Herbert Diess: "Na Europa vai ser quase impossível dizer adeus ao motor de combustão"

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Herbert Diess: “Na Europa vai ser quase impossível dizer adeus ao motor de combustão”

Herbert Diess, CEO do Grupo Volkswagen, apesar do empenho na transição para os elétricos, não acredita que o motor de combustão desapareça nos prazos que a UE está a querer impor.

Herbert Diess, diretor executivo do Grupo Volkswagen e um dos maiores impulsionadores da transição para a mobilidade elétrica do gigante alemão, revela que é “simplesmente impossível” dizer “vamos acabar com os carros a combustão”, no curto espaço de tempo que os governos e entidades reguladoras desejam.

Isto apesar da viragem decidida do Grupo Volkswagen rumo à eletrificação, tendo anunciado 89 mil milhões de euros de investimento em futuras tecnologias para os próximos cinco anos, dos quais 52 mil milhões de euros são apenas para desenvolver veículos elétricos.

Relembramos ainda que o Grupo Volkswagen traçou como objetivo de em 2030 metade das suas vendas serem de veículos 100% elétricos, uma meta ambiciosa.

TÊM DE VER: New Auto. O plano do Grupo VW para se transformar numa “empresa de mobilidade baseada em software”
Volkswagen ID.3 e Herbert Diess. CEO do Grupo Volkswagen
Volkswagen ID.3 e Herbert Diess, CEO do Grupo Volkswagen.

Uma meta talvez demasiado ambiciosa para o gigante alemão, como Herbert Diess referiu numa entrevista ao podcast Decoder, da publicação The Verge, que nos dá dados para demonstrar a enormidade da tarefa em mãos.

"Se tivermos, aqui na Europa, uma quota de mercado de 20% (em 2030), para conseguir esses 50% de vendas de elétricos, precisamos de seis giga-fábricas. Essas fábricas têm de estar construídas e a laborar em 2027, 2028 para atingir o nosso objetivo de 2030. É quase impossível de fazer isso."

Herbert Diess, diretor executivo do Grupo Volkswagen

E porquê é quase impossível? Estas seis giga-fábricas — já anunciadas e algumas já em construção — referem-se apenas e só à produção de baterias e Herbert Diess é claro nos desafios que implicam:

"Temos de comprar todas as máquinas (para as fábricas). Temos de construir as fábricas. Temos de encontrar as localizações (para as construir). Temos de formar as pessoas. Temos de garantir o fornecimento e qualidade das matérias-primas. É um desafio enorme".

Herbert Diess, diretor executivo do Grupo Volkswagen

E como Herbert Diess refere, isto é apenas para o Grupo Volkswagen na Europa. Se ele prevê uma quota de 20% para o grupo obrigando a ter seis giga-fábricas, isso implicará cerca de 30 giga-fábricas para todo o continente europeu.

O termo “giga” não é um eufemismo. São fábricas de uma dimensão considerável, ocupando uma área de 2 km por 1 km! “Vai ser desafiante”, diz, referindo-se às enormes quantidades de matérias-primas que terão de ser extraídas e transportadas para alimentar estas giga-fábricas produtoras de baterias.

VEJAM TAMBÉM: Há matéria-prima suficiente para fazer baterias para tantos elétricos?

Se o desafio de atingir 50% das vendas só com automóveis elétricos é herculeano, para dar o salto para os 100% será um “desafio tremendo”, remata. Não é de admirar, portanto, que Diess declare “Não é só dizer, ‘Vamos desligar os carros com motores de combustão interna.’ É simplesmente impossível.”

Relembramos também que dentro do Grupo Volkswagen já foram várias as marcas a anunciar o fim do motor de combustão interna nas suas gamas, pelo que será interessante perceber de que forma os desafios que Herbert Diess fala serão ultrapassados:

De onde vem a energia?

Nesta longa entrevista (mais de uma hora de duração) a Herbert Diess, falou-se sobre o futuro do Grupo, desde o novo “Pão de Forma” elétrico — cuja comercialização deverá arrancar ainda neste primeiro trimestre —, o desenvolvimento de software que está a acompanhar esta transição elétrica, à forma como as crescentes sinergias são um desafio à identidade das marcas.

Volkswagen ID.Buzz
Volkswagen ID.Buzz

Mas também falou-se da energia elétrica que os automóveis… elétricos necessitam. Herbert Diess é peremptório: “(…) os carros elétricos só fazem sentido se a (fonte de) energia for renovável — apenas se a energia for realmente energia ‘verde’ que vem do vento ou sol ou nuclear.”

Ele refere que ainda há nações na Europa que não faz sentido estar a vender carros elétricos, pois a principal fonte de energia advém do carvão, dando o exemplo da Polónia, onde o carvão fornece 70% das necessidades energéticas do país.

"Antes de vendermos carros elétricos, temos de converter a 100% renováveis o setor primário (de energia)."

Herbert Diess, diretor executivo do Grupo Volkswagen

Mas Diess refere também exemplos onde o oposto à Polónia acontece, como na França, Noruega, Áustria, em algumas partes dos Estados Unidos da América e Canadá, “mas isto (vender carros elétricos) tem de andar a par e passo com a conversão da produção de energia”.

“Isto requer tempo e é por isso que dois planos ambiciosos não irão funcionar. Será até contraproducente, porque fazer veículos elétricos em fábricas que funcionam a carvão é ainda pior do que andar em carros a gasolina”, conclui Diess.

Fonte: The Verge

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