cm3 por cada cilindro.

Trata-se de um motor totalmente novo, o segundo com a recorrer à tecnologia SPCCI — que já foi motivo de vários artigos aqui na Razão Automóvel.

Ainda não foram reveladas especificações técnicas, mas a Mazda promete que este motor terá consumos equivalentes ao Skyactiv-X de quatro cilindros usados nos Mazda3 e CX-30.

«Super Diesel» é a grande surpresa

Falar de novas famílias de motores é algo cada vez mais raro. Mais raro ainda é falar de novos motores Diesel, principalmente com seis cilindros.

A Mazda continua a acreditar na tecnologia Diesel, não só pelos motivos já enunciados, mas também por outro muito específico: no mercado interno (Japão), a Mazda têm dominado as tabelas de vendas com esta tecnologia.

Com o motor 2.2 Skyactiv-D do Mazda CX-5, a marca conseguiu cumprir as normas de emissões naquele país e oferecer uma alternativa viável a quem procura custos de utilização mais reduzidos.

Agora vai «subir a parada» com uma evolução deste motor. Um «super Diesel» de seis cilindros e 3.3 l de capacidade.

Também nós estamos curiosos para entender se as promessas da Mazda vão ser cumpridas. O primeiro «teste» a estes novos motores vai acontecer com o Mazda CX-60.

Questionámos Joachim Kunz, relativamente à decisão de neste motor Diesel encontrarmos 300 cm3 adicionais face à mecânica a gasolina Skyactiv-X (ciclo Miller). Mais uma vez, foi o comportamento termodinâmico que ditou a decisão:

"Quanto menor é a câmara de combustão, maior é o surgimento de «pontos quentes» na mistura pós-ignição. É nestes pontos que se dá a formação da maioria das partículas de NOₓ. Para reduzir este fenómeno, aumentámos ligeiramente o tamanho da câmara de combustão. Ainda não podemos revelar dados, mas ficarão surpreendidos com as emissões deste motor".

Joachim Kunz, Senior Manager Technical Development Co-Creation da Mazda

Apesar de ainda não serem conhecidas as exigências da futura norma Euro 7 — conjunto de regras que determina as quantidades de emissões admitidas pelos motores de combustão na UE —, Joachim Kunz não tem dúvidas de que este novo motor vai conseguir cumpri-las na íntegra.

Da nossa parte, resta-nos aguardar para comprovar se esta estratégia da Mazda vai ser Shōsha (vencedora) ou Kamikaze (suicida).

A experiência diz-nos que a Mazda normalmente sabe o que faz. Será que a história vai voltar a repetir-se?

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