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Introdução
I. Uma lagosta, dois amigos e uma marca de automóveis
II. As primeiras conquistas do «gigante sueco»
III. A Volvo é conhecida por construir automóveis seguros. Porquê?

Hoje, dia 14 de Abril a Volvo celebra 90 anos. Mas a história da marca começou três anos antes… numa mesa de restaurante.

Vamos recuar até junho de 1924. O local é Estocolmo e estamos na época do ano em que a capital sueca é mais aprazível. As temperaturas médias superam os 21°C e os dias duram mais de 12 horas – o contraste com o solstício de inverno não podia ser maior.

Foi perante este cenário, que dois amigos de longa da data, Assar Gabrielsson e Gustav Larson, conversaram, pela primeira vez, sobre a possibilidade de fundarem uma marca de automóveis. Talvez o termo “conversar” seja demasiado inocente perante uma missão tão ambiciosa… mas já lá vamos.

Dois meses após essa conversa inicial, a 24 de agosto, Assar e Larson voltaram a encontrar-se. Local do encontro? Uma marisqueira em Estocolmo.

A marisqueira ainda hoje existe, chama-se Sturehof.

Foi numa das mesas deste restaurante, ao sabor de uma lagosta, que se firmou um dos compromissos mais marcantes da indústria automóvel – como teremos oportunidade de constatar neste Especial 90 anos da Volvo.

O início de uma amizade

Antes de continuarmos, vamos recordar como é que a história destes dois homens se cruzou. Assar Gabrielsson e Gustav Larson conheceram-se numa empresa de rolamentos, a Svenska Kullagerfabriken (SKF).

Gabrielsson, licenciado pela Stockholm School of Economics, tinha uma longa carreira na SKF, onde chegou a ocupar o cargo de diretor-geral de vendas.

Larson também trabalhou na SKF mas como engenheiro, de onde saiu 1919 para ir trabalhar para a empresa AB GALCO – também sediada em Estocolmo.

Gabrielsson e Larson não eram apenas conhecidos, entre eles existia uma verdadeira empatia pessoal. Além do mais tinham competências profissionais complementares. Gabrielsson tinha o know-how económico e os conhecimentos necessários para arranjar financiamento para fundar a Volvo, enquanto que Larson sabia como projetar e fabricar um automóvel.

As (boas) intenções de Assar Gabrielsson

Sabendo desta complementaridade em termos profissionais e empatia em termos pessoais, como já devem ter adivinhado, não foi por acaso que Assar Gabrielsson escolheu Gustav Larson para comer a tão famosa “lagosta”.

Depois daquela primeira abordagem, Assar queria saber se Gustav aceitava (ou não) abraçar com ele um projeto que tinha tanto de ambicioso como de arriscado: fundar a primeira marca de automóveis sueca (a SAAB surgiu apenas em 1949).

Diz-se que a morte da sua esposa num acidente de viação foi a faísca que faltava para Assar Gabrielsson avançar com o projeto. Gustav Larson aceitou o desafio.

RELACIONADO: Especial Razão Automóvel. Os 90 anos da Volvo.

Foi naquele encontro entre estes dois amigos, que os princípios para o futuro da marca (que ainda não tinha nome) foram firmados. Hoje, volvidos mais de 90 anos, a Volvo ainda obedece aos mesmos princípios.

“O aço sueco é bom, mas as estradas suecas são más.” | Assar Gabrielsson no livro Os trinta anos da Volvo

Os seus automóveis tinham de ser fiáveis. Os modelos produzidos pelas marcas alemãs, inglesas e americanas não estavam pensados nem preparados para as exigentes condições climatéricas da Escandinávia e para as péssimas estradas suecas.

Além de fiáveis, os seus automóveis tinham de ser seguros. A elevada sinistralidade das estradas suecas nos anos 20 era uma das grandes preocupações de Gabrielsson e Larson – como podemos ver, as preocupações com a segurança estão presentes desde os primórdios da Volvo.

Para estes dois amigos os automóveis, enquanto símbolo de progresso e de liberdade, tinham a obrigação de serem seguros.

Das palavras à prática

Alinhados quantos aos objetivos do projeto, no mesmo dia em que comeram a tão famosa lagosta, Gabrielsson e Larson firmaram um acordo verbal. Mais de um ano depois, veio a assinatura efetiva do contrato, a 16 de dezembro de 1925. O primeiro ato solene.

Neste contrato ficou plasmado, entre outras coisas, o papel que cada um iria ter neste projeto.

Gustav ficou responsável pela parte de engenharia. Cabia a ele desenhar o primeiro modelo, bem como estruturar o plano de investimento da nova fábrica. Com uma ressalva: só seria ressarcido caso o plano tivesse sucesso. E por sucesso entenda-se fabricar pelo menos 100 automóveis até 1 de janeiro de 1928. Um risco que aceitou correr porque conseguiu manter paralelamente o seu emprego na AB Galco.

Por seu turno, Assar Gabrielsson assumia os riscos financeiros do projeto, onde colocou todas as suas poupanças sem qualquer garantia de sucesso.

Perante estes riscos (elevados), também Assar manteve-se a trabalhar na SKF. Björn Prytz, diretor geral da SKF, não se opôs a este projeto desde que não interferisse com a sua performance na empresa.

