Desde 40 100 euros

CLA 180 d. Testámos o “menino-bonito” da Mercedes-Benz

A nova geração do Mercedes-Benz CLA já chegou até nós e aposta forte no estilo e imagem, como o antecessor. Será mais que uma "cara bonita"?

Falar do Mercedes-Benz CLA e não falar de estilo é ignorar a essência do seu ser — é em grande parte devido ao seu estilo que se deve o seu sucesso comercial; mais de 700 mil CLA foram produzidos durante a sua primeira geração.

Confesso, nunca fui adepto do desenho da primeira geração. Apesar da “presença de palco”, eram evidentes os desequilíbrios nos seus volumes, os excessos visuais de algumas partes, e a falta generalizada de… finesse — (felizmente) a segunda geração veio corrigir todos esses pontos.

Proporções mais conseguidas — maior equilíbrio entre frente e traseira, e largura e altura —, superfícies mais depuradas e a maior coesão entre as partes e o todo, acabaram por gerar um desenho mais harmonioso, fluído e elegante.

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Ainda assim, a traseira custa ainda a aceitar devido ao formato das suas óticas e de como estas estão integradas (problema herdado do CLS), mas no cômputo geral, estamos na presença de um carro visualmente superior e bem mais apelativo — o epíteto de mini-CLS é mais merecido que nunca.

Para realmente compreender a evolução que é o desenho do novo CLA, coloquem-no, ao “vivo e a cores”,  ao lado do antecessor — é como se o primeiro CLA passasse a sofrer de envelhecimento prematuro.

Como é habitual, e como já aconteceu em tantos testes — Kia Proceed, BMW X2, Mazda3, etc. —, o discurso repete-se. Quando o estilo é tão dominante, são os aspetos práticos a sair prejudicados — o Mercedes-Benz CLA não é diferente… Acessibilidade e espaço disponível nos lugares traseiros deixam a desejar, assim como a visibilidade:

Passando para os lugares da frente, espaço não falta, mas também nada o distingue dos restantes Classe A dos quais deriva. No entanto, este interior, estreado em 2018 no Classe A, foi a proverbial “pedrada no charco”. Abraçou o digital como nunca tínhamos visto um construtor “convencional” o fazer, deixando para trás “velhos” paradigmas, o que resultou num design novo e distinto.

Continua a ser algo único no segmento, ainda que a sua exuberância, providenciada pelas expressivas saídas de ventilação ou até pela iluminação ambiente, possa não ser do gosto de todos.

Contrasta bastante com o exterior, faltando alguma elegância, fluidez e até classe, nas opções tomadas — mais cyberpunk que neo-clássico; especialmente à noite, quando exploramos as possibilidades para a iluminação ambiente.

Outro aspeto que, ao início, pode ser intimidante é a interação com o muito completo sistema MBUX, requerendo algum tempo até estarmos cientes de como o fazer eficazmente ou das possibilidades que permite:

A qualidade geral — materiais e montagem —, está em bom nível, mas sem ser referencial. O teto panorâmico opcional (1150 euros) que equipava a nossa unidade revelou-se uma fonte de ruído parasita em pisos mais degradados, por exemplo.

Ao volante

O Mercedes-Benz CLA 180 d testado será, muito provavelmente, a versão mais vendida da nova geração. E como é habitual no construtor de Estugarda, somos brindados com inúmeras opções de configuração/personalização, o que pode originar muitos CLA 180 d diferentes, não só no aspeto, mas até ao nível da experiência de condução.

A unidade que testámos trazia mais de 8000 euros em opcionais, mas em destaque encontramos a Linha AMG (3700 euros), que além de potenciar as linhas esguias e dinâmicas que possui, adiciona ao CLA uma suspensão rebaixada e jantes de 18″ envolvidas em borracha 225/45, o que acabou por determinar também muita da sua atitude dinâmica.

É fácil apontar o dedo à suspensão rebaixada e aos pneus de baixo perfil pelo nível de conforto a bordo, que não é o melhor, e os bancos desportivos também não ajudam. O amortecimento revela-se algo seco, com “este” Mercedes-Benz CLA a não conseguir relaxar devidamente sobre o asfalto, mesmo quando a circular em IC ou autoestrada, transmitindo em demasia para o habitáculo todas as imperfeições da estrada — é como se estivesse constantemente a saltitar. E o ruído de rolamento é também algo elevado.

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No cômputo geral, sente-se alguma falta de refinamento na forma como o Mercedes-Benz CLA circula, e acreditamos que tenha a ver e muito com a especificação particular do modelo em questão — seria interessante comparar com outro CLA, sem a Linha AMG.

Curva sobre carris, mas…

Quando chega a altura de explorar de forma mais empenhada o chassis, a suspensão rebaixada e as rodas generosas fazem mais sentido. A secura da suspensão e o baixo perfil dos pneus, traduz-se em precisão dinâmica e um controlo eficaz dos movimentos da carroçaria, notando-se quase ausência de rolamento desta.

O eixo dianteiro responde prontamente à nossa ação sobre o não totalmente redondo e algo espesso volante, com o CLA a resistir heroicamente à subviragem — o chassis revela-se muito eficaz. No entanto, apesar de parecer curvar sobre carris, a experiência em si acaba por ser pouco satisfatória, sobretudo devido ao seu inamovível e inerte eixo traseiro.

Também, verdade seja dita, este CLA 180 d não é um desportivo, longe disso — não é um mini-CLA 35. Com apenas 116 cv, o bloco 1.5 Diesel garante prestações modestas, mais que suficientes para o dia-a-dia. Apesar da ilusória urgência que parece ter ao calcar inicial do acelerador, não é um motor que revele grande aptidão para ritmos mais entusiastas.

