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Afinal, os motores de três cilindros são bons ou não? Problemas e vantagens

Os motores de três cilindros estão hoje presentes em quase todas as marcas e modelos. Será que são fiáveis? Vamos conhecer as suas vantagens e desvantagens.

Motores de três cilindros. Não há quase ninguém que não torça o nariz quando o assunto são motores de três cilindros.

Sobre eles já ouvimos quase tudo: “Comprar um carro com motor de três cilindros? Jamais!”; “Isso é só problemas”; “andam pouco e gastam muito”. Esta é apenas uma pequena amostra dos preconceitos relacionados com esta arquitetura.

Uns são verdade, outros não é bem assim, e outros não passam de mitos. Este artigo pretende colocar tudo em «pratos limpos».

Os motores de três cilindros são fiáveis? Afinal são bons ou não prestam para nada?

Apesar da má fama desta arquitetura, a evolução tecnológica nos motores de combustão tem feito com que as suas desvantagens sejam cada vez menos notórias. Rendimento, consumos, fiabilidade e agradabilidade de condução ainda são um problema?

Nas próximas linhas vamos reunir factos e números sobre estes motores. Mas vamos começar pelo início…

Os primeiros três cilindros

Os primeiros três cilindros do mercado chegaram até nos pela mão dos japoneses, ainda que de forma muito tímida. De forma tímida mas cheia de força. Quem é que não se lembra do Daihatsu Charade GTti? Depois deste, seguiram-se outros modelos de pouca expressão.

Os primeiros motores de três cilindros europeus de produção em larga escala surgiram apenas na década de 90. Estou a falar do motor 1.0 Ecotec da Opel, que equipava o Corsa B, e poucos anos depois, do motor 1.2 MPI do Grupo Volkswagen, que equipou modelos como o Volkswagen Polo IV.

motor três cilindros
Motor 1.0 Ecotec 12 v. 55 cv de potência, 82 Nm de binário máximo e 18s dos 0-100 km/h. O consumo anunciado era de 4,7 l/100 km.

O que é que estes motores tinham em comum? Eram fracos. Face aos seus congéneres de quatro cilindros, vibravam mais, andavam menos e consumiam pela mesma medida.

Seguiram-se os motores Diesel de três cilindros, que padeciam dos mesmos problemas, porém ampliados pela natureza do ciclo Diesel. O refinamento era fraco, e a agradabilidade de condução saía prejudicada.

Volkswagen Polo MK4
Equipado com o motor 1,2 litros MPI, o Volkswagen Polo IV foi dos carros mais frustrantes que já conduzi em autoestrada.

Se a isto juntarmos alguns problemas de fiabilidade, tivemos a tempestade perfeita para criar uma aversão a esta arquitetura que perdura até aos dias de hoje.

Os problemas dos motores de três cilindros?

Porque é que os motores de três cilindros são menos refinados? Esta é a grande questão. E é uma questão que está relacionada com o desequilibro inerente ao seu design.

Como estes motores são dotado de um número de cilindros ímpar, há uma assimetria na distribuição de massas e forças, tornando mais difícil o seu equilíbrio interno. Como sabes, o ciclo dos motores a 4 tempos (admissão, compressão, combustão e escape) requerem uma rotação da cambota de 720 graus, ou seja, duas voltas completas.

Num motor de quatro cilindros, há sempre um cilindro no ciclo de combustão, a fornecer trabalho à transmissão. Nos motores de três cilindros isso não acontece.

Para lidar com esse fenómeno, as marcas adicionam contrapesos na cambota, ou volantes de motor maiores para neutralizar as vibrações. Mas a baixas rotações é quase impossível disfarçar o seu desequilibro natural.

Quanto ao som emanado pelo escape, por falharem uma combustão a cada 720 graus, é também é menos linear.

Quais são as vantagens dos motores de três cilindros?

Ok. Agora que já conhecemos o «lado negro» dos motores de três cilindros, vamos dedicar-nos às suas vantagens — ainda que muitas delas possam ser apenas teóricas.

A razão fundamental para a adopção desta arquitetura prende-se com a redução do atrito mecânico. Quanto menos peças móveis, menos energia é desperdiçada.

