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Entrevista

Toto Wolff: “Não acho que a F1 aguente uma equipa que seja campeã 10 vezes seguidas”

Falámos em exclusivo com Toto Wolff, chefe de equipa e diretor executivo da Mercedes-AMG Petronas F1 Team, na antevisão do GP de Portugal de 2021.

Depois de uma carreira modesta como piloto, onde a maior vitória foi um primeiro lugar (na sua categoria) nas 24 Horas de Nürburgring de 1994, Toto Wolff é, atualmente, um dos rostos mais conhecidos e uma das personalidades mais importantes da Fórmula 1.

Chefe de equipa e diretor executivo da Mercedes-AMG Petronas F1 Team, Wolff, agora com 49 anos, é considerado por muitos como um dos maiores líderes da história da Fórmula 1, ou não fosse ele um dos grandes responsáveis pelos sete títulos mundiais de construtores consecutivos da equipa das flechas prateadas, um feito ímpar nos mais de 70 anos de história da Fórmula 1.

Num exclusivo Razão Automóvel, falámos com o executivo austríaco e abordámos temáticas tão distintas como o futuro da Fórmula 1, que Toto acredita passar pelos combustíveis sustentáveis e a importância do desporto automóvel para os construtores.

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Toto Wolff
Toto Wolff no GP do Bahrein, 2021

Mas também tocámos em assuntos mais sensíveis, como o mau arranque de temporada de Valtteri Bottas, o futuro de Lewis Hamilton na equipa e o momento da Red Bull Racing, que Toto considera estar em vantagem.

E claro, como não poderia deixar de ser, falámos sobre o Grande Prémio de Portugal que se avizinha, que no fundo é a razão que motivou esta entrevista ao “patrão” da Mercedes-AMG Petronas F1 Team, que detém, em partes iguais com a INEOS e a Daimler AG, um terço das ações da equipa.

Razão Automóvel (RA) — Criou uma das equipas mais bem sucedidas da história do desporto, numa categoria onde normalmente existem ciclos e as equipas quebram ao final de algum tempo. Qual é o grande segredo por detrás do sucesso da equipa Mercedes-AMG Petronas?

Toto Wolff (TW) — Porque é que um ciclo acaba? As lições do passado dizem-me que é porque as pessoas deixam os níveis de motivação e de energia afundar. O foco muda, as prioridades alteram-se, toda a gente quer se aproveitar do sucesso e mudanças grandes nos regulamentos repentinas deixam a equipa exposta e outros em vantagem.

2021 Bahrain Grand Prix, Sunday - LAT Images
Mercedes-AMG Petronas F1 Team tenta chegar esta época aos oito títulos mundiais de construtores consecutivos.

Isto é algo que discutimos durante muito tempo: o que é que tem de prevalecer? Quando vais ao casino, por exemplo, e sai sete vezes seguidas o vermelho, não quer dizer que na oitava vez vá sair preto. Pode sair vermelho novamente. Por isso, todos os anos, todas as equipas têm novamente oportunidade de ganhar. E não é com base em nenhum ciclo estranho.

Os ciclos vêm de fatores como as pessoas, as qualidades e as motivações. E nós, até agora, temos sido bem sucedidos em manter isso. Mas isto não garante que vais ganhar todos os campeonatos em que participas. Isso não existe no desporto e em nenhum outro negócio.

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Mercedes F1 Team - festejos 5 mundiais construtores consecutivos
Toto Wolff, Valtteri Bottas, Lewis Hamilton e restante equipa festejaram, em 2018, cinco títulos mundiais consecutivos de construtores. Entretanto já conquistaram mais dois.

RA — É fácil manter toda a gente motivada, ano após ano, ou é necessário ir criando pequenos objetivos ao longo do tempo?

TW — Não é fácil ficar motivado ano após ano porque é muito simples: se sonhas com vencer e depois vences, isso é arrebatador. Todos os seres humanos são iguais, quanto mais tens, menos especial se torna. Eu acho que é muito importante lembrarmo-nos todas as vezes do quão especial é. E nós tivemos sorte no passado.

