Desde 17 472 euros

Testámos o Citroën C3 com o motor mais acessível. Serão 83 cv suficientes?

O Citroën C3 foi reestilizado e atualizado nos conteúdos. Neste teste, colocámos à prova a motorização de acesso, o 1.2 PureTech de 83 cv e caixa manual.

O Guilherme disse praticamente tudo sobre o que traz de novo o renovado Citroën C3 no vídeo que fez em Madrid, Espanha, durante a apresentação internacional do modelo.

Só acabo por divergir do que ele diz quando o tópico se concentra nas alterações estilísticas efetuadas no C3 por parte da Citroën. As diferenças para o C3 que conhecíamos concentram-se na redesenhada frente, e apesar de inspirada no interessante CXperience, lamento, mas não me convence.

O utilitário ficou com um ar mais carregado e zangado, do tipo “todos me devem e ninguém me paga”, ao invés do aspeto mais jovial e simpático que conhecíamos, o que acaba por destoar do restante desenho e até do caráter sereno do C3.

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O 1.2 PureTech de 83 cv recomenda-se?

Talvez o pedaço de informação mais relevante dito refere-se à motorização do C3 aqui em teste, o 1.2 PureTech de 83 cv (atmosférico, sem turbo). Diz o Guilherme que a versão que ele testou durante a apresentação, o 1.2 PureTech de 110 cv (com turbo), acaba por valer mais a pena, mesmo sendo 1200 euros mais cara que esta de 83 cv. Não podia concordar mais.

Porquê? Não é só pela performance adicional — praticamente 4s a menos nos 0-100 km/h e disponibilidade bem mais generosa —, mas também porque o ganho em performance não se traduz em piores consumos/emissões, tanto no papel, como na prática. No papel estão apenas separados por 0,1 l/100 km e 1 g/km. Na prática, apesar de ser possível consumos baixos — cheguei a registar menos de cinco litros a velocidades moderadas estabilizadas —, também os conseguimos, facilmente, na versão de 110 cv.

Citroën C3 1.2 Puretech 83 Shine
A frente foi redesenhada, com o C3 a ganhar uma expressão mais agressiva e carregada — perdeu a jovialidade e leveza que detinha. © Thom V. Esveld / Razão Automóvel

Além do mais, a versão de 110 cv é aquela que se adequa melhor aos restantes atributos (que tanto acabei por apreciar) do renovado Citroën C3 — mas já lá iremos…

Os 83 cv e 118 Nm desta motorização, por outro lado, sabem a pouco. Para vencer alguns declives ou até manter a velocidade máxima legal em autoestrada (algumas não são assim tão planas), somos obrigados a pisar o acelerador com mais força ou “meter uma abaixo” e puxar de forma mais assertiva pelo três cilindros. Uma tarefa que, tenho de admitir, até deu um certo gozo, pois não há nada de errado com o motor em si — não deixa de ser interessante de explorar e até ouvir.

Motor 1.2 PureTech 83 cv
Motor interessante de usar e até de ouvir quando o exploramos de forma mais assertiva — nunca é incomodativo graças à boa insonorização. Mas os seus modestos números pouco podem fazer contra o escalonamento longo da transmissão e os 1055 kg do C3. © Thom V. Esveld / Razão Automóvel

É a combinação dos 1055 kg — um dos mais leves do segmento, mas parecem já ser demais para os modestos números do 1.2 — e, sobretudo, do escalonamento algo longo das relações da transmissão, que acabam por diluir (ainda mais) a aceleração e as retomas de velocidade possíveis destes 83 cv.

Para mais, a caixa manual de cinco velocidades deixa algo a desejar na sua ação, culpa, sobretudo, do seu longo, longo curso. Algo que “descobri” após duas terceiras “arranhadas”… quando parecia que a dita já tinha entrado, não, ainda faltava empurrar o manípulo mais um pouco para a frente.

Citroën C3 1.2 Puretech 83 Shine
É um utilitário, mas também aqui são evidentes as influências do mundo SUV/crossover que tanto determinam o aspeto final. © Thom V. Esveld / Razão Automóvel
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Utilitário que mais parece um estradista

Quando equipado com este motor, o uso do Citroën C3 fica como que confinado, essencialmente, à malha urbana. Mesmo assim, se podemos “contornar” o escalonamento longo da transmissão com mais acelerador ou circular numa relação abaixo do que seria o habitual, não podemos fugir à ação da caixa manual que acaba por ser a minha maior crítica ao modelo.

E é uma pena ficarmos limitados ao pára-arranca citadino, porque o Citroën C3 revelou ter, de forma algo inesperada, muito boas qualidades estradistas — mais uma razão para optar pelo 1.2 PureTech de 110 cv que lhe dá o pulmão necessário para assumir confortavelmente esse papel. Sim, continua a ser um utilitário, mas o C3 apresenta uma série de características intrínsecas que o tornam num muito competente estradista.

Citroën C3 1.2 Puretech 83 Shine © Thom V. Esveld / Razão Automóvel

Em primeiro lugar, a Citroën tem apostado forte no conforto e no C3 isso é também evidente. Vamos corretamente sentados em amplos e substanciais bancos (e revestidos com um agradável tecido e alguma pele) que são muito confortáveis — só é pena não oferecerem mais suporte —, capazes de tornar as tiradas mais longas ao volante uma experiência relaxante, sem queixumes nenhuns do corpo.

Também o amortecimento pende para o lado do conforto, ou seja, mais mole que duro. A suspensão absorve eficazmente a maioria das irregularidades, mas mantém um eficaz controlo dos movimentos da carroçaria — adorna um pouco quando abusamos mais nas curvas, mas nada por aí além. Por falar em curvas, revelou-se mais eficaz e seguro, do que ágil e divertido. E a direção, apesar de precisa, pouco ou nada nos informa sobre o que se passa no eixo dianteiro (que até responde prontamente aos nossos comandos).

