Sabiam que o Mercedes-Benz W 210 ainda é produzido? Ok… mais ou menos

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Sabiam que o Mercedes-Benz W 210 ainda é produzido? Ok… mais ou menos

Do outro lado do Atlântico, os componentes que deram corpo ao Mercedes-Benz Classe E W 210 sobrevivem sob as vestes do Chrysler 300C. Uma autêntica história de resistência.

É isso mesmo. Os componentes que há 28 anos deram forma ao Mercedes-Benz Classe E (geração W 210) continuam vivos e boa saúde do «outro lado» do Atlântico.

Continuam o seu caminho no quase «imortal» Chrysler 300C, um modelo lançado em 2004 e que ainda é produzido volvidas quase duas(!) décadas — foi profundamente revisto em 2011.

Pelo caminho, fez algo ainda mais notável nos dias que correm: passou pelos pingos da chuva da revolução em curso na indústria automóvel.

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chrysler 300c 2023, frente
Aparentemente, 2023 vai ser o último «tango» do Chrysler 300C. Mas nós não apostamos contra ele…

Há muito que a marca americana perdeu a ligação à Mercedes-Benz, mas o ADN germânico continua a correr nas «entranhas» deste modelo.

Para os mais atentos, este não é um modelo totalmente desconhecido. Provavelmente têm memória deste modelo já ter sido, inclusivamente, comercializado na Europa. Entretanto mudou de nome, foi comercializado como Lanciasim, isso mesmo — e agora, para 2023, vai receber a sua versão mais potente de sempre.

Recapitulando: é um modelo americano, com genes alemães e que algures durante a sua vida transformou-se num modelo italiano na Europa. Obrigado globalização!

Confuso, não é?

Para explicar este cocktail de peças e componentes, vale a pena recuar até ao final do século passado.

Estávamos em 1998 quando a Daimler — agora Mercedes-Benz Group — teve a infeliz ideia de adquirir a Chrysler Corporation, proprietária na altura das marcas Chrysler, Jeep e Dodge.

Digo Infeliz porque, apesar das boas intenções de ambas as partes, as diferenças culturais entre as duas companhias falaram mais alto. Os alemães e os americanos não se deram bem.

chrysler 300C frente
Um dos filhos deste casamento — que como sabemos durou pouco tempo — foi precisamente o Chrysler 300C.

A marca norte-americana, já no início deste século, iniciava o desenvolvimento da sua nova geração dos seus maiores modelos e precisava desesperadamente de novos componentes, e a Mercedes-Benz foi a sua «tábua de salvação».

Em 2004 nascia então um «monstro de Frankenstein» — recordando a personagem do romance de Mary Shelley — apelidado de Chrysler 300C e que recorria a componentes do antigo Mercedes-Benz Classe E (W 210) e de outros modelos da marca da estrela misturados numa nova plataforma desenvolvida pela Chrysler designada LX.

ilustração técnica mercedes-benz w 210
Os alemães foram ao baú e tiraram de lá componentes do já descontinuado Classe E da geração W 210. Para o menos exigente mercado norte-americano era suficiente.

A suspensão traseira multibraços do W 210, caixa automática de cinco velocidades e diferencial traseiro, coluna de direção, eletrónica (ESP, controlo de tração) e outros componentes menos visíveis do Classe E e outros Mercedes foram totalmente aproveitados pela marca norte-americana para o 300C.

Apesar de não ser propriamente um compêndio tecnológico, o primeiro 300C conseguiu ter uma carreira comercial de sucesso nos EUA e, durante um breve período, relativamente interessante também na Europa — muito graças ao V6 Diesel da, já adivinharam, Mercedes. Em grande parte devido ao seu design, que mereceu rasgados elogios à época.

Chrysler 300c SRT8 Touring
Além da berlina, houve uma carrinha 300C.

No entanto, os resultados desta aliança Daimler-Chrysler globalmente nunca foram positivos. Muitos milhões de dólares depois (só em 2006 o prejuízo ascendeu aos 1500 milhões de euros) os alemães fartaram-se dos americanos e de perder dinheiro — não sabemos do que é que se fartaram primeiro… — e em 2008 anunciaram a venda da Chrysler.

