Viajei ao passado e conduzi uma Renault 4L de 1980

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4L faz 60 anos

Viajei ao passado e conduzi uma Renault 4L de 1980

Voltei a uma altura onde não tínhamos que nos preocupar com a falta de semicondutores ou metas ambientais e conduzi uma Renault 4L, que celebra 60 anos de histórias.

Em Paris, França

Renault 4L, a sexagenária. Sim, isso mesmo. Este ano marca o 60.º aniversário de um dos modelos mais icónicos da história da Renault.

Continua a ser, depois de todos estes anos, o modelo mais vendido da história da marca francesa. Mas as suas raízes vão muito além do sucesso comercial. Este é um modelo repleto de histórias e que deixou de ser apenas um automóvel. É um verdadeiro ícone pop.

E tenho a certeza que grande parte dos que estão a ler esta crónica conhecem ou conheceram alguém que teve, em algum momento da sua vida, uma história com um destes modelos. E isso, só por si, já diz tudo.

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renault 4 GTL 1980

Mas melhor do que perceber através dos livros de História os motivos que tornaram este modelo tão importante, só mesmo poder conduzi-lo. E foi precisamente isso que fizemos, a convite da Renault: viajámos até Paris e fomos conduzir alguns exemplares da 4L.

O coração da Renault Classic

A aventura começou nos Campos Elísios, já iluminados pelas luzes de Natal que todos os anos vestem as ruas de Paris. Seguiu-se uma visita rápida ao L’Atelier Renault, que é a loja mais antiga ainda em atividade naquela famosa avenida.

60 anos Renault 4L © Miguel Dias / Razão Automóvel

Foi aí que conhecemos de perto alguns dos exemplares mais especiais do modelo, onde está montada uma exposição temporária com a Renault 4L como protagonista.

Mas esta era só uma pequena amostra do que se iria seguir no próximo dia: visitámos a garagem da Renault Classic, na fábrica de Flins (arredores de Paris), onde é produzido o Zoe, e vimos uma exposição especial com 22 automóveis.

60 anos Renault 4L
É a única “loja” automóvel que ainda se mantém aberta nos Campos Elísios. © Miguel Dias / Razão Automóvel

Por entre um modelo que entrou no Dakar até um exemplar que fez uma viagem de 40 000 km entre a Cidade do Fogo, na Argentina, e o Alaska, nos Estados Unidos, todos os automóveis expostos transpiram histórias míticas e apaixonadas.

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Mas na base de tudo isto está uma das silhuetas mais facilmente reconhecíveis na indústria automóvel. E nós fomos ao encontro dela na estrada, para uma experiência bem distinta daquela que vos costumamos contar.

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Esqueçam os consumos, as acelerações dos 0 aos 100 km/h, os sistemas de infoentretenimento e os sistemas de auxílio à condução. Agora vamos regressar ao passado, a uma era puramente mecânica e analógica.

60 anos Renault 4L
Os números não mentem: a Renault 4L é uma verdadeira história de sucesso. © Miguel Dias / Razão Automóvel

Se o novo Renault Mégane E-Tech Electric é da era do streaming esta 4L que conduzimos ainda tem o encanto do vinil. Mas será que ainda tem lugar no «mundo real», onde a conversa é cada vez mais sobre mobilidade e menos sobre automóveis? Será que apenas há lugar para estes modelos no nosso imaginário?

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Bem, não é que eu tivesse dúvidas, porque não tenho. Mas esta 4L tratou de me mostrar logo nos primeiros quilómetros que ainda tem muito para nos oferecer.

Ainda atual?

Num contacto como este, a experiência começou logo no momento em que me sentei no banco, coloquei o cinto e agarrei pela primeira vez o volante. E não foram precisos muitos quilómetros para reparar que este continua a ser um automóvel com argumentos muito atuais.

Renault 4L 60 anos Paris
Há mais analógico do que isto? Esqueçam o smartphone com o Google Maps. Pode ser? © Miguel Dias / Razão Automóvel

Fácil de usar, com dimensões compactas, com um interior bem mais espaçoso do que a imagem exterior denuncia e, acima de tudo, muito versátil. Tudo isto são atributos que encontramos em muitos modelos atuais. E que este Renault 4L tão bem preservou ao longo de todos estes anos.

