Dakar

O Dakar «abandonou» África em 2008. Lembras-te porquê?

Foi em 2008 que o Dakar não só abandonou o continente Africano como viu, pela primeira e única vez, uma edição ser cancelada.

Lisboa, 4 de janeiro de 2008. Foi neste dia que a face do Dakar mudou, quiçá para sempre — só o tempo o dirá… A menos de 24 horas do arranque da prova, a A.S.O. (Amaury Sport Organisation), a entidade organizadora do Dakar, emitiu um comunicado — sob forte pressão do governo francês — anunciando aquilo que toda a gente temia há vários anos: a 30ª edição do Dakar foi cancelada devido à atividade terrorista em África (comunicado na íntegra no final do artigo).

Os motivos deveram-se essencialmente à instabilidade política que se vivia em alguns países de África, entre eles a Mauritânia, onde decorria mais de 60% do percurso do Dakar.

O atentado terrorista que vitimou três militares e quatro turistas franceses, dias antes do início da prova, perpetrado pela Al-Qaeda, foi a «gota de água» de um desfecho que já se previa há vários anos.

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Nem mesmo em 1986, quando durante na 8ª edição do Dakar o helicóptero em que viajava Thierry Sabine caiu, vitimando o criador da prova, esta foi cancelada.

Em Lisboa, o comunicado da ASO caiu que nem uma «bomba», junto das equipas e dos patrocinadores. O cancelamento desta edição foi também uma machadada contundente nas aspirações de um dos melhores pilotos de todo-o-terreno portugueses.

Carlos Sousa — que alinhou na edição 2018 do Dakar ao volante de um Dacia Duster — alinhava na equipa oficial da Volkswagen, ao volante de um Touareg com as cores da TMN e da Galp Energia. Um carro competitivo numa equipa competitiva, com reais hipóteses de alcançar a vitória absoluta. Foi, de resto, a última vez que um piloto português alinhou no Dakar com aspirações à vitória final.

Se para as equipas oficiais, suportadas pelo músculo financeiro dos patrocinadores, a notícia não era fácil de digerir, junto das equipas privadas e dos aventureiros solitários menos ainda.

Para muitos era o sonho de uma vida, em muitos casos a única oportunidade. O fruto de anos de poupança — e muitas privações — a juntar os recursos suficientes para alinhar na grande aventura que é o Dakar. Pôr à prova o limite da capacidade humana e desafiar a natureza.

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Etienne Lavigne, representante da ASO

Foi com esta frase que a representante da ASO terminou o comunicado no dia 4 de janeiro de 2008, há 10 anos. Era o fim do Dakar como o conhecemos durante três décadas, mas não foi o fim da prova.

A organização encontrou na América do Sul as condições ideias para a realização da prova: paisagens de cortar a respiração, terrenos desafiantes para homens e máquinas, e dunas, muitas dunas. Há quem diga que não é a mesma coisa. Há quem defenda que o espirito do Dakar continua bem vivo, apesar de já não acabar no local que lhe emprestou o nome.

Será que um dia vai voltar?

Volvidos 10 anos (NDR: à data da publicação original deste artigo), pouco ou nada mudou para os lados de África. A instabilidade mantém-se e a segurança continua a ser precária. Por outro lado, pilotos, equipas e patrocinadores, parecem rendidos à presença massiva de espectadores ao longo das etapas deste «novo» Dakar.

Mais pessoas significa mais retorno e como nós sabemos, um «circo» com a dimensão do Dakar não se alimenta de areia — ainda que esta esteja entranhada na sua génese.

O comunicado oficial da A.S.O.

“Após inúmeros contactos com o governo francês – em particular o Ministério dos Negócios Estrangeiros – e tendo em conta as suas fortes recomendações, os organizadores do Dakar tomaram a decisão de anular a edição 2008 da prova, que deveria decorrer entre 5 e 20 do corrente mês, ligando Lisboa à capital do Senegal.

Tendo em conta as actuais situações de tensão política, a nível internacional, o assassinato de quatro turistas franceses, no passado dia 28 de Dezembro, atribuído a um ramo do Al-Qaeda, no Magreb islâmico, e acima de tudo as ameaças, directas, lançadas contra a prova por movimentos terroristas, a A.S.O. não pode tomar outra decisão que não seja a anulação da prova.

A primeira responsabilidade da A.S.O. é a de garantir a segurança de todos: populações dos países atravessados, concorrentes amadores e profissionais, sejam eles franceses ou estrangeiros, elementos da assistência técnica, jornalistas, patrocinadores e colaboradores do rali. A A.S.O. reafirma que as questões de segurança não estão, não estiveram, nem nunca estarão em causa no rali Dakar.

A A.S.O. condena a ameaça terrorista que anula um ano de trabalho, de inscrições e de paixão para todos os participantes e diferentes actores do maior rali-raid do mundo. Consciente da imensa frustração, vivida, em particular, em Portugal, Marrocos, Mauritânia e Senegal, bem como entre todos os nossos fiéis parceiros, para lá da decepção geral e das pesadas consequência económicas, em termos de retorno directo e indirecto, para os países atravessados, a A.S.O. continuará a defender os valores que caracterizam os grandes acontecimentos desportivos e prosseguirá com a mesma determinação o desenvolvimento das suas acções humanitárias, através das Actions Dakar, implantadas depois de cinco anos em África sub-saariana com SOS Sahel Internacional.

O Dakar é um símbolo e nada pode destruir os símbolos. A anulação da edição 2008 não coloca em causa o futuro do Dakar. Propor, em 2009, uma nova aventura a todos os amantes dos rali-raid é um desafio que a A.S.O. irá assumir nos próximos meses, fiel à sua presença e paixão pelo desporto.”

Sabes responder a esta?
Quantos países já atravessou o Dakar ao longo das suas 40 edições?
Não acertaste.

Mas podes descobrir a resposta aqui:

7 factos sobre o Dakar que tu (eventualmente…) desconheces

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