Troféu C1 Learn & Drive

Tudo o que aprendi neste carro que foi de uma idosa

Tal como a maioria dos carros usados, o nosso também foi de uma idosa que o estimava muito… nós não o estimamos nada. Tudo o que aprendi no Troféu C1.

A primeira temporada do Troféu C1 Learn & Drive chegou ao fim. Foram quatro corridas, 10 meses de preparação e uma vida inteira de impreparação para aquilo que se avizinhava.

Criámos a nossa própria equipa e, por momentos, até achámos que ia ser fácil. Afinal de contas, que dificuldade poderia ter preparar um Citroën C1 e correr com ele? Nenhuma, certo? Errado.

Agora que já acabou a temporada — e que foi só das coisas mais gratificantes que fiz agarrado a um volante… — chegou a altura de fazer um balanço de tudo o que aprendi no Troféu C1.

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Troféu C1 Learn & Drive

1ª lição. Corridas são corridas

Não importa se o carro é um Citroën C1 com 68 cv ou um Porsche 911 GT3 Cup com 500 cv. Corridas são corridas.

No final do dia, as corridas resumem-se a ser o mais rápido e consistente possível. Quem dominar estas duas artes, ganha. É aqui que a competição «à séria» começa.

Toda a gente tenta tirar o máximo partido do mais ínfimo detalhe. O nível de preparação e profissionalismo do Troféu C1 não fica a dever nada ao de outros campeonatos.

Se estás a pensar participar, esquece o “vou só para me divertir”. Vais o tanas… Assim que colocares o capacete só vais pensar em duas coisas: ser o mais rápido e consistente possível. Afinal de contas… corridas são corridas.

troféu c1, portimão 2019 © Razão Automóvel
Sente-se a tensão no ar

2ª lição. Vais desejar nunca não ter participado

Porque «corridas são corridas», nem sempre as coisas correm de feição. Avarias, penalizações, tempos que não saem, toques com outros concorrentes. Um fim de semana de corridas é uma montanha russa de emoções.

Tens dúvidas? Então vê este vídeo. Os primeiros 10 segundos são comigo a debitar uma lista de palavrões que só me saem quando encontro móveis no escuro com os dedos dos pés. Prepara-te. Quando as coisas não correm bem, a frustração é tanta que vais desejar ter ficado em casa ou ter ido de férias com o dinheiro que investiste nisto.

Mas quando as coisas correm bem, é uma sensação indescritível. Esqueces tudo e só desejas voltar a correr.

Troféu C1 Portimão

Foi com esse desejo que saí das 6 Horas de Portimão, após ter feito uma volta que podia ter colocado o nosso carro no 8º lugar da grelha durante a qualificação, e de ter feito um turno impecável já durante a corrida (quando interessa). Senti que estava a conduzir like a boss e isso é impagável.

Por vezes vais desejar nunca ter participado, mas a passagem do tempo coloca tudo no devido lugar. Os maus momentos perdem importância e são os bons momentos em equipa que prevalecem na memória – ui… só isso dava um artigo.

3ª lição. Sê humilde

Por muito bem que conduzas, tens muito que aprender. Na primeira corrida do Troféu C1 em Braga não aprendi nada. Chovia a potes, experimentei o carro pela primeira vez apenas no dia da corrida, e a única coisa à qual aspirei foi: não abraçar uma barreira de pneus. Missão cumprida.

Não aprendi nada mas percebi que tinha muito que aprender.

Felizmente, tivemos oportunidade de partilhar o volante do nosso C1 #911, durante toda a temporada, com um histórico piloto nacional, Francisco Carvalho. Um homem que já ganhou quase tudo o que havia para ganhar, nas mais diversas categorias, cá dentro e também lá fora.

Porém, Braga foi uma corrida tão caótica que não deu para aproveitar verdadeiramente a sua presença na nossa equipa.

Troféu c1, Portimão, 2019 © Razão Automóvel
Francisco Carvalho

Já em Portimão, foi num instante que passou a ser a minha referência. Eu tentei aprender o máximo com ele, e ele tentou ensinar-nos o máximo que podia. Os tempos começaram imediatamente a melhorar.

Quanto é que aprendi? Imenso. Na corrida 2 de Portimão, não fosse a entrada em pista do safety car teria entregue o nosso carro ao Nuno Antunes seguramente no TOP 3. Entreguei em 6º lugar numa grelha composta por 47 equipas.

Sem os seus ensinamentos não teria sido assim. A humildade, juntamente com a ambição, é um fator importantíssimo para evoluir a nossa técnica.

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4ª lição. Os carros não são todos iguais

Tão importante quanto a equipa de pilotos, é a equipa de mecânicos. Os carros não são todos iguais e quem consegue alcançar essa diferença é a equipa de mecânicos.

