Entrevista

Entrevistámos Isidre López, o «guardião» da história da SEAT

Não é todos os dias que temos possibilidade de falar do passado, do presente e do futuro de uma marca. Foi exatamente isso que fizemos numa animada conversa com Isidre López, o responsável pelo departamento de clássicos da SEAT, durante a visita do SEAT & CUPRA On Tour a Portugal.

Podíamos estar novamente sentados no Museu “quase secreto” da SEAT em Espanha, mas não. Desta vez, a servir de pano de fundo, tivemos as ondas fortes do Guincho, em Cascais, para o SEAT & CUPRA On Tour.

Uma iniciativa da SEAT e da CUPRA, que está a percorrer vários países, de norte a sul da Europa, para mostrar o passado, o presente e o futuro destas marcas. Entre os vários responsáveis da SEAT e CUPRA presentes, estava Isidre López, o responsável pela divisão de “coches historicos” da SEAT.

Aproveitámos o momento para entrevistar este guardião do ADN da marca espanhola. Uma entrevista muito animada, que começou numa mesa em Cascais, e que terminou ao volante de um clássico, o SEAT 1430, pelas estrada do Guincho.

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Isidre López com Diogo Teixeira

Foi entre essas acelerações e travagens — embalados pela nostalgia que só os clássicos nos podem transmitir — que Isidre López nos falou dos desafios da preservação dos clássicos e também, dos desafios da preservação da identidade de marcas como a SEAT e a CUPRA num setor em que a mudança é o novo «normal».

Razão Automóvel (RA): No início deste ano tiveram um incêndio no museu de carros históricos da SEAT. Já recuperaram todo o espaço?

Isidre López (IL): Sim recuperamos tudo o que tinha sido afetado. Este incidente afetou diretamente a oficina, mas neste momento temos tudo recuperado. Não interrompemos nada, apenas um programa de visitas durante dois meses. Isto dá-nos mais ânimo. O que temos ali não são apenas automóveis, é o património de uma marca e de um país, e o que se passou felizmente não foi muito grave. Conseguimos preservar tudo.

RA: O museu tem uma coleção muito rica e com muita história. Quão importante é para uma marca conhecer bem a sua história?
IL: Cuidar do património de uma marca através das fotos de artigos, dos carros, é muito importante para perceber de onde vimos e perceber para onde vamos. Representa um esforço para todas as marcas, mas é algo que vale muito a pena. Temos o primeiro CUPRA que foi produzido, um Ibiza com 150 cv, um tributo à vitória no Mundial de Ralis. Foi assim que nasceu a CUPRA, que significa Cup Racing e que agora é uma marca autónoma, mas que está no ADN da SEAT.

RA: Deixa-o triste não existir um CUPRA Ibiza?
IL: Nunca se sabe! De momento não existe, mas a SEAT é um grupo que partilha muitas plataformas…

RA: Porque é que acha que as pessoas gostam tanto de clássicos?
IL: É uma boa pergunta. Eu acredito que gostam porque lhes recordam a sua infância, familiares, e são reconhecidos com carinho. Quando entras num clássico, sentes que és transportado para 30 ou 40 anos no tempo, há muitas poucas coisas que produzam esse efeito. Não interessam as prestações, é uma experiência de condução maravilhosa, analógica, e que para a cumprires precisas de empenho. Num clássico não há ajudas nem mordomias.

Isidre López
Vamos para a estrada? O modelo escolhido foi um SEAT 1430.

RA: Nesse sentimento histórico, qual é o modelo que destaca na história da SEAT?
IL: Sem dúvida o SEAT 600. O mais importante é o Ibiza, mas destaco sempre o SEAT 600 porque é o mais mítico e porque impulsionou a mobilidade em Espanha. É um modelo comparável ao MINI em Inglaterra, com o Citroën 2 CV em França ou com o Volkswagen Carocha na Alemanha.

RA: Como vê o futuro dos clássicos com estas regras apertadas de emissões?
IL: Claro que a questão ambiental é algo que nos preocupa, mas é preciso perceber que um carro clássico percorre no máximo dois mil quilómetros por ano e existem em muito menos quantidade.

Museu SEAT
O SEAT 124 que assinalou o primeiro milhão de unidades produzidas.

RA: Tem receio que o aumento desta regulação possa afetar a história das marcas?
IL: É muito provável que sim. Hoje ainda é fácil ter um clássico, todos nós gostamos ou gostávamos de ter um clássico, nem que seja o nosso primeiro carro! A crescente regulação, impostos, proibição de entrada nas grandes cidades, vai fazer com que o parque de automóveis clássicos desça.

RA: Como é que vê as empresas que transformam clássicos em elétricos?
IL: É uma iniciativa interessante. Porque podemos ver esses carros na estrada alimentados a energias alternativas, mas não deixa de ser estranho tendo em conta que nós (SEAT Coches Históricos) somos defensores da originalidade. Essas transformações têm o seu público, mas não é essa a visão que nós temos como marca.

SEAT CUPRA ON TOUR
Em conjunto com os modelos disponíveis para condução, esteve em exibição uma gama de veículos incumbida de sublinhar a visão futura de mobilidade da SEAT e CUPRA.

RA: A SEAT e a CUPRA estão a fazer esta tour na Europa, é interessante terem trazido clássicos para os convidados os testarem. Estes carros vão participar em todas as ações?

IL: Sim, mas não serão exatamente os mesmos. Como temos uma coleção de 323 carros, o que fazemos é falar com cada país para saber qual o carro que se adapta mais à realidade nacional. Para Portugal escolhemos o 850 Spider, o 1200 Sport Boca Negra e o 1430. O SEAT 850 Spider porque é excelente poder conduzi-lo na marginal de Cascais. O SEAT 1200 Sport Boca Negra porque tem um design próprio, e o SEAT 1430 porque estamos a celebrar os 50 anos deste modelo.

Em Inglaterra, por exemplo, vamos levar o SEAT 600 porque não se via por lá nenhum!

RA: Se tivesse que destacar um carro da vossa coleção, qual seria?
IL: (risos) Essa é uma pergunta tramada, porque é muito difícil de escolher. Há tantos carros importantes mas para mim, um dos mais importantes, é o Cordoba World Rally Car, porque eu estava na SEAT Sport na altura e representa o esforço e a emoção de viver o Mundial de Ralis. É um dos carros mais tecnológicos de toda a história da SEAT.

seat ibiza cupra mk1 museu da seat
O primeiro modelo Cupra da história da marca que agora se autonomizou da SEAT.

RA: Até o Isidre fica com saudades dos tempos que viveu, tal como todas as pessoas.
IL: Sim, claro! Mas destaco também o Papamóvel e primeiro SEAT Ibiza a sair da linha de produção.

RA: Para o museu ficar completo, ainda faltam alguns modelos na vossa coleção?
Existem 65 ou 66 carros que nos faltam para termos aquilo que consideramos ser uma boa representação. Todos os anos conseguirmos arranjar alguns, mas depois todos os anos também descobrimos outros carros que temos de adicionar à lista. É um desafio!

Museu SEAT
Museu da SEAT em Martorell, Espanha.

RA: Destes novos modelos, qual lhe desperta mais curiosidade?
IL: Eu gosto do CUPRA Tavascan. É um carro avançado, com uma personalidade forte e acima tudo, como todos os carros que produzimos, é fruto de muito esforço de uma equipa, e isso não tem valor.

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