Mercedes-Benz CLA Coupé 180 d © Raul Mártires / Razão Automóvel

Prefere ritmos estabilizados, em estrada aberta, que se adequam melhor à faixa de utilização algo estreita que apresenta — não adianta muito explorar os regimes mais elevados do motor, bastam os médios regimes para uma marcha célere.

É acompanhado por uma boa e rápida caixa de dupla embraiagem de sete velocidades (7G-DCT) — raramente “apanhamo-la” em falso —, apesar de no pára-arranca citadino, faltar alguma da assertividade que a caracteriza em estrada aberta. O nosso CLA 180 d trazia (pequenas) patilhas por trás do volante (e que viram com este), mas rapidamente as esquecemos, não convidando ao seu uso.

No final, com ritmos mais civilizados, o motor revelou um apetite até comedido, não sendo muito difícil efetuar consumos na casa dos 5,0-5,5 l/100 km. Em cidade, com muito pára-arranca, andou a rondar os seis, seis baixo; e mesmo considerando os abusos mais entusiastas ao motor/chassis durante o teste, os consumos pouco subiram para lá dos sete litros.

Mercedes-Benz CLA Coupé 180 d © Raul Mártires / Razão Automóvel

É o carro certo para mim?

Tal como o primeiro Mercedes-Benz CLA, a segunda geração aposta forte no estilo e continua a ser um dos principais argumentos a seu favor — uma alternativa mais cativante ao Classe A Limousine, a outra berlina de três volumes assente sobre a MFA II, que apesar de tratar melhor os ocupantes da segunda fila, tem uma bagageira mais pequena.

No entanto, este CLA 180 d em particular, devido à sua especificação, parece algo perdido sobre o que quer ser. Os opcionais que o equipam potenciam não só o aspeto desportivo, como as capacidades dinâmicas (e os limites) do chassis, mas por baixo do capot reside um motor que não quer saber nada de “correrias”, sentindo-se mais à vontade em ritmos moderados e estabilizados.

Talvez com outra configuração faça mais sentido e até possa ficar mais acessível — nesta configuração são mais de 50 mil euros, um preço elevado.

Preço

unidade ensaiada

50.353

Versão base: €40.100

IUC: €147

Classificação Euro NCAP: 5 / 5

  • Motor
    • Arquitectura: 4 cil. em linha
    • Capacidade: 1461 cm3
    • Posição: Dianteira Transversal
    • Carregamento: Inj. dir. common-rail; turbo de geometria variável; intercooler
    • Distribuição: 1 a.c.c., 2 válv. por cil.
    • Potência: 116 cv às 4000 rpm
    • Binário: 260 Nm entre as 1750 rpm e as 2500 rpm
  • Transmissão
    • Tracção: Dianteira
    • Caixa de velocidades: Caixa de velocidades automática de dupla embraiagem 7G-DCT
  • Capacidade e dimensões
    • Comprimento / Largura / Altura: 4688 mm / 1839 mm / 1430 mm
    • Distância entre os eixos: 2729 mm
    • Bagageira: 460 l
    • Jantes / Pneus: 225/45 R18
    • Peso: 1490 kg
  • Consumo e Performances
    • Consumo médio: 4,8 l/100 km
    • Emissões de CO2: 126 g/km
    • Vel. máxima: 205 km/h
    • Aceleração: 10,7s
  • Garantias
    • Mecânica: 2 anos
Extras
Pack Premium (3850,00€) — Sistema de Navegação MB, Apoio de Braços traseiro, Painel de instrumentos de 10", Sistema de som intermédio, Display Central de 10,25", Bancos Dianteiros Aquecidos, Iluminação ambiente, Embaladeiras das portas dianteiras iluminadas; Teto de Abrir Panorâmico em Vidro (1150,00€); MBUX realidade aumentada para navegação (350,00€); Linha AMG (3700,00€) — Bancos traseiros rebatíveis, Forro do Tejadilho em Tecido Preto, Estofos em Pele ARTICO/DINAMICA Preto, Suspensão Conforto Rebaixada, Estética AMG, Bancos desportivos, Volante multifunções em pele, Tapetes AMG; Pack Night (550,00€) — Vidros escurecidos, Jantes em liga leve de 5 raios AMG escurecidas de 18"; Pintura Solida Branco Polar (250,00€)
Avaliação
7 / 10
É sem dúvida mais que uma "cara bonita". O estilo continua a ser um fator determinante, e até faz esquecer alguns pontos menos conseguidos, mas que talvez não sejam tão determinantes para um carro como o Mercedes-Benz CLA, nomeadamente a acessibilidade e espaço disponível nos lugares traseiros. Bons materiais, bem construído, e com um sistema de info-entretenimento poderoso (MBUX), o CLA oferece mais que apenas estilo. O chassis revela-se também muito eficaz, apesar de pouco cativante, mas há um preço a pagar pela suspensão rebaixada e rodas generosas —  e não nos referimos ao custo do pack —; o conforto sai prejudicado, assim como o refinamento geral. O motor segue a mesma bitola do chassis, eficaz na sua missão, mas não muito cativante ou enriquecedor para a experiência de condução — oferece, por outro lado, consumos moderados. Sinteticamente, uma alternativa cheia de estilo à típica berlina de três volumes, mas faz-se pagar, e bem.
  • Estilo
  • Sistema MBUX
  • Consumos
  • Comportamento eficaz
  • Preço
  • Conforto
  • Acessibilidade e Espaço atrás

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