Chega em março

BMW Série 2 Gran Coupé. Melhor que o CLA? Ao volante dos 220d e M235i

Conduzimos o novo Série 2 Gran Coupé, tanto o 220d, como o possante M235i. Será que tem o que é preciso para superar o Mercedes-Benz CLA?

Em Ericeira, Portugal

Já o vimos e já sabemos quanto custa… só faltava mesmo conduzi-lo. Bem, a espera acabou e nem sequer foi preciso sair de Portugal para o fazer. A apresentação internacional do inédito BMW Série 2 Gran Coupé foi mesmo por cá, e à nossa disposição para fazer o “gostinho ao pé” estavam duas versões: o 220d e o topo de gama M235i.

E não podia ser mais claro qual o alvo do Série 2 Gran Coupé: o bem sucedido Mercedes-Benz CLA (já na segunda geração, lançada em 2019). Terá a proposta de Munique os argumentos certos para enfrentar a proposta de Estugarda?

Bonito? Não muito…

Do ponto de vista puramente visual, não me parece. Segue a mesma receita formal do CLA, mas mesmo estando vestidos a rigor, isto é, com as mais vistosas roupagens M — até o 220d poderia ser facilmente confundido com o M235i —, o Série 2 Gran Coupé deixa algo a desejar.

TODOS OS PREÇOS: Já sabemos quanto vai custar o novo BMW Série 2 Gran Coupé

São as proporções. Ao ser um “tudo à frente” (tração dianteira e motor dianteiro transversal), tal e qual o seu arquirrival, o Série 2 Gran Coupé tem proporções estranhas… para um BMW. Sim, já temos BMW “tudo à frente” aos anos, mas até agora estavam confinados a MPV (criaturas inéditas na marca) e a SUV (ainda uma realidade relativamente recente e maleável na marca) — novas “embalagens” que também permitiram aceitar melhor esta nova realidade de disposição mecânica na marca.

Só que agora vemos a tração dianteira chegar às tipologias que sempre associámos à BMW, como são as berlinas de quatro portas, tipicamente com motor longitudinal dianteiro e tração traseira, e o resultado é estranho.

BMW Série 2 Gran Coupé
As proporções são estranhas… para um BMW. O eixo dianteiro está recuado em demasia — a distância entre eixos parece algo curta —, o capot é curto e, consequentemente, o volume do habitáculo está numa posição mais avançada que o habitual.

O CLA “sofre” do mesmo mal (arquitetura determina proporções), mas se na primeira geração era grande o desequilíbrio proporcional, a segunda geração contorna mais convincententemente essas limitações, acompanhado por um estilo mais depurado e harmonioso — algo que também parece faltar ao Série 2 Gran Coupé, de desenho mais carregado, por vezes até excessivo em partes.

Num primeiro olhar é mais fácil sentirmos-nos mais atraídos pelo CLA do que pelo Série 2 Gran Coupé, e não sou o único com esta opinião. Aliás, quando vos perguntámos qual é que, entre estes dois, seria a vossa escolha, a clara maioria preferiu o CLAaté fãs da BMW o escolheram(!)…

Por dentro, bem melhor

Se por fora estranhei, por dentro, fiquei bem mais convencido. O sentimento de familiaridade é grande, não só por ser decalcado do novo Série 1, mas também porque não representa um corte radical com os interiores dos outros BMW à venda ou os que o precederam.

O desenho é mais sóbrio e consensual, contrastando bastante com o do arrojado CLA, mas não é pior ou melhor por isso. São apenas diferentes, para gostos diferentes. Onde o Série 2 Gran Coupé ganha pontos em relação ao CLA é nos materiais (mais agradáveis no geral) e montagem (mais robusta).

A aposta num estilo pseudo-coupé, visível também no arco ininterrupto que forma a linha de tejadilho do Série 2 Gran Coupé, acaba por sacrificar espaço em altura nos ocupantes traseiros — pessoas com 1,80 m de altura ficam com a cabeça praticamente encostada ao teto. A acessibilidade à segunda fila, no entanto, é bastante razoável, melhor do que no CLA.

Melhores notícias quando chegamos à bagageira. Apesar de ter menos 30 l que o seu rival, os 430 l não deixam de ser um valor muito bom, e o acesso à bagageira é bem melhor, e também podemos rebater os bancos traseiros.

“The ultimate driving machine”?