Com relação a um motor de quatro cilindros, um motor três cilindros reduz até 25% o atrito mecânico.

Se tivermos em consideração que entre 4 a 15% do consumo pode ser explicado apenas pelo atrito mecânico, aqui está a nossa vantagem. Mas não é a única.

A remoção de um cilindro também torna os motores mais compactos e leves. Com motores mais pequenos, os engenheiros têm mais liberdade para projetar estruturas de deformação programadas ou ganhar espaço para a adição de soluções híbridas.

motores de três cilindros
O bloco do motor 1.0 Ecoboost da Ford é tão pequeno que cabe numa mala de cabine.

O custo de produção também poderá ser menor. A partilha de componentes entre motores é uma realidade em todas as marcas, mas uma das mais interessantes é a da BMW, com o seu design modular. Os motores três cilindros (1.5), quatro cilindros (2.0) e seis cilindros (3.0) da BMW partilham entre si a maioria dos componentes.

A marca bávara adiciona módulos (leia-se cilindros) conforme a arquitetura que deseja, sendo que cada módulo tem 500 cm3. Este vídeo mostra como:

Estas vantagens, todas somadas, permitem aos motores de três cilindros anunciar consumos e emissões mais baixos do que os seus congéneres de quatro cilindros com potência equivalente, especialmente no anterior protocolo de consumo e emissões NEDC.

Porém, quando os testes são realizados de acordo com protocolos mais exigentes como o WLTP, em regimes mais elevados, a vantagem não é tão óbvia. É uma das razões que leva marcas como a Mazda a não recorrem a esta arquitetura.

Os modernos motores de três cilindros

Se em cargas elevadas (altas rotações), as diferenças entre motores tetracilíndricos e tricilíndricos não são expressivas, a baixos e médios regimes os motores de três cilindros modernos com injeção direta e turbo conseguem consumos e emissões muito interessantes.

Veja-se o exemplo do motor 1.0 EcoBoost da Ford — o motor mais premiado da sua categoria — que consegue alcançar médias abaixo dos 5 l/100 km se a nossa única preocupação forem os consumos, e numa condução moderadamente relaxada, não passar dos 6 l/100 km.

Valores que sobem para cifras muito acima das mencionadas quando a ideia é «espremer» toda a sua potência sem qualquer concessão.

Quanto mais elevado é o ritmo, mais se esbate a vantagem para as motorizações com quatro cilindros. Porquê? Porque com câmaras de combustão tão pequenas, a gestão eletrónica do motor ordena injeções suplementares de gasolina para arrefecer a câmara de combustão e assim evitar o pré-detonamento da mistura. Ou seja, é utilizada gasolina no arrefecimento do motor.

Os motores de três cilindros são fiáveis?

Apesar da má fama desta arquitetura — que como vimos se deve mais ao seu passado do que ao seu presente — hoje são tão fiáveis como qualquer outro motor. Que o diga o nosso «pequeno guerreiro»

Dois fins de semana a fundo, duas corridas de resistência, e zero problemas. Este é nosso pequeno Citroën C1.

Esta melhoria deve-se aos avanços que na última década houve na construção dos motores em termos de: tecnologia (turbo e injeção), materiais (ligas metálicas) e acabamentos (tratamentos anti-fricção).

Apesar de não ser de um motor tricilíndrico, esta imagem é demonstrativa da tecnologia empregue nos motores atuais:

Consegue retirar-se cada vez mais potência de unidades com cada vez menos capacidade.

No momento atual da indústria automóvel, mais do que a fiabilidade dos motores, são os periféricos que são colocados em causa. Turbos, sensores diversos e sistemas elétricos, são sujeitos a um trabalho que hoje as mecânicas já não têm dificuldades em acompanhar.

Portanto, da próxima vez que vos disserem que os motores de três cilindros não são fiáveis, podem responder: “são tão fiáveis como qualquer outra arquitetura”.

Agora é a tua vez. Conta-nos como é que tem sido a tua experiência com os motores de três cilindros, deixa-nos um comentário!

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