Entrevista

David Gendry. “Estou surpreendido pela falta de apoio ao setor automóvel em Portugal”

Numa altura em que se começam a desenhar os primeiros esboços do Orçamento do Estado para 2021, falámos sobre o momento que o setor automóvel atravessa com David Gendry, diretor-geral da SEAT Portugal.

Da liderança de um dos maiores consórcios de eletrificação automóvel na China, diretamente para a liderança dos destinos da SEAT em Portugal. Podíamos resumir assim o mais recente capítulo da carreira de David Gendry, o novo diretor-geral da SEAT Portugal.

Aproveitando o momento difícil que o setor automóvel atravessa — e que coincidiu com a sua chegada à SEAT Portugal — a RAZÃO AUTOMÓVEL entrevistou este responsável francês, de 44 anos, que já soma mais de 17 anos de experiência na indústria automóvel.

Uma entrevista que avança algumas respostas, num cenário de incertezas, para o futuro de um setor que representa 19% do PIB nacional, 25% das exportações de bens transacionáveis e que emprega diretamente mais de 200 mil pessoas.

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David Gendry com Guilherme Costa
É partir desta sala que David Gendry (à esq.) vai liderar os destinos da SEAT Portugal nos próximos anos. ©Razão Automóvel

Crise ou oportunidade?

Sem rejeitar a palavra crise, David Gendry prefere, no entanto, usar a palavra «oportunidade». “Sou um otimista moderado. Mais cedo ou mais tarde vamos ultrapassar esta crise provocada pela pandemia. 2021 ou 2022? A grande incógnita é mesmo essa: quanto tempo vai demorar até retomarmos à realidade económica anterior à pandemia. Estou há pouco tempo em Portugal, mas é evidente que os portugueses estão muito empenhados em «dar a volta»”.

Elogios que o novo diretor-geral da SEAT Portugal não quis estender à nossa classe política: “tem sido lenta a reagir às necessidades do setor e está a perder uma grande oportunidade. Uma oportunidade para o setor e para Portugal”, defendeu David Gendry.

“Na minha chegada a Portugal, a falta de apoios ao setor automóvel em Portugal foi o que mais me surpreendeu. Por toda a Europa temos assistido à adoção de medidas para dar assistência, entre outras indústrias, à aviação civil e ao setor automóvel. Em Portugal, no que concerne ao setor automóvel, o cenário é diferente. Estamos a perder uma grande oportunidade”.

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Oportunidade, foi mesmo a palavra que David Gendry mais vezes proferiu durante a entrevista. “Portugal tem um dos parques automóveis mais envelhecidos da Europa. A idade média do parque circulante continua a aumentar, ano após ano. Esta é a oportunidade certa e o momento adequado para combater esta tendência”, defendeu o diretor-geral da SEAT Portugal, numa altura em que o governo começa a ensaiar os primeiros esboços do Orçamento do Estado para 2021.

Desde 2000, a idade média dos carros em Portugal passou dos 7,2 anos para os 12,7 anos. Os dados são da Associação Automóvel de Portugal (ACAP).
Perfil: David Gendry
Licenciado em Direito Empresarial, David Gendry, de 44 anos, é casado, tem dois filhos e está ligado à SEAT desde 2012, tendo mais de 17 anos de experiência no mercado automóvel. Desempenhou várias funções na área do Marketing e Vendas. No último ano e meio, David Gendry esteve em Pequim no Grupo Volkswagen China, na nova joint venture que se dedica aos veículos elétricos.

Seja pelo apoio à economia real, seja pela receita fiscal que a tributação automóvel representa para os cofres do Estado, “os incentivos à aquisição de automóvel não se deviam limitar aos 100% elétricos. Portugal devia ser mais ambicioso neste aspeto.”

Não é apenas uma questão económica

David Gendry foi, até junho deste ano, responsável por uma das maiores parcerias do Grupo Volkswagen para veículos 100% elétricos no mercado chinês — o maior mercado automóvel a nível mundial.

Funções que lhe deram uma visão holística do setor automóvel: “devemos contar com todas as tecnologias para o combate às emissões de CO2, e não apenas com os veículos 100% elétricos. Os novos automóveis com motor de combustão estão mais eficientes e ecológicos que nunca. Renovar o parque automóvel é, por isso, também um imperativo ambiental”.

Falámos da componente económica e ambiental, mas não nos podemos esquecer da segurança. A indústria automóvel tem investido milhões no desenvolvimento de modelos mais seguros. Nós temos a obrigação de disponibilizar essa segurança e estas tecnologias a todos.

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A SEAT em Portugal

Para David Gendry, quando falamos do futuro das marcas SEAT e CUPRA, a palavra de ordem é «oportunidade». “A chegada da renovada gama Leon e Ateca, e o reforço da marca CUPRA, são ótimas notícias para a SEAT Portugal. É uma excelente oportunidade para as nossas marcas”.

Recordamos que, nos últimos quatro anos, a SEAT cresceu 37% no nosso país, ultrapassou os 5% de quota de mercado e subiu de forma constante na tabela de vendas nacional.

“Temos todas as condições para continuar esta trajetória de sucesso. Toda a estrutura da SEAT Portugal e respetiva rede de concessionários está motivada”, defendeu o novo diretor-geral da marca em Portugal que se tivesse de comparar o nosso país a um modelo SEAT, escolheria a SEAT Arona: “compacto, dinâmico e muito bonito, como Portugal ”.

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