COTY 2019

Nos bastidores do Car Of The Year 2019. Conhece os sete finalistas

Antes do anúncio do vencedor do Car Of The Year 2019, o júri reuniu-se no circuito de testes de Mortefontaine, perto de Paris, para a avaliação final dos sete finalistas. Foi altura para tirar as últimas dúvidas sobre os carros e confrontar opiniões com os outros 59 jurados.

Em Mortefontaine, Paris

O dia “D” está a chegar! Vai ser a 4 de março, nas vésperas da abertura do Salão de Genebra, que a sala de eventos deste certame centenário vai acolher mais uma vez a cerimónia do anúncio do Car Of The Year (COTY, para os amigos) e a entrega do prémio ao construtor vencedor.

Mas, antes disso, os sessenta membros do júri do COTY tiveram esta semana a oportunidade de fazer os últimos testes aos sete finalistas.

Como sempre, o local escolhido foi o circuito de testes CERAM, na localidade de Mortefontaine, perto de Paris. Trata-se de um complexo de pistas usado por muitas marcas para desenvolverem os seus futuros carros e que, durante dois dias, recebe os jurados do COTY, proporcionando as melhores condições para testar, em circuito fechado e com todos os modelos disponíveis, os sete candidatos ao galardão que é considerado pela indústria como o mais prestigiado.

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COTY 2019
Os carros são as estrelas.

Um pouco de história…

O COTY é seguramente o prémio mais antigo da indústria automóvel, pois a primeira edição remonta a 1964, quando o galardão foi atribuído ao Rover 3500.

Fazendo um pouco de história, o COTY é desde o início uma iniciativa editorial, que começou por juntar sete das revistas de automóveis mais reputadas de sete países europeus. E continua a ser assim.

A seleção dos modelos a concurso é feita segundo critérios muito claros, resumindo-se a modelos apresentados durante os últimos doze meses antes da eleição, sendo obrigatório que estejam em comercialização em pelo menos cinco mercados.

Portanto as marcas não se inscrevem, quem escolhe aquilo a que chamamos a lista longa, que reúne todos os carros elegíveis, é a direção do COTY, constituída pelos jornalistas eleitos entre os jurados.

COTY 2019

Tudo às claras

Transparência é a palavra fundamental do COTY. Todas as regras podem ser consultadas no site www.caroftheyear.org onde se pode descobrir que, da lista inicial de todos os carros que cumprem os critérios para serem votados, é depois eleita pelos 60 jurados uma lista mais pequena com os sete finalistas e daqui se escolhe então o vencedor.

A avaliação segue alguns parâmetros que estão publicados no site, mas isso nem seria preciso. É dada confiança aos jurados, que têm de ser jornalistas especializados, cuja principal ocupação é testar carros e publicar os seus testes nos melhores meios especializados dos seus países.

Se estás a perguntar como se chega aqui, posso dizer que, no meu caso, como em todos os outros, a admissão a este “clube restrito” é feita exclusivamente por convite da direção, depois de consultados os outros jurados.

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Como se vota

A transparência continua no processo de votação final, em que cada jurado tem 25 pontos para distribuir por, pelo menos, cinco dos sete finalistas. Ou seja, só pode dar zero pontos a dois carros.

Depois tem que escolher o seu favorito entre os sete, e dar mais pontos a esse do que aos outros. Em seguida pode distribuir os pontos como entender, pelos restantes, desde que a soma total dê os tais 25 pontos.

Mas depois vem a parte realmente interessante: cada jurado tem que escrever um texto a justificar todas as pontuações que atribuiu, mesmo aos carros a que decidiu dar zero pontos. E esses textos são publicados no site www.caroftehyear.org no minuto a seguir a ser anunciado o vencedor de cada ano. Mais transparência que isto…

Os parâmetros de avaliação fazem parte daquilo que se espera de um normal teste a um carro, mas a interpretação fica ao cuidado de cada um, de acordo com as especificidades do seu país. Não há tabelas para preencher, há experiência e bom senso. Como é lógico, um jurado de um país do norte da Europa tem outras prioridades em relação a um do sul. Não só pelas condições meteorológicas típicas de cada região, mas também pelas taxas e preços praticados.

COTY 2019

Jurados de 23 países

O confronto de opiniões sobre um mesmo automóvel é sempre um dos aspetos que mais me agrada neste teste dos finalistas, a única altura do ano em que reunimos todos os 60 jurados, oriundos de 23 países. O nível de conhecimento de automóveis do todos os jurados é muito profundo, tanto mais que muitos deles têm uma experiência de décadas a fazer testes de carros.

