Recordista

O dia em que testei o carro de produção mais rápido no Nürburgring

O carro de produção mais rápido no Nürburgring passou-me pelas mãos há pouco mais de um mês. Fui à Alemanha, a convite da Mercedes-AMG, testar no Lausitzring o novo Mercedes-AMG GT Black Series.

Na noite anterior a este teste não dormi muito, confesso que estava ansioso com aquilo que teria pela frente. E estava longe de saber que em vez das habituais 3/4 voltas em circuito, ia ter oportunidade de dar mais de 10 voltas a fundo. Mas a suspeita que aquele tinha potencial para ser o mais rápido no Nürburgring, já existia há alguns meses.

Se fizer um “throwback” mental a todos os momentos que vivi nos últimos 8 anos de Razão Automóvel, este foi sem dúvida um dos mais marcantes.

Não só por tudo o que é óbvio (pelo carro, experiência em pista, etc…) mas porque foi uma viagem em plena pandemia de Covid-19, com imensas restrições. Uma das poucas viagens que fiz em trabalho este ano, um contraste enorme com a azáfama de um “ano normal”.

VÊ TAMBÉM: 720S, 911 GT2 RS, 488 Pista. O Mercedes-AMG GT Black Series bateu-os a todos em Hockenheim

Estava a fazer a mala para regressar (e ainda a tentar absorver mentalmente tudo o que tinha acontecido em pista), quando a região de Lisboa e Vale do Tejo entrou para a lista negra da Alemanha como uma zona de risco. Poucas horas depois, todos os testes que tínhamos agendado para fazer na Alemanha até ao final do ano, foram cancelados.

Demónio laranja

Alvo de extensas modificações ao nível do motor e aerodinâmica face ao Mercedes-AMG GTR (que curiosamente tinha testado também há cerca de um ano), deixava antever uma verdadeira máquina devoradora de circuitos com autorização para circular na via pública.

Bernd Schneider a preparar a besta para uma sessão…de exorcismo. ©Diogo Teixeira/Razão Automóvel

No briefing que recebi de Bernd Schneider, já sentado ao volante (é possível ver um excerto desse momento no nosso vídeo), o quatro vezes campeão de DTM disse-me que podia fazer o que bem entendesse relativamente ao controlo de tração e controlo de estabilidade, desde que não excedesse os meus limites e não ultrapassasse o carro idêntico que ele ia a pilotar à minha frente (sim Bernd, vou passar-te pela direita…nos meus sonhos!).

A última vez que tinha estado no Lausitzring também tive de (tentar…) perseguir nos mesmos moldes outro piloto: o “nosso” Tiago Monteiro, que seguia tal como eu ao volante da última geração do Honda Civic Type R.

Resumindo: um teste sem restrições, ao volante de um supercarro com 730 cv totalmente entregues às rodas traseiras e a ser ensinado por uma das lendas do automobilismo.

Do lado esquerdo e como se pode constatar pela matrícula, a unidade que bateu o recorde no Nürburgring. ©Diogo Teixeira/Razão Automóvel

Não me vou alongar em considerações sobre o Mercedes-AMG GT Black Series. Já disse tudo o que tinha a dizer em quase 20 minutos de filme, editados com mestria pelo Filipe Abreu.

Os “Black Series” nunca foram conhecidos pelos seus recordes em pista (e muito menos pela facilidade de serem domados), mas mais pela brutalidade da entrega da potência às rodas traseiras, e um preço a pagar a condizer com essa brutalidade.

mercedes-amg black series line up 2020
Foto de família. O Mercedes-AMG GT é o sexto elemento da linhagem Black Series. Os mais velhos ficaram à porta, enquanto o novo miúdo esticava os seus limites em pista.

Mas neste Mercedes-AMG GT Black Series a marca de Estugarda viu que tinha potencial para projetar a série Black Series para um patamar diferente.

Um recorde em condições adversas. É possível fazer ainda melhor?

Ontem à noite chegou a confirmação do que já esperávamos: este é o modelo de produção mais rápido no Nürburgring-Nordschleife já de acordo com as novas regras para a fixação de um recorde.

Bateu o recorde do Lamborghini Aventador SVJ, em condições climatéricas adversas: 7 °C de temperatura exterior e com partes da pista molhadas como é possível ver no vídeo publicado pela Mercedes-AMG.

Mercedes-AMG GT Black Series
A voar no Nürburgring. Vou sonhar com isto hoje. ©Mercedes-AMG

Depois de um pequeno, mas completo, workshop no circuito sobre o motor e aerodinâmica, questionei um dos engenheiros da Mercedes-AMG sobre a potencialidade de estarmos perante o carro de produção mais rápido no Nürburgring. A resposta foi, com um grande sorriso na cara: “Não posso comentar.”

Ao volante deste demónio recordista seguia Maro Engel, o piloto da Mercedes-AMG que do alto dos seus 35 anos mostrou como de forma brilhante e em condições tão complexas, é possível desafiar todos os limites. Um recorde totalmente verificado, com especificações de série, incluindo pneus, com o carro tal como ele é entregue ao cliente quando sai de fábrica.

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Baixar os braços? Nós, seres humanos, não fazemos isso.

Está quebrada mais uma barreira nesta grande jornada que é a evolução do automóvel. Não é de agora. Esta procura pela superação dos nossos limites, o facto de não nos resignarmos, é algo que está inscrito na nossa existência.

A aprender com o mestre. Somos condutores comuns quando tentamos perseguir um quatro vezes campeão de DTM. ©Joaquim Oliveira/Razão Automóvel

A Mercedes-AMG mostrou que mesmo num mundo a atravessar um dos maiores desafios da nossa história, não deixou de se superar e carimbou um dos seus modelos como o mais rápido no Nürburgring.

É por este espírito de resiliência, transversal a toda a indústria automóvel e claro, a todos nós seres humanos, que resistimos. Mesmo quando avançar parece cada vez mais difícil.

Que venham os próximos! Não deve demorar muito tempo a surgir um novo recorde. Lá estaremos na linha da frente, se for permitido, claro.

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