Altura de nos pormos em movimento. Comecei pelo 220d, o mais modesto: 190 cv extraídos de um bloco 2.0 l Diesel, acoplado a uma transmissão automática (conversor de binário) de oito velocidades, tração dianteira e, contas rápidas, perto de 15 mil euros em extras — os relacionados diretamente com a condução a terem a assinatura M, desde os bancos à suspensão.

BMW Série 2 Gran Coupé
Há 3 suspensões disponíveis no Série 2 Gran Coupé: standard, M-Sport e adaptativa. Todos os 220d à disposição estavam equipados com a suspensão M-Sport

Fiquei agradavelmente surpreendido pela forma como a suspensão M-Sport (passiva, 10 mm mais baixa) lidou com a maioria das irregularidades. Suave no geral, mas sempre com excelente controlo — irregularidades mais pequenas parecem desaparecer por magia, mesmo tendo um pisar algo firme, mas a qualidade de amortecimento é excelente, refinada até.

As boas impressões iniciais continuam com a direção, seja a do 220d ou do M235i — é, talvez, um dos seus aspetos mais positivos. Caracteriza-se por ser “limpa” na sua ação (sempre precisa e direta) que, caso não soubesse tratar-se de um tração dianteira, até diria que estaria a conduzir um tração traseira. Na maioria das situações não apresenta os sintomas de corrupção típicos de um carro cujo eixo direcional é também o eixo motriz. Apenas agradecia-se que a espessura do aro do volante M fosse menor — mais indicado para um jogador de basquete.

BMW Série 2 Gran Coupé

Quando chegamos à parte divertida, a das estradas estreitas e enroladas, o 220d impressiona… de início. A direção e a suspensão dão enorme confiança quando aumentamos o ritmo e “carregamos” o chassis no ataque às curvas. A resistência à subviragem é bastante elevada — o Série 2 Gran Coupé vem equipado com o sistema ARB (controlo de tração) —, mas não há milagres. O eixo dianteiro acabará por ceder.

E é nesse momento, quando começamos a pedir mais do que devíamos ao “tudo à frente” 220d, que o caso da defesa desta disposição começa a tremer. A subviragem não é o problema em si, mas é a ação, ou melhor, inação do eixo traseiro que se destaca. Seguro e eficaz? Sem dúvida, mas sendo um BMW, estaria à espera da ação corretiva e até lúdica do eixo traseiro para ajudar a apontar para o sítio certo o seu parceiro à frente.

Mais vale descer o ritmo um pouco, e a impressão inicial regressa. A de um carro capaz de manter eficazmente ritmos elevados, mesmo quando as estradas parecem mais apropriadas a um pequeno MX-5. Simplesmente flui pelo asfalto — mais satisfatório e envolvente do que o seu arquirrival CLA.

Em estradas mais largas e vias rápidas, o 220d, assim como o M235i, deixam uma impressão muito positiva, com um refinamento elevado, destacando-se a insonorização e a estabilidade a velocidades elevadas, fazendo uma muito boa imitação dos “irmãos” de maior dimensão, que parecem ter nascido para as autobahn.

O conjunto motor/caixa do 220d recomenda-se. O primeiro porque nem parece um Diesel, a segunda por parecer ler-nos a mente.

A caixa manual não faz parte de nenhuma das versões do Série 2 Gran Coupé para Portugal, mas quando temos à nossa disposição uma caixa automática (oito velocidades) tão eficaz e tão… “inteligente” — parece saber sempre qual a relação ideal em que precisamos de estar… — quase que faz esquecer o contributo do terceiro pedal para enriquecer a experiência de condução.

A lamentar apenas a dimensão das patilhas para uso manual, muito pequenas, seja no 220d ou no M235i — alguém que ponha os olhos nas grandes patilhas da Alfa Romeo.

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M235i, não um, mas dois eixos motrizes

A primeira diferença a notar quando saltamos do 220d para o M235i dá-se logo ao ligar o motor: somos brindados com uma série de “pops” e outros sons mais… flatulentos. Mas os encantos sonoros terminam mais ou menos por aí. Sim, o som é mais elevado e grave, mas algo industrial e não muito excitante. Além do mais, também caiu nas malhas dos “melhoramentos” sintetizados.

BMW M235i Gran Coupé

À nossa disposição temos generosos 306 cv e acredito que estavam todos presentes, tal a eficácia com que este motor entrega os seus números para nos lançar para a frente. Eficaz, mas não convida a explorá-lo. A caixa mantém-se automática e com oito velocidades, sempre super-eficaz, a permitir levar o motor ao regime de potência máxima.

O M235i vem com tração às quatro rodas, com 50% da força a poder ser enviada para o eixo traseiro, garantindo que todos os equídeos são eficazmente colocados no chão.

