Entrevista

À conversa com Klaus Bischoff. O «homem que manda» no design do Grupo Volkswagen

É este o homem que desde abril passado lidera os destinos do gigante alemão em termos de design. Durante uma hora, falámos sobre os desafios do design automóvel e até sobre o eventual regresso do Volkswagen Carocha, o «carro do povo».

Klaus Bischoff. Lembrem-se deste nome quando virem um Volkswagen Golf na rua ou, principalmente, quando se cruzarem na estrada com um Volkswagen da família ID. — a chegada ao mercado do Volkswagen I.D.3 está para breve.

Foi sob os ombros deste alemão, nascido na cidade de Hamburgo em 1961, e formado em design industrial pela Braunschweig University of Art, que recaiu a responsabilidade de reinventar a Volkswagen para a «nova era» da eletrificação, através da família de protótipos ID.

“Foi o maior desafio da minha carreira. Não se tratou apenas de desenhar um produto novo. Tratou-se de algo mais profundo que isso. Foi necessário evocar todo o legado da marca e projetá-la para o futuro”, foi assim que Klaus Bischoff resumiu-nos aquele que considera ser o “projeto da minha vida”. Palavras do homem que, entre outros projetos, chefiou o desenvolvimento dos Volkswagen Golf VI, VII e VIII.

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Klaus Bischoff, diretor de design do Grupo Volkswagen
Klaus Bischoff sentado num dos seus projetos mais complexos, o familiar Volkswagen ID. VIZZION.

Hoje, não é apenas a responsabilidade sobre o design de modelos Volkswagen que recai sobre os seus ombros. É a Klaus Bischoff que respondem mais de 400 designers espalhados pelos quatro cantos do mundo, que dão forma e identidade às marcas do «gigante alemão»: Audi, Volkswagen, SEAT, Skoda, Porsche, Bentley e Lamborghini.

Marcas muito diferentes entre si, com diferentes objetivos e especificidades, mas que respondem todas a si e à administração do Grupo Volkswagen.

A última palavra é, naturalmente, da administração do grupo. Mas sou eu que tenho de interpretar e levar a bom porto todas as diretrizes, mantendo a identidade individual de cada marca.

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Durante mais de uma hora, através do Skype, para um grupo restrito de jornalistas, Klaus Bischoff explicou-nos os desafios e os processos que as suas equipas têm de atravessar para desenhar um carro moderno. “Hoje temos mais ferramentas, mas o design dos automóveis é também mais complexo e obedece a maiores restrições que nunca”, disse-nos enquanto tentava partilhar imagens do programa de desenho que é hoje o “lápis e papel” da sua equipa.

Lápis e folha de papel, Golf 8
Como veremos adiante, o lápis e o papel são uma espécie em vias de extinção no Grupo Volkswagen.

Klaus Bischoff explica a digitalização do design

Há mais de 20 anos que a Volkswagen recorre a programas informáticos para o desenho dos seus produtos. Porém, estes programas que outrora eram complementares, são agora centrais em todos os processos.

Por exemplo, na Volkswagen já não se usa mais o tradicional lápis e papel. Para desenhar os primeiros esquissos, o Grupo Volkswagen recorre a ferramentas informáticas que “reduzem os custos de design e duração do processo criativo em ano e meio”, explicou-nos este responsável.

Faz swipe na galeria e assiste a todos os passos deste processo:

“As ferramentas de design atuais são tão poderosas que até nos primeiros esboços já é possível aplicar cor e especialmente luz sob diferentes ângulos para testar a natureza e o comportamento das suas linhas”, mostrava-nos Klaus Bischoff através do Skype enquanto falava connosco.

Este procedimento pode ir ainda mais longe. A partir de esboços 2D já é possível criar formas 3D para serem manipuladas.

Transformar esboço 2d em modelo 3d
Através de processos de realidade aumentada, é possível transformas os primeiros esboços 2D em formas 3D próximas do aspeto final.

Isto dá a possibilidade à equipa de design produzir uma maqueta virtual em tamanho real mesmo nas fases preliminares do projeto. “No final reduzimos sempre o nosso projeto a uma maqueta real em barro, mas a forma como chegamos a este estágio é muito mais rápida e eficiente”.

O desafios do COVID-19 e os desafios de sempre

É um tema incontornável, e Klaus Bischoff não fugiu a ele. As suas equipas estão a fazer um uso ainda mais intensivo das ferramentas digitais, mas deixou uma mensagem positiva, relativamente àquilo que espera do setor automóvel nos próximos meses.

Vivemos tempos de incerteza, ainda não está tudo muito claro. Mas tal como estamos a assistir na China, o comportamento pode mudar e há atualmente uma grande procura por carros e afluência aos concessionários. Mas podemos e devemos tornar os processos de compra mais digitais.

Klaus Bischoff, diretor de design do Grupo Volkswagen

Segundo Klaus Bischoff, apesar de todos os avanços tecnológicos no campo do design automóvel, o maior desafio continua a ser o mesmo de sempre: “conseguir interpretar o ADN de uma marca — o que ela representa, o que ela significa — e projetar a sua evolução de acordo com essa identidade”.

Um trabalho que não é fácil, e que nas suas palavras “é a maior dificuldade que enfrentam os jovens designers, e a minha maior dificuldade enquanto responsável pelos seus trabalhos. Manter a identidade da marca sem castrar a criatividade e a liberdade de inovar que deve presidir a todos os projetos”.

Faz swipe para veres mais detalhes do processo criativo implementado no Grupo Volkswagen:

O futuro do Volkswagen Beetle

Sobre o futuro dos modelos do Grupo Volkswagen, Klaus Bischoff foi parco em palavras. Estamos a falar de um responsável que há mais de 30 anos aperfeiçoa a arte esconder os frutos do seu trabalho até ao grande momento: a revelação nos os salões automóveis.

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Tendo sido Klaus Bischoff um dos embaixadores do Volkswagen ID. BUZZ — a reinterpretação moderna do clássico «Pão de Forma» — tivemos de o confrontar com a possibilidade do ressurgimento do Volkswagen Beetle, o «carro do povo», numa versão 100% elétrica — pela primeira vez em toda a sua história, não existe um Carocha na Volkswagen.

Volkswagen ID. Buzz

Depois de nos confirmar que essa era “uma possibilidade” via Skype, Klaus Bischoff envio-nos um e-mail, onde mais uma vez reafirmou o intuito da Volkswagen produzir um elétrico acessível a todos:

Produzir um 100% elétrico verdadeiramente acessível a todos, está definitivamente nos nosso planos. Mas o tipo de design ou formato ainda não está fechado.

Tal como no passado recente, em que Klaus Bischoff foi um dos principais impulsionadores do projeto ID. BUZZ, com a reinvenção do conceito da «Pão de Forma» no séc. XXI., talvez agora, com poderes reforçados no seio do Grupo Volkswagen, este designer possa promover também o renascimento do Volkswagen Beetle — ou se preferirem, do Volkswagen Carocha.

Recordamos que a Volkswagen está a trabalhar com o máximo empenho numa versão mais barata da plataforma MEB do Volkswagen ID.3. O objetivo é produzir um carro elétrico abaixo dos 20 000 euros.

Será esta a oportunidade que faltava para o regresso definitivo — e com sucesso… — do «carro do povo»? Só o tempo o dirá. De Klaus Bischoff foi impossível arrancar mais do que um vago, mas ainda assim esperançoso «talvez».


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