Os pilotos fazem uma grande diferença se tiveres dois carros praticamente iguais.

Toto Wolff

Todos os anos fomos ‘acordados’ pelas derrotas. E de repente pensamos: Eu não gosto disto, não gosto de perder. É muito doloroso. Mas voltas a pensar no que tens de fazer para ultrapassar esta sensação negativa. E a única solução é ganhar.

Nós estamos numa boa posição, mas quando me ouço a dizer isso começo logo a pensar: ok, já estás outra vez a achar que somos os ‘maiores’, não somos. Tens de te lembrar que não se pode tomar nada por garantido, porque os outros estão a fazer um bom trabalho.

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Fórmula 1 Red Bull
Max Verstappen — Red Bull Racing

RA — Neste arranque de temporada a Red Bull Racing está a mostrar-se mais forte do que nos anos anteriores. A somar a isso, Max Verstappen está mais maduro do que nunca e o “Checo” Pérez é um piloto rápido e muito consistente. Acha que esta pode ser a época mais difícil dos últimos cinco anos?

TW — Houve algumas temporadas difíceis. Lembro-me de 2018, por exemplo, com a Ferrari e com Vettel. Mas neste arranque vejo um carro e uma unidade motriz que parecem ser superiores ao ‘pacote’ da Mercedes. Isso não aconteceu no passado.

Houve corridas onde não fomos os mais rápidos, mas neste início de temporada vemos que são eles a marcar o ritmo. É algo que precisamos de alcançar e ultrapassar.

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Toto Wolff e Lewis Hamilton
Toto Wolff e Lewis Hamilton.

RA — É numa altura destas, onde não têm o carro mais rápido, que o talento de Lewis Hamilton pode fazer novamente a diferença?

TW — Os pilotos fazem uma grande diferença se tiveres dois carros praticamente iguais. Aqui eles têm um piloto jovem, que está a emergir e é claramente um talento excecional.

E depois há o Lewis, que é heptacampeão do mundo, recordista em vitórias em corrida, recordista em pole-positions, com o mesmo números de títulos que o Michael Schumacher, mas que ainda está forte. Por isso é uma luta épica.

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Mercedes F1 - Bottas, Hamilton e Toto Wolff
Toto Wolff com Valtteri Bottas e Lewis Hamilton.

RA — A temporada não começou bem para Valtteri Bottas e ele parece estar cada vez mais longe de afirmar-se. Acha que ele está cada vez mais a acusar a pressão de ter que ‘mostrar serviço’?

TW — O Valtteri é um piloto muito bom e uma pessoa importante dentro da equipa. Mas nos últimos fins de semana ele não esteve bem. Temos que perceber porque não lhe conseguimos dar um carro onde ele se sinta confortável. Estou a tentar encontrar explicações para isso e para lhe conseguirmos dar as ferramentas necessárias para ele ser mais rápido, que é algo que ele consegue.

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Wolff Bottas 2017
Toto Wolff com Valtteri Botas, no dia em que o finlandês assinou contrato com a equipa, em 2017.

RA — Com o teto orçamental já em vigor em 2021 e que vai diminuir gradualmente ao longo dos próximos anos, e sendo a Mercedes-AMG Petronas uma das maiores equipas, será também uma das mais afetadas. Que tipo de impacto acredita que isto vai ter na competição? Vamos ver a Mercedes-AMG a entrar noutras categorias para redistribuir os seus funcionários?

TW — É uma ótima questão. Eu acho que o teto orçamental é importante, porque nos protege de nós próprios. A caça aos tempos por volta chegou a níveis insustentáveis, em que investes milhões e milhões de euros num ‘jogo’ de décimos de segundo. Os tetos orçamentais vão reduzir as diferenças de ‘performance’ entre as equipas. E isso é muito bom. A competição precisa de ser equilibrada. Não acho que o desporto aguente uma equipa que seja campeã 10 vezes seguidas.

