Invasão SUV

Culpem os SUV. Carrinhas também em queda

O sucesso incontestável dos SUV põe em risco todas as restantes tipologias, mesmo aquelas que julgávamos invencíveis, como as carrinhas.

Será que nada está a salvo dos SUV? Os MPV (monovolumes) foram as primeiras vítimas, seguidos de perto pelas berlinas de três volumes (sedans), com vendas cada vez mais reduzidas. Não são os únicos — também as carrinhas estão ameaçadas pelo sucesso dos SUV.

As carrinhas são uma presença comum nas estradas europeias desde a década de 50, combinando elevados valores de praticidade e versatilidade com, na maior parte dos casos, atributos estéticos superiores aos automóveis de que derivam.

Atualmente, o continente europeu é o último bastião das carrinhas — 72% das vendas de todas as carrinhas no mundo são na Europa.

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Opel Astra 2019

Chegaram a ser imensamente populares na América do Norte, mas o seu lugar foi tomado, primeiro, pelos MPV (ou minivans) e mais recentemente pelos SUV — hoje têm uma existência marginal, tal como acontece noutros mercados espalhados pelo mundo.

Na Europa, por outro lado, permaneceram populares durante o séc. XX e têm resistido heroicamente ao avanço da “tipologia da moda”, o SUV. Só que os números são esclarecedores e esmagadores: em 2018 os SUV tiveram uma quota de mercado de 34%, enquanto as carrinhas ficaram-se pelos 11% (JATO Dynamics).

Um cenário que terá tendência para piorar — as vendas de SUV continuam a aumentar em 2019, as das carrinhas estão a contrair 10% este ano relativamente a 2018.

Menos modelos, menos vendas

Uma queda que poderá acelerar com a extinção de vários modelos. Por exemplo, no segmento B, a oferta resume-se atualmente à veterana Skoda Fabia Break e à low-cost Dacia Logan MCV. A última a ter desaparecido foi a Renault Clio Sport Tourer com o surgimento da quinta geração do Clio.

Renault Sport Tourer
Com o novo Clio desaparece a Sport Tourer — para os que querem mais espaço existe o Captur.

Para ser honesto, pensámos em substituir a carrinha Clio, mas no final, decidimos não o fazer.

Olivier Brosse, diretor da Renault para os automóveis compactos

A razão para não a substituirem? De acordo com Brosse, muitos dos clientes da Clio Sport Tourer optariam pelo Captur, que está prestes a receber uma nova geração, onde o espaço é um dos seus principais argumentos.

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Popular na Europa, mas só em alguns países

Apesar da (ainda) popularidade das carrinhas na Europa, a verdade é que esta não é homogénea. Se na Alemanha, o maior mercado europeu, a quota de mercado para as carrinhas é de 17%, no Reino Unido e na França, o segundo e terceiro maiores, a quota é de, respetivamente, 4% e 5%.

Skoda Octavia
Sucesso: a Skoda Octavia Break é a carrinha mais vendida na Europa, graças à boa performance no seu mercado doméstico, República Checa, e na Alemanha. Vende quase duas vezes mais que o carro Octavia.

Mesmo em países onde as carrinhas eram muito populares, como Itália, são agora uma muito pequena parte do mercado — quota de 15% em 1999, 5% nos primeiros seis meses de 2019.

O país europeu com maior quota de mercado para carrinhas? A Suécia com 31% — o país da Volvo e das suas carrinhas, claro… —, mas trata-se de um mercado relativamente pequeno em dimensão.

Apesar do declínio que os analistas referem — de 2,0 milhões de carrinhas vendidas em 2016 para 1,7 milhões previstas este ano —, são os fãs hardcore dos países mais a norte e a leste da Europa, que deverão mantê-las relevantes, já que são os que as consomem em maior número.

Volkswagen Passat 2019
A Passat Variant domina no segmento D

Países como a Alemanha, Holanda, Bélgica, Polónia e República Checa mantém-se fiéis a esta tipologia e não há muitos SUV que os demovam, como refere Pete Kelly, diretor geral da LMC Automotive:

“As carrinhas não estão de saída totalmente porque existe um grupo de clientes fieis que se identificam com elas totalmente. Para eles as carrinhas são superiores aos SUV por duas razões essenciais: o seu design mais longo e fluído e as suas bagageiras de maior dimensão. […] para construtores muito dependentes da Europa e Alemanha, as carrinhas são o melhor.”

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No meio é que está a virtude?

Uma forma que alguns construtores encontraram para evitar a hemorragia, tem sido com o lançamento de versões de caráter mais aventureiro, “roubando” aos SUV alguns dos seus traços mais característicos — estilo mais robusto, com proteções à volta da carroçaria, maior altura ao solo graças à suspensão elevada, e em bastantes casos, com tração integral.

Volvo V90 Cross Country © Razão Automóvel
Volvo V90 Cross Country. Carrinhas de “calças arregaçadas” — os verdadeiros crossover?

No entanto, apesar de terem sido imensos os modelos que têm surgido nesse formato nas últimas duas décadas, a verdade é que não adicionaram volume e conheceram diferentes graus de sucesso — a versão Cross Country da última Volvo V60, por exemplo, representou um terço das vendas de todas as V60.

Atualmente assistimos à eletrificação da carrinha — têm sido vários os lançamentos de carrinhas híbridas plug-in —, uma medida não tanto para salvar a carrinha em si e mantê-la relevante, mas sobretudo para contribuir para o esforço de redução das emissões de CO2 médias da gama do construtor.

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Que futuro para as carrinhas?

De acordo com a LMC Automotive, as vendas de carrinhas deverão continuar a reduzir gradualmente nos próximos anos, mas nada tão abrupto como o que vimos nos MPV.

No entanto, a pressão para reduzir as emissões durante a próxima década, poderão contribuir para a queda do SUV, preterindo-o por outras tipologias onde seja mais fácil obter uma menor resistência aerodinâmica e um peso inferior — será a “vingança” da carrinha?

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Fonte: Automotive News.

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