Adeus Daimler, olá FIAT

Quem sempre esteve atento a todas estas movimentações foi Sérgio Marchionne (1952-2018). O homem que salvou a FIAT de uma bancarrota quase inevitável, olhou para a Chrysler e conseguiu encontrar potencial onde já mais ninguém conseguia ver.

Com esta troca de posições, também o Chrysler 300C conheceu algumas transformações. Deixou de usar componentes da Mercedes-Benz? Não. Uma segunda geração foi lançada em 2011, ainda assente sobre a LX (que também evoluiu), e neste lado do Atlântico passou a chamar-se… Lancia Thema.

Lancia Thema, frente
Como bem sabemos, não era propriamente disto que a Lancia precisava.

Entretanto, como seria de esperar, a Lancia não conseguiu vingar — quem diria… — nos moldes preconizados pela administração da agora Fiat Chrysler Automobiles (FCA). Ordem da administração: colocar um ponto final na marca Lancia e consequentemente no Thema.

A Lancia recuou a sua presença no mercado e número de modelos para apenas um de cada — Itália e Ypsilon, respetivamente —, mas o Chrysler 300 C manteve-se no ativo, contra todas as expectativas, apoiado no mercado norte-americano onde o standard de exigência tradicionalmente é menor do que o europeu.

Chegados a 2021, os franceses do Grupo PSA (Peugeot Citroën), liderado pelo gestor português Carlos Tavares, acorda uma fusão com a FCA, formando assim a «gigante» Stellantis.

Portanto, recapitulando, desde que foi lançado em 2004 o Chrysler 300C já sobreviveu a três administrações: Daimler (Mercedes-Benz), FCA (Fiat) e Stellantis.

2023. O fim de linha para Chrysler 300C?

Se a barata fosse um automóvel, talvez fosse um Chrysler 300C — aparentemente é único ser vivo capaz de sobreviver a um holocausto nuclear. Uma capacidade de sobrevivência muito semelhante à deste modelo norte-americano.

Ou talvez fosse uma borboleta. Um inseto que nasce larva e que após uma breve metamorfose se transforma por completo na sua melhor versão: uma borboleta. Talvez esta seja a analogia mais correta, porque em 2023 — muito provavelmente o último ano do 300C — vamos conhecer a sua melhor versão.

Para se despedir deste modelo, a marca norte-americana — seguramente com a aprovação de Carlos Tavares — vai lançar o 300C mais potente e radical de sempre.

O último 300C como o conhecemos desde 2004, numa edição limitada a 2200 unidades e com um motor muito especial.

Estamos a falar de uma versão final que vai estar equipada com um motor HEMI V8 naturalmente aspirado com 6,4 l de capacidade e 492 cv (485 hp) de potência. Aceleração dos 0-100 km/h? Somente quatro segundos.

Em termos dinâmicos, o eixo traseiro recebeu um diferencial autoblocante e os travões receberam um importante upgrade fornecido pela Brembo. Apenas vão ser produzidas 2200 unidades.

É por isso que nós sabemos que Carlos Tavares foi consultado. Se dependesse dos americanos, produziam mais 60 mil unidades.

Motor V8 Hemi
É isto que nós encontramos quando abrimos o capot do 300C. Um enorme motor V8, à «americana».

Neste momento que é de despedida, a Chrysler faz assim uma homenagem à primeira geração do 300C, lançado em 1955. Estava equipado com um motor V8 de 5,4 l e debitava 300 cv — era um dos modelos mais rápidos daquela época.

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Seja como for, não deixa de ser notável a história deste modelo que apesar de todas as contrariedades e contra todas as expectativas, não só sobreviveu como apresenta-se no seu «derradeiro ato» na sua melhor forma. Pouco importa que debaixo da sua pele, ainda vivam fragmentos do que outrora foi um Mercedes-Benz Classe E W 210.

Mercedes-Benz Classe E W210 traseira Chrysler 300C 2023, traseira 3/4

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