E nem mesmo o espaço da bagageira está desajustado, ou não tivesse este automóvel aparecido numa altura em que começaram a aparecer os primeiros grandes supermercados. Ou tivesse sido pensado para ser tão capaz na cidade quanto fora dela, mesmo nos cenários rurais — que teve particular importância na sua concepção —, onde por vezes até era «chamado» a transportar animais.

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Motor surpreendeu

Debaixo do capô encontramos um motor 1.1 de quatro cilindros em linha que produz 34 cv de potência e que permite acelerar até aos 121 km/h de velocidade máxima — não fica muito longe dos números de um Dacia Spring. O cartão de visita está longe de ser glamouroso, ainda para mais nos dias de hoje, onde qualquer pequeno citadino facilmente se apresenta com uma potência a rondar os 100 cv.

Renault 4 GTL 1980 motor

Mas a verdade é que este motor tem mais fôlego do que eu estava à espera: nos regimes baixos «dispara» muito bem e nos regimes médios é sempre capaz de nos brindar com uma força bastante satisfatória.

E depois temos de falar daquela caixa de velocidades manual de quatro relações. Confesso que esta caixa de velocidades era uma das minhas maiores curiosidades.

Renault 4L 60 anos Paris
Não me digam que não é possível encontrar beleza na simplicidade das coisas… © Miguel Dias / Razão Automóvel

Com uma utilização bastante peculiar e com uma localização bem diferente da que estamos habituados, mostrou-se muito fácil de operar e em grande forma. Mas depois de ter conduzido este Renault 4 GTL de 1980 ainda experimentei, muito brevemente, um Renault 4 de 1968 e as sensações já não foram bem as mesmas. Aqui, 12 anos foram mesmo muito tempo.

Suave e confortável

Confortável, muito bom a responder às irregularidades do asfalto e sempre competente a passar por cima de uma invenção moderna com que este modelo não precisou de lidar na época em que foi lançado: as lombas redutoras de velocidade nas localidades.

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Curiosamente, esperava um rolamento de carroçaria bem mais pronunciado nas curvas. É claro que somos puxados para a parte exterior das curvas, mas nunca chega a ser um incómodo.

Renault 4L 60 anos Paris
Sim, já houve uma época em que os carros não tinham todos jantes de 18”, 19” ou 20”. © Miguel Dias / Razão Automóvel

E depois há a forma…

A forma continua a não passar despercebida, sobretudo nos modelos mais recentes, como aquele que conduzi. A grelha dianteira a integrar os faróis redondos e todos os cromados continuam tão encantadores como no início. E acredito que isso é consensual. Porque verdade seja dita: nenhum automóvel sobrevive tanto tempo com uma imagem que não agrade a (quase) todos.

renault 4 gtl

É o carro certo para si?

Não podia acabar esta crónica sem responder à habitual questão que fazemos, por norma, no final de todos os nossos ensaios. Confesso que nunca tinha conduzido uma Renault 4L antes desta experiência e a verdade é que surpreendeu pela positiva.

Numa época marcada pela eletrificação e digitalização, e a caminhar em direção à condução autónoma, esta Renault 4L é uma boa recordação daquilo que o automóvel começou por ser: a derradeira expressão de liberdade e também utilidade.

60 anos Renault 4L
Um ícone da liberdade nos anos 1960. © Miguel Dias / Razão Automóvel

Ajudou a colocar a França sobre rodas no difícil período pós-guerra, foi o primeiro automóvel de muitas famílias e passou, muitas vezes, para as gerações futuras. Mas mais importante do que isso, conseguiu algo que nem pode ser quantificado: marcou muita gente. Muita gente mesmo. Eu inclusive.

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Ouvi muitas histórias dos inúmeros quilómetros que o meu pai fez ao volante de uma. E a verdade é que ainda hoje, quando vejo uma 4L na rua, costumo «sacar» do meu smartphone e tirar uma fotografia. E isso diz muito sobre o significado de um automóvel, certo?

Por isso digo: sim, é o carro certo para si. Nem que seja durante um par de horas, como foi para mim durante estes dias. É uma viagem ao passado. Um pedaço de história sobre rodas. E enquanto estamos ao volante também fazemos parte dela.

Sabe responder a esta?
Qual foi o primeiro modelo a alcançar cinco estrelas nos testes Euro NCAP?
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Mas pode descobrir a resposta aqui::

Renault Laguna. Vencedor do troféu Carro do Ano 2002 em Portugal

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