A cilindrada dos motores (quase) nunca é exacta. Porquê?

21/12/2016
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As fichas técnicas com cilindradas expressas em números redondos são raras. Queres saber porquê?

Tal como muitos de vocês, quando era puto estourava mais dinheiro em revistas de automóveis do que em cromos (eu próprio era um cromo…). Não havia internet e portanto, as Autohoje, Turbo e Cia. eram exaustivamente folheadas durante dias a fio.

Com tão pouca informação disponível naquela época (obrigado internet!) a leitura estendia-se frequentemente aos detalhes da ficha técnica. E sempre que via a cilindrada dos motores, havia uma pergunta que me assaltava: “porque raio é que a cilindrada dos motores não é um número redondo?”

Sim, eu sei. Os meus níveis de “nerdismo” em criança eram muito elevados. Digo-o com algum orgulho, confesso.

Felizmente, ser o único puto do recreio com revistas de automóveis valia-me uma popularidade assinalável junto dos grandalhões do 4º ano – para alguém que não sabia dar um pontapé numa bola, acreditem, era bastante popular no recreio. E isso poupou-me a vários episódios de porrada – agora diz-se bullying, não é? Adiante…

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Há uma explicação para tudo. Inclusivamente para o facto da cilindrada efetiva dos motores não ser um número exacto. Por exemplo, um motor 2 litros não tem exatamente 2.000 cm³, tem entre 1.996 cm³ ou 1.999 cm³. Da mesma forma que um motor 1.6 litros não tem 1.600 cm³, mas sim 1.593 cm³ ou 1.620 cm³.

Vamos à explicação?

Como sabem, a cilindrada expressa a soma do volume interno de todos os cilindros do motor. Obtemos esse valor multiplicando a área da superfície do cilindro pelo curso total do êmbolo. Depois de apurado esse valor, é só multiplicar esse valor pelo número total de cilindros.

Voltando à escola (novamente…), recordas-te certamente que a fórmula para apurar a área de uma circunferência recorre ao valor de Pi (Π) – uma constante matemática que tem dado muito que fazer à humanidade e da qual eu não vou falar porque a Wikipédia já o fez por mim. Além deste cálculo recorrer a um número irracional, a engenharia mecânica trabalha com medidas milimétricas na concepção das várias peças dos motores. Daí que raramente os valores apurados sejam números redondos.

Vamos a um caso prático? Para este exemplo vamos usar um motor 1.6 litros de quatro cilindros cujo curso do êmbolo é de 79,5 mm e o diâmetro do cilindro é de 80,5 mm. A equação ficaria algo deste género:

Cilindrada= 4 x (40,25² x 3,1416 x 79,5) | Resultado: 1.618.489 mm³ | Conversão para cm³= 1.618 cm³

Como viram, é difícil chegar a um número redondo. O “nosso” motor 1.6 litros afinal tem 1.618 cm³. E com tantas preocupações que os engenheiros têm no desenvolvimento de um motor, atingir um número redondo na cilindrada não é uma delas.

É por isto que a cilindrada dos motores nunca é um número exato (salvo meros acasos). E é também por isto que eu nunca gostei de matemática…

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Diretor Editorial e co-fundador da Razão Automóvel. Tem 29 anos, ama os automóveis mas tem uma paixão secreta: as duas rodas! Praticante de todo-o-terreno, iniciou-se nas lides da condução aos comandos de um Citroen Ax. Não resiste a umas boas curvas, seja no asfalto ou numa folha de papel.