BMW M235i Gran Coupé

Os primeiros quilómetros revelam um carro bem mais firme. Mesmo estando equipado com a suspensão adaptativa e no seu modo mais “soft”, lida com as irregularidades mais abruptamente do que o 220d — o expetável, mas ainda assim complacente o suficiente para também ser capaz de fluir pelo asfalto, mas nunca em detrimento do controlo, com “punho de ferro”.

O percurso planeado envolvia sair de Ribeira de Ihas, na Ericeira, em direção a Lisboa, mas (quase) sempre por um emaranhado de estradinhas, atravessando terras e terrinhas, capazes de fazer inveja ao mais sinuoso dos ralis, com estreitas secções de asfalto, parte dele bastante húmido, e curvas que se fechavam sobre elas próprias, quase como um nó.

Um desafio à altura das capacidades do M235i e verdade seja dita, ultrapassou-o com uma eficácia brutal. Nada o parece demover das ordens que lhe damos: escolhes uma trajetória e o M235i segui-la-á milimetricamente. Se o 220d resistia valorosamente à subviragem, no M235i esta parece ter sido retirada completamente da equação, cortesia do segundo eixo motriz.

Mesmo quando provocado propositadamente, com os pneus a fazerem-se ouvir de forma mais alarmante, nada o parece afetar. Mantém-se resolutamente na trajetória pretendida. A eficácia a toda a prova que o M235i demonstra é impressionante.

Eficaz? Sim, mas…

…após várias dezenas de quilómetros em curvas, contra-curvas, ganchos, cotovelos e uma ou outra compressão mais acentuada — e já com alguma indisposição da minha parte —, a reação, no final, foi… ok, acabou, dever cumprido.

O M235i é extremamente capaz e rápido, que não haja dúvidas acerca disso, mas a experiência de condução carece de alguma envolvência. E a este nível, com esta performance e até por ser um BMW, confesso que estava à espera de um pouco mais. É bom? Objetivamente sim, muito bom até… mas é também uma experiência de condução que não se entranha na pele.

Apesar de ser o topo de gama do novo Série 2 Gran Coupé e, por princípio, o mais desejável, e ainda nos limitarmos apenas e só a estas questões relacionadas com a dinâmica e condução, acaba por ser difícil criar um caso de defesa à volta do M235i.

Caso as duas portas as mais e espaço extra não sejam absolutamente necessários, a BMW comercializa o M240i, um verdadeiro coupé — tração traseira, seis cilindros em linha, 340 cv e disponível com caixa manual. Para quem procura “The Ultimate Driving Machine” parece-me que seja este a derradeira opção para uma experiência de condução mais pura e, crucialmente, envolvente.

BMW M235i Gran Coupé

Em Portugal o M240i é 10 mil euros mais caro (culpem o ISV), curiosamente um valor semelhante ao dos opcionais que o M235i testado trazia. E neste patamar financeiro, não restariam muitas dúvidas onde gastar os mais de 70 mil euros pedidos.

Primeiras impressões

7 / 10
Só olhando para o BMW Série 2 Gran Coupé, não é fácil gostarmos dele. Há que conduzi-lo para verdadeiramente apreciá-lo. As diferenças para o CLA, o seu arquirrival, são claras, com o Série 2 Gran Coupé a revelar-se não só o mais confortável, como também o mais interessante de conduzir — destaque para a direção "sem ruídos indesejáveis", como se tratasse de um modelo de tração traseira. O interior, de materiais agradáveis e montagem cuidada, peca apenas pelo espaço curto em altura atrás. Acessibilidade muito razoável à fila traseira e à bagageira são também dignos de nota, num tipo de modelo que procura vingar mais pelos atributos estéticos. As expetativas durante o teste ficaram algo viradas do avesso, pois foi o 220d que acabou por entreter mais que o mais rápido e brutalmente eficaz M235i. Mas após este primeiro contacto, e respondendo à pergunta se o Série 2 Gran Coupé tem o que é preciso para superar o CLA, talvez não no departamento visual, mas mecanicamente e dinamicamente (e não só), sei bem qual escolheria…

  • Direção

  • Caixa automática

  • Performance (M235i)

  • Suspensão

  • Eficácia dinâmica

  • Acessibilidade (lugares traseiros e bagageira) bem melhor que a esperada

  • Espaço em altura nos lugares traseiros

  • Falta mais envolvimento na condução

  • Motor eficaz, mas pouco cativante (M235i)

Preço

47.000

Data de comercialização: Março 2020


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