Se no carro contámos com Francisco Carvalho, na box contámos com João «China» (à esquerda na imagem abaixo). Outro histórico do todo o terreno e da velocidade nacional. Carinhosamente apelidado de «chinês», ele aceitou trocar os Porsche da Sportclasse pelo Citroën C1 da nossa equipa.

Troféu C1 Learn & Drive - Portimão © Sofia Teixeira / Razão Automóvel
A nossa equipa de assistência. Sempre impecáveis.

Com ele e com o Francisco Carvalho aprendi a fazer um carro rápido.

E como é que se faz um carro rápido? Em primeiro lugar esqueçam a desculpa de “o carro não anda”. Em 99% dos casos quem não anda és tu. E também não é uma questão de motor.

Na corrida do Troféu C1 em Portimão ultrapassei o carro da Gianfranco – equipa que venceu o campeonato – a meio da reta da meta. Tinha mais potência? Não. Apenas saía melhor da penúltima curva. Depois era sempre a ganhar até à curva 1.

Se não foi potência, o que foi? Afinação. Na última corrida do Estoril desmontámos o eixo traseiro seguramente umas 16 vezes até encontrarmos a afinação desejada. Uma afinação que só chegou quando os ponteiros do relógio já batiam nas 23h30.

Troféu c1, Portimão, 2019
À noite descansa-se… Não, nem por isso…

De um dia para o outro melhorámos 2 segundos. E antes da corrida ainda voltámos a dar mais um toque, agora na dianteira, ganhando mais 1 segundo. Na corrida, o nosso “911” fez a 5ª volta mais rápida.

Uma rapidez que não conseguimos capitalizar num bom resultado porque estivemos 8 minutos «atascados» na gravilha da curva 2 do Estoril. Azar? Nem por isso… lembra-te da lição n.º 1.

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5º lição. Organiza-te!

Podes ter o carro mais bem afinado da grelha, os melhores pilotos e a melhor equipa de mecânicos, mas se não tiveres a equipa organizada vais fazer um péssimo resultado.

Mais uma vez a nossa equipa foi bafejada pela sorte ao poder contar com dois elementos fundamentais: André Nunes e Francisco Carvalho Jr.

Troféu c1, Portimão, 2019
André Nunes.

Foram eles que combinaram entradas nas boxes, saídas, coordenaram os abastecimentos e as melhores alturas para mudar os pneus. Sem eles, as nossas corridas seriam um mar de penalizações.

6ª lição. Diverte-te, caramba!

Com o stress da corrida não vais dar conta, mas aquelas seis horas são ouro. Camaradagem, dedicação e empenho. Se tiveres estes três condimentos na tua equipa, vais divertir-te. É garantido.

Vais entrar no carro e vais fazer exatamente aquilo por que tanto esperaste: aviar uma data de adversários; discutir travagens; ganhar vantagem; ultrapassar. É épico.

Troféu C1, Estoril 2019

Já conduzi uma data de carros, mas poucas vezes me diverti tanto quanto me diverti agarrado ao volante daquele C1. Isto dito por alguém que faz vida a testar todo o tipo de carros, deve valer alguma coisa…

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7ª lição. Não há corridas baratas

Por falar em «valer alguma coisa», fazer o Troféu C1 não é caro, mas também não barato.

Por exemplo, preparar o carro não é caro. Se tiveres sorte com o teu C1, conta gastar cerca 6000/7000 euros. Cada inscrição nas corridas do Troféu C1 custa 1500 euros. Os pneus também são baratos e o carro consome pouco. O problema são os adicionais.

Troféu C1 Estoril © Sofia Teixeira / Razão Automóvel

O transporte, o equipamento, os mecânicos, as peças, as dormidas e também as refeições. Tudo somado isto custa algum dinheiro. Portanto, se queres participar, faz-te à estrada e tenta arranjar patrocinadores para amortizar o investimento.

Na segunda temporada do Troféu C1 será tudo mais fácil. A menos que tenhas o azar de virar o «armário» numa curva, ou ganhares 20 kg de uma época para a outra e o equipamento só te servir nas orelhas, já tens uma boa base de partida para continuar a correr.

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8ª lição. O nosso carro não era de uma idosa

É impressionante a quantidade de carros usados que, alegadamente, foram de simpáticas idosas durante toda a vida.

Aposto o que quiserem que o nosso C1 não foi de uma simpática idosa. A menos que essa simpática idosa gostasse de álbuns dos Ramnstein e fumasse que nem uma desalmada dentro do carro – entre outros artefactos que fomos descobrindo à medida que fomos transformando o nosso C1 numa demoníaca máquina de competição.

Certifica-te bem sobre a origem do teu C1. É o meu último conselho.

Troféu C1, Braga, 2019
Faça chuva ou faça sol…

Ah… e já agora partilho contigo uma frase que aprendi com o Francisco Carvalho:

“Há corridas que se ganham, outras que se perdem e outras… nem uma coisa nem outra.”

Troféu c1, Portimão, 2019 © Razão Automóvel
Até para o ano.

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