Em geral, os carros vencedores são modelos de grande difusão, pois o júri entende que o prémio deve ser uma orientação para os automobilistas que andam à procura de comprar um carro novo. Estudos feitos no passado, concluíram que a vitória no COTY traz efetivamente um acréscimo nas vendas do modelo vencedor, não é apenas uma questão de prestígio.

Mas há sempre algumas surpresas na lista de finalistas. No fundo, a maioria dos jurados são apaixonados de automóveis, por isso não resistem a valorizar alguns carros mais emocionais e outros com tecnologias mais vanguardistas. Na história do COTY já venceram carros como o Porsche 928 e o Nissan Leaf, só para dar dois exemplos disso.

COTY 2019

Os finalistas de 2019

Perguntei a alguns dos meus colegas quais seriam os favoritos a vencer este ano, mas o conjunto é demasiado equilibrado para alguém arriscar um prognóstico. Este ano, os finalistas foram estes, por ordem alfabética:

O Alpine A110 é claramente a escolha dos apaixonados, que realmente apaixonou muitos jornalistas que o testaram ao longo do ano. Mas é um desportivo de dois lugares com produção restrita e utilização limitada.

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Citroën C5 Aircross

O Citroën C5 Aircross leva a marca para um segmento onde nunca esteve, com um SUV que aposta no conforto, mas onde a escolha de materiais do interior é discutível.

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COTY 2019 Ford Focus

O Ford Focus continua nesta geração a dar prioridade à dinâmica e aos motores, mas o seu estilo e imagem já não são tão originais como na primeira geração.

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O Jaguar I-Pace é um bom exemplo de como se pode fazer um carro 100% elétrico sem traír as raízes da marca, mas não é um modelo ao alcance de muitas bolsas.

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COTY 2019 Kia Ceed, Kia Proceed

O Kia Ceed entra na terceira geração com um produto muito completo e uma inovadora versão shooting brake, mas a imagem da marca ainda não está entre as mais glamorosas.

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O Mercedes-Benz Classe A melhorou muito em relação à geração anterior e tem um excelente sistema de comando por voz, mas não é dos mais baratos do segmento.

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Finalmente, o Peugeot 508 quer fazer renascer as berlinas de três volumes, com um estilo inovador, mas a habitabilidade não é um dos seus fortes.

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Enfim, estas são apenas algumas das minhas opiniões acerca dos sete finalistas, depois de os ter testado todos, alguns deles por diversas vezes, em países e em estradas bem diferentes. Como a eleição do COTY é feita em total democracia, ninguém consegue saber como a matemática vai ordenar os sete finalistas, quando todos os jurados tiverem votado.

A última prova

Neste evento, as marcas representadas na lista dos finalistas são convidadas a fazer uma última apresentação do seu carro aos jurados, numa sessão contra-relógio de apenas quinze minutos, para cada uma. São as regras.

Algumas marcas trazem os CEO para dar um ar mais institucional, outras apostam nos vídeos e numa mensagem direta, outras ainda metem os seus melhores engenheiros a explicar tudo e este ano até apareceu uma marca a enumerar as razões pelas quais o seu carro devia ganhar e os outros não. Excusado será dizer que as marcas visadas não ficaram nada contentes com este detalhe de humor…

Estranhamente, uma das marcas decidiu não comparacer nesta sessão de esclarecimento, aberta a perguntas, algumas delas bem difíceis de responder pelos representantes presentes.

Algumas surpresas

Cada marca leva para Mortefontaine várias motorizações do seu modelo finalista, mas, para apimentar a sessão, algumas decidiram trazer também algumas surpresas, na forma de futuras versões dos modelos finalistas, que ainda não estão à venda.

A Kia trouxe a versão plug-in do Ceed SW e a variante SUV, ambas fortemente camufladas. Pude guiar os dois durante um par de voltas ao circuito, concluindo que o SUV talvez precise de uma suspensão mais macia enquanto que o plug-in estava com a bateria em baixo, limitando as impressões a tirar. Dentro de uma tenda, de acesso exclusivo, a Kia tinha o SUV do Ceed, mas sem autorização para fotografar. Só posso dizer que gostei do que vi…

A Ford também trouxe duas novidades, a versão desportiva ST, com 280 cv e o Active, com suspensão 3 cm mais alta e proteções de guarda-lamas em plástico. Mas a marca americana pediu para não falar já de impressões de condução do ST, e todos concordámos. Quanto ao Active, o que posso dizer é que a suspensão mais alta não altera muito o excelente tato de condução de todos os Focus. E isso é uma boa notícia.

COTY 2019 Ford Focus
Os novos membros da família Focus: o ST e o Active

A Citroën também levou um protótipo da versão Plug-in Hybrid do C5 Aircross, mas apenas para fotos estáticas.