Em segundo, apesar de estarmos rodeados praticamente de plásticos duros (e não os mais agradáveis ao toque), a montagem é, no geral, bastante robusta — mesmo quando confrontada com as piores calçadas da capital… —, à prova de vibrações e ruídos indesejados.

Por fim, em terceiro lugar, o conjunto é rematado por uma muito boa insonorização. O ruído do motor parece estar sempre longe, os ruídos aerodinâmicos são contidos e só peca pelo ruído de rolamento algo excessivo, mas aí a culpa estará, quase de certeza, nas opcionais e maiores rodas (17″) da nossa unidade — ficam bem na fotografia, não o disputo. Já agora, pneus 205 para apenas 83 cv e 118 Nm? Um pouco exagerado.

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É o carro certo para mim?

Bem, após o que foi dito, como é de prever, é fácil recomendar o Citroën C3, mas difícil de o fazer com esta motorização. Para os interessados no utilitário francês, a versão a recomendar teria de ser a 1.2 PureTech de 110 cv. Dá ao C3 a flexibilidade e versatilidade de uso necessária, em muito melhor harmonia com todos os seus outros restantes atributos.

De resto, é o Citroën C3 que já conhecíamos. Tem espaço atrás razoável para dois ocupantes — o espaço para pernas é inferior ao dos principais rivais —, mas, facto curioso, é mais fácil aceder aos lugares traseiros do que nos novos Peugeot 208 ou Opel Corsa (membros da mesma família PSA), graças a uma maior abertura e amplitude das portas. Curioso porque é o Citroën C3 que ainda recorre à mais antiga plataforma PF1 ao invés da mais recente CMP dos seus “primos” — não deveria ser a mais recente melhor neste aspeto?

Além do tópico da motorização, tenho de concordar novamente com o Guilherme na recomendação sobre o nível de equipamento Shine, o mais equilibrado entre os vários existentes, e aquele presente no C3 que testei. Já traz uma generosa lista de equipamentos de segurança, assim como ganha itens de conforto de utilização e estéticos que valem a pena.

A unidade testada trazia ainda opcionais (aprox. 2500 euros) que fez subir o preço do Citroën C3 1.2 PureTech 83 Shine até aos 20 mil euros, um valor algo elevado, mas não destoa dos seus concorrentes — os preços dos carros estão, no geral, elevados e só têm tendência a subir. Porém, há campanhas a decorrer que permitem baixar o preços para valores mais competitivos.

Preço

unidade ensaiada

19.942

Versão base: €17.472

IUC: €103

Classificação Euro NCAP:

  • Motor
    • Arquitectura: 3 cilindros em linha
    • Capacidade: 1199 cm3
    • Posição: Dianteira Transversal
    • Carregamento: Inj. Indireta
    • Distribuição: 2 a.c.c.; 4 válv./cil. (12v)
    • Potência: 83 cv às 5750 rpm
    • Binário: 118 Nm às 2750 rpm
  • Transmissão
    • Tracção: Dianteira
    • Caixa de velocidades: Manual de 5 velocidades
  • Capacidade e dimensões
    • Comprimento / Largura / Altura: 3996 mm / 1749 mm / 1474 mm
    • Distância entre os eixos: 2540 mm
    • Bagageira: 300-922 l
    • Jantes / Pneus: 205/50 R17
    • Peso: 1055 kg
  • Consumo e Performances
    • Consumo médio: 5,6 l/100 km
    • Emissões de CO2: 127 g/km
    • Vel. máxima: 169 km/h
    • Aceleração: 13,3s
  • Equipamento
    • iluminação diurna e luzes principais em LED
    • Pack Visibility (limpa para-brisas automática, faróis automáticos e espelho retrovisor interior eletrocromático)
    • Faróis de nevoeiro
    • Regulador e limitador de velocidade
    • Vidros elétricos sequenciais e impulsionais
    • Capas dos retrovisores exteriores na cor do tejadilho
    • Climatização Automática
    • Retrovisores exteriores rebatíveis, com regulação e desembaciamento elétricos
    • Volante revestido a cabedal com inserções cromadas
Extras
Tejadilho Branco Opale: 100 €; Pack Color Branco: 150 €; Ambiente Techwood: 400 €; Acesso e Arranque Mãos Livres: 450 €; Pack Safety 2: 600 €; Pack Shine: 650 €; Roda sobressalente: 20 €; Jantes de 17": 100 €.
Avaliação
6 / 10
Respondendo à pergunta que serve de mote a este teste, acabamos por concluir que os 83 cv deste C3 acabam por ser justos para a versatilidade e flexibilidade de uso que todo o restante carro promete — o 1.2 PureTech de 110 cv é, definitivamente, a opção mais indicada para o renovado utilitário francês. Porque retirando o motor da equação, há muito por onde gostar neste Citroën C3. Desde a agradabilidade e conforto a bordo — os bancos destacam-se —, à boa dotação de equipamento nesta versão Shine. Não é o carro mais entusiasmante nas curvas — e nem todos têm de o ser —, mas compensa largamente na azáfama do dia a dia pelo seu caráter suave, robustez e a insonorização acima da média. O preço é algo elevado após todos os opcionais, mas alguns são dispensáveis (jantes de 17", por exemplo) e a marca tem campanhas a decorrer que tornam o seu valor mais competitivo.
  • Conforto (dos bancos ao amortecimento)
  • Montagem robusta
  • Refinamento geral acima da média (e melhor seria com as jantes de 16")
  • Prestações
  • Consumos moderados, mas são equivalentes ao 1.2 Puretech de 110 cv
  • Ação da caixa manual (curso muito longo)

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