Não tenho a certeza se serão combustíveis sintéticos (a usar na Fórmula 1), mas acho que serão combustíveis sustentáveis.

Toto Wolff

Mas ao mesmo tempo lutamos por isso. Em termos de distribuição das pessoas, estamos a olhar para todas as categorias. Temos a Fórmula E, cuja equipa mudámos entretanto para Brackley , onde já trabalham. Temos o nosso ‘braço’ de engenharia, chamado Mercedes-Benz Applied Science, onde trabalhamos em barcos de competição para a INEOS, bicicletas, projetos de dinâmicas de veículos e táxis-drone.

Encontrámos atividades interessantes para as pessoas que existem pelo seu próprio mérito. Geram lucros e dão-nos diferentes perspetivas.

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RA — Acredita que há alguma possibilidade de a Fórmula 1 e a Fórmula E se aproximarem no futuro?

TW — Não sei. Essa é uma decisão que tem de ser tomada pela Liberty Media e pela Liberty Global. Claro que eventos citadinos com a Fórmula 1 e a Fórmula E podem ajudar a reduzir os custos. Mas acho que essa é uma decisão puramente financeira que tem de ser tomada pelos responsáveis das duas categorias.

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MERCEDES EQ Formula E-2
Stoffel Vandoorne — Mercedes-Benz EQ Formula E Team.

RA — Recentemente vimos a Honda dizer que não quer continuar a apostar na Fórmula 1 e vimos a BWM deixar a Fórmula E. Acha que alguns fabricantes já não acreditam nos desportos motorizados?

TW — Acho que os construtores vão e voltam. Vimos isso na Fórmula 1 com a BMW, Toyota, Honda, Renault… As decisões podem sempre mudar. As empresas estão sempre a avaliar o poder de marketing que o desporto tem e a transferência de imagem que permitem. E se não gostarem, é fácil sair.

Estas decisões podem ser tomadas muito rapidamente. Mas para as equipas que nascem para competir é diferente. Nós, na Mercedes, o foco é competir e ter carros nas estradas. O primeiro carro da Mercedes foi um carro de competição. E por isso é que é a nossa principal atividade.

BMW Fórmula E
BMW não marcará presença na terceira geração da Fórmula E.

RA — Acha que os combustíveis sintéticos serão o futuro da Fórmula 1 e do desporto motorizado?

TW — Não tenho a certeza se serão combustíveis sintéticos, mas acho que serão combustíveis sustentáveis. Mais combustíveis biodegradáveis que sintéticos, porque os combustíveis sintéticos são muito caros. O processo de desenvolvimento e produção é complexo e muito caro.

Por isso vejo muito mais o futuro a passar por combustíveis sustentáveis com base noutros ingredientes. Mas penso que se for para continuar a usar motores de combustão interna, temos que o fazer com combustíveis sustentáveis.

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Valtteri Bottas 2021

RA — Este é o segundo ano consecutivo que Portugal recebe a Fórmula 1. O que acha do Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão, e o que acha do nosso país?

TW — Eu gosto muito de Portimão. Conheço o circuito dos meus tempos do DTM. Lembro-me que fizemos lá o primeiro teste de Fórmula 1 do Pascal Wehrlein num Mercedes. E agora, voltar para uma corrida de Fórmula 1 foi muito bom. Portugal é um país fantástico.

Quero muito regressar ao país num ambiente normal , porque há muito para ver e fazer. Do ponto de vista da corrida, é um traçado realmente muito bom, divertido de conduzir e de assistir.

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Lewis hamilton - Autódromo Internacional do Algarve (AIA) - F1 2020
Lewis Hamilton venceu o GP de Portugal de 2020 e tornou-se no piloto com mais vitórias de sempre em Grandes Prémios.