Não foi um impulso. Foi tudo pensado

Amigos e almoços de marisco numa fantástica tarde de verão. Dito isto, pouco ou nada aponta para um projeto profissional. Uma perceção totalmente errada.
Como já vimos, em termos de produto a Volvo estava bem pensada (fiabilidade e segurança acima de tudo), o mesmo sucedia com o plano de negócios (visão e estratégia).

Aquando da sua estada em Paris em 1921, Gabrielsson, ao serviço de SKF na qualidade de diretor comercial, percebeu que havia empresas de rolamentos a investir diretamente na indústria automóvel, através da aquisição de marcas de automóveis. Desta forma conseguiam influenciar a escolha dos fornecedores e assegurar um volume de encomendas maior.

Algures entre 1922 e 1923, Gabrielsson propôs um modelo de negócio semelhante à SKF mas o conselho de administração da empresa sueca declinou.

Tudo ou nada

O «obrigado, mas não» da SKF não travou os ânimos nem as ambições de Gabrielsson. Tanto que Gabrielsson, em 1924, fez a proposta de que há pouco falávamos a Gustav Larson – o tal encontro na marisqueira.
No seu livro “Os Trinta Anos de História da Volvo”, Gabrielsson espelha bem as dificuldades em arranjar financiamento para o seu projeto

“Os players da indústria automóvel tinham algum interesse no nosso projeto, mas era um interesse meramente cordial. Ninguém ousava investir numa marca de automóveis sueca”.

Ainda assim, o projeto avançou. Gabrielsson juntamente com Larson decidiram avançar para a produção de 10 protótipos, para mais tarde apresentar novamente à SKF. Era o tudo ou nada.

Diz-se que a decisão de produzir 10 protótipos em vez de apenas um, foi uma espécie de «plano B». Caso o projeto corresse mal, Gabrielsson podia tentar vender os componentes dos protótipos – as empresas compram em quantidade. Vender uma caixa de velocidades, um motor, um par de suspensões, não era viável.

Além do mais, esta dupla empreendedora estava plenamente convencida de que a SKF ia viabilizar o projeto quando vissem os primeiros protótipos do ÖV 4 (na imagem).

A crença era tanta que todos os documentos, planos e demais documentos internos obedeciam aos procedimentos internos da SKF, assim, caso o negócio se concretizasse a integração do projeto seria mais célere.

Mãos à obra!

Os primeiros 10 protótipos do ÖV 4 foram construídos sob supervisão de Gustav Larson, na instalações da AB Galco – a empresa onde este engenheiro trabalhava e que lhe garantia a capacidade financeira para continuar a trabalhar no projeto.

Já o atelier de desenvolvimento ficava sediado numa das divisões do seu apartamento. Era lá que Larson, depois de uma jornada de trabalho na AB Galco, se juntava a outros intrépidos engenheiros para desenvolver os primeiros protótipos.

A “sede fiscal” era outra casa particular, neste caso, a casa de Gabrielsson. Era uma maneira transmitir segurança aos fornecedores. Gabrielsson era uma pessoa muito considerada na indústria. Como podemos constatar vivia-se um verdadeiro clima de start-up.

Missão cumprida

O primeiro protótipo ficou pronto em junho de 1926. E assim que foi possível Larson e Gabrielsson montaram-se no ÖV 4 e foram nele até Gotemburgo para apresentar o plano de investimentos à SKF. Uma entrada triunfal, chegar no próprio carro. Brilhante, não acham?

A 10 de agosto de 1926 o conselho de administração da SKF decidiu dar luz verde ao projeto de Gabrielsson e Larson. “Contem connosco!”

Apenas dois dias depois, era assinado um contrato entre a SKF e Assaf Gabrielsson, estipulando a cedência dos 10 protótipos e de todos os documentos de suporte ao projeto. Essa cedência seria feita a uma empresa chamada Volvo AB.

Sabias que? A palavra Volvo deriva do latim e significa “I Roll” (Eu rodo), uma alusão ao movimento giratório dos rolamentos. Registada em 1915, a marca Volvo pertencia originalmente à empresa SKF e foi criada para dar nome a uma linha de rolamentos especiais para os EUA.

Este contrato estipulava ainda o pagamento de todo o investimento de Assar no projeto. Também Gustav Larson foi pago por todo o trabalho que desenvolveu. Tinham conseguido.

A 1 de janeiro de 1927 e depois de três anos de intenso trabalho, Assar Gabrielsson foi nomeado presidente da Volvo. Por seu turno, Gustav Larson foi nomeado vice-presidente da marca e despediu-se da AB Galco.

A história começa aqui

Cinco meses depois, pelas 10 horas da manhã, Hilmer Johansson, diretor de vendas da marca sueca, levou para a estrada o primeiro Volvo ÖV4 de produção.

Um modelo que ficaria conhecido como “Jakob”, um descapotável em tons de azul-escuro com guarda-lamas pretos, equipado com um motor de 4 cilindros – ver aqui.

A história da Volvo começa verdadeiramente aqui e ainda há muito para contar. Temos mais 90 anos de aventuras e desventuras, dificuldades e vitórias da Volvo para partilhar durante este mês aqui na Razão Automóvel.

Segue-nos para não perderes os próximos capítulos deste Especial dos 90 anos da Volvo.

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