Citroen C5 Aircross PHEV
O protótipo do C5 Aircross PHEV surgiu originalmente no Salão de Paris
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O que eles dizem

Nesta altura, nenhum jurado tem muita vontade de apontar favoritos, mais ainda este ano, em que a luta parece ser tão renhida. Mas todos têm gosto em olhar para o passado e para o futuro e responder às minhas perguntas sobre o que vale o COTY e como será o futuro. Por isso aproveitei a ocasião e falei com alguns dos jornalistas presentes, para tentar tirar um “raio-X” à organização Car Of The Year. Aqui ficam as perguntas e as respostas.

Que razões levam a que o COTY tenha tanta relevância?

Juan Carlos Payo
Juan-Carlos Payo, Autopista (Espanha)

“A qualidade dos jurados, a transparência de um prémio que não pode ser manipulado. É o nosso ADN e o que outros prémios não têm. E também o mercado europeu, que o elege, composto de muita diversidade mas também homogéneo. Além disso, elegemos carros que se podem ver nas estradas, não escolhemos “concept-cars” mas sim carros que as pessoas podem comprar.”

O que faz a força do COTY e o que deve melhorar?

Frank Janssen
Frank Janssen, Stern (Alemanha)

“Definimos os carros que os consumidores devem comprar. Damos-lhes as melhores informações e neste teste dos finalistas temos sete dos melhores. O grupo de 60 jurados que elege o COTY é composto pelos especialistas mais reputados da Europa e temos que, no futuro, tirar mais partido disso. Temos que dar as respostas aos compradores de automóveis, temos que estar mais perto deles.”

Quais são os principais pontos fortes do COTY?

Soren Rasmussen
Soren Rasmussen, FDM/Motor (Dinamarca)

“São basicamente duas coisas. A primeira é que, como jornalistas especilizados, obrigamos a indústria a fazer carros cada vez melhores – eles sabem que têm de ser os melhores, se querem ganhar. Em segundo lugar, produzimos material muito bom para o consumidor suportar a sua escolha, na altura de comprar um carro. Tem aqui uma análise objetiva e profissional para decidir da melhor maneira.”

O que evoluiu no COTY ao longo dos anos?

Efstratios Chatzipanagiotou
Efstratios Chatzipanagiotou, 4-Wheels (Grécia)

“A entrada de membros mais novos e a abertura para o exterior, através das redes sociais, é uma revolução. É a primeira vez em cinquenta anos que o COTY está realmente a mudar. Com membros mais novos, chegam novas ideias, a análise deixou de ser apenas relativa à condução e passa a ser mais completa, com mais detalhe e englobando novas áreas da experiência de condução, como a conetividade.”

Por que razão os consumidores podem confiar no COTY?

Phil McNamara
Phil McNamara, Car Magazine (Reino Unido)

“Pela experiência dos jurados, pela sua especialização, pela escolha verdadeiramente democrática de 60 especialistas. A disciplina e o rigor aplicados por cada um para chegar a um veredicto objetivo e rigoroso. Temos aqui algo muito bom, mas ainda pequeno. Temos que fazer chegar a nossa opinião a mais pessoas, a nossa voz tem que ser mais ouvida por mais pessoas.”

O que podem os seus leitores lucrar com o COTY?

Stèphane Meunier
Stèphane Meunier, L’Automobile (França)

“A L’Automobile faz parte do comité de organização e isso é uma herança que vem já dos anos noventa, quando sucedemos ao L’Equipe. Nessa altura tentámos reforçar o peso do COTY, junto dos nossos leitores, com a vantagem que já não partíamos do zero. E temos planos para fazer ainda mais, tanto na edição em papel como no nosso site. Regularmente, publicamos artigos sobre o Coty e os nossos leitores apreciam, sobretudo quando o carro vencedor é do agrado da maioria. É sempre um “boost” nas vendas para um carro que ganha, dá aos consumidores um extra de confiança.”

Independentemente do resultado, uma coisa é certa, o COTY continua a ser um acontecimento muito importante para a indústria, devidamente celebrado pelo vencedor na publicidade que faz após a vitória e no pequeno autocolante que costuma colar no vidro traseiro de cada unidade produzida a partir desse momento.

Quantos de nós não tivemos já um dos eleitos, com o tal autocolante? Faça uma experiência: olhe para o vidro traseiro dos carros estacionados nas ruas e tente encontrar vencedores dos anos passados.

Francisco Mota à frente dos 7 finalistas
Francisco Mota em pose à frente dos 7 finalistas do COTY 2019

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