RA — Que tipo de dificuldades este traçado coloca aos pilotos? Foi especialmente difícil preparar a corrida do ano passado, por não haver referências de anos anteriores?

TW — Sim, isso foi desafiante, preparar um novo traçado e um circuito com subidas e descidas. Mas nós gostámos. Obriga a tomadas de decisão mais expontâneas, com base nos dados e a mais reação. E este ano vai ser igual. Porque não temos os dados acumulados de outros anos. O asfalto é muito específico e o desenho da pista é muito diferente do que conhecemos.

Temos três corridas com traçados muito distintos neste arranque de época, vamos ver o que se segue.

Autódromo Internacional do Algarve (AIA) - F1 2020 - Hamilton
Autódromo Internacional do Algarve acolheu o GP de Portugal em 2020 e tornou-se no quarto circuito português a receber uma corrida do Mundial de F1.

RA — Mas olhando para o traçado do Grande Prémio de Portugal, acha que é um circuito onde o carro da Mercedes-AMG Petronas pode aparecer forte?

TW — Neste momento é difícil dizer. Acho que a Red Bull Racing tem estado muito forte. Vimos Lando Norris (McLaren) fazer uma qualificação incrível em Imola. Os Ferraris estão logo atrás. Potencialmente, tens dois Mercedes, dois Red Bull, dois McLaren e dois Ferrari. Está tudo muito competitivo e isso é bom.

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Autódromo Internacional do Algarve (AIA) - F1 2020 - Hamilton
Lewis Hamilton no Autódromo Internacional do Algarve.

RA — Voltando agora a 2016, como foi gerir a relação entre Lewis Hamilton e Nico Rosberg? Foi um dos maiores desafios da sua carreira?

TW — O mais difícil para mim foi o facto de eu ser novo no desporto. Mas eu gostei do desafio. Duas personalidades e dois carácteres muito fortes, que queriam ser campeões do mundo. Em defesa do Lewis, não lhe demos o material mais sólido nesse ano. Teve várias falhas no motor, uma delas quando liderava na Malásia, que lhe podia ter dado o campeonato.

Mas acho que não estivemos bem nas últimas corridas. Tentámos impedir um desfecho negativo e mantê-los afastados, mas isso não era necessário. Devíamos tê-los deixado apenas conduzir e lutar pelo campeonato. E se acabasse com uma colisão, então acabava com uma colisão. Fomos demasiado controladores.

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Toto Wolff _ Mercedes F1. team (hamilton e Rosberg)
Toto Wolff com Lewis Hamilton e Nico Rosberg.

RA — A renovação de contrato com o Lewis Hamilton apanhou muita gente de surpresa por ser apenas por mais um ano. Foi este o desejo de ambas as partes? Isto quer dizer que se Hamilton ganhar uma oitava vez este ano esta pode ser a sua última temporada da carreira?

TW — Foi importante para ambas as partes. Para ele, foi importante deixar-lhe essa margem para ele decidir o que quer fazer com a sua carreira. Sete títulos mundiais, igualando o recorde do Michael Schumacher, é incrível. Mas tentar o recorde absoluto, acho que era importante para ele ter a liberdade mental para decidir o que quer fazer.

Mas entre lutar por um eventual nono título ou ter a desforra caso não consiga ganhar este, acho que ele vai ficar connosco durante algum tempo. E nós queremos tê-lo no carro. Há muito mais coisas para alcançar.

LEWIS HAMILTON GP DE PORTUGAL 2020
Lewis Hamilton foi o último a vencer um GP de Portugal em Fórmula 1. Mark Sutton

O “grande circo” da Fórmula 1 regressa a Portugal — e ao Autódromo Internacional do Algarve, em Portimão — já esta sexta-feira, com a primeira sessão de treinos livres marcada para as 11h30. Na ligação abaixo podem consultar todos os horários para não perder nada da etapa portuguesa do Mundial de Fórmula 1.

A NÃO PERDER: Todos os horários do GP de Portugal 2021 de Fórmula 1

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