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Bugatti. Grelha em forma de ferradura afinal é um… ovo

A história por vezes prega partidas. Desta vez descobrimos que a típica grelha em forma de ferradura da Bugatti foi originalmente um ovo.

Sim, leram bem. Parece que andámos enganados este tempo todo. A típica grelha em forma de ferradura da Bugatti, que rapidamente associamos à marca de Molsheim, resultou de um… “acidente de percurso”, como tantos outros que enriquecem outras tantas histórias.

O erro é natural. A forma em ferradura tem, historicamente, uma ligação direta à história do próprio Ettore Bugatti, o fundador da marca. É conhecida a sua forte ligação aos cavalos, tendo sido não só proprietário de belos espécimes equestres, como chegou mesmo a criá-los — a sua paixão estendeu-se às próprias carruagens, tendo-as igualmente coleccionado.

A associação entre o formato da grelha dos automóveis Bugatti e a vida do próprio Ettore Bugatti não podia ser, assim, mais clara, mas a grelha em forma de ferradura não foi a escolhida originalmente por Ettore para definir a dianteira dos seus modelos.

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Bugatti Chiron

Antes da galinha ferradura existiu o ovo — as dianteiras dos Bugatti foram marcadas, inicialmente, por uma grelha de radiador de formato ovular, ou em forma de ovo. A grelha em forma de ferradura só surgiria 15 anos após a fundação da marca, em 1924.

Perfeccionista como Ettore Bugatti era, a escolha pela forma do óvulo não surge por acaso, e tal como a grelha em forma de ferradura podemos encontrar uma ligação direta à sua própria vida.

Influência paterna

Ettore Bugatti cresceu numa família com forte veia artística. O seu pai, Carlo Bugatti, desenhava e construía peças de mobiliário de estilo oriental; o seu irmão Rembrandt Bugatti criava esculturas de animais, uma das quais, o elefante dançarino, acabaria por servir de ornamento ao capot do imenso e luxuoso Bugatti Type 41 Royale.

A predileção do seu pai por formas fluídas e arredondadas, como elipses, círculos e, claro, ovais e óvulos, marcavam as peças de mobiliário que concebia, sendo possível encontrá-las nas suas cadeiras, mesas e outras peças e motivos de design de interiores.

Carlo Bugatti, no entanto, elevava a forma do óvulo acima de todas as outras, considerando-a a forma geométrica perfeita. Ettore Bugatti seria influenciado pelos princípios artísticos do pai e o óvulo acabaria por encontrar lugar nos seus automóveis. E não poderia ter maior papel de destaque ao ter sido a forma escolhida por Ettore para definir e identificar a frente das suas criações.

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Bugatti Type 13, o primeiro

A introdução da grelha em forma de ovo aconteceria logo em 1910, com o lançamento do Type 13, o primeiro automóvel produzido pela Bugatti — uma evolução do Type 10, que nunca chegou a ser produzido —, apesar de, nos primeiros dois anos, os clientes poderem escolher opcionalmente uma grelha angular.

Bugatti Type 13 Brescia
É clara a forma em ovo da grelha do Bugatti Type 13, o primeiro carro produzido pela Bugatti.

Só a partir de 1912 é que a grelha em forma de ovo passou a ser a única disponível no Type 13. Seria presença assídua nos novos modelos da Bugatti, como os Type 22, Type 23, Type 28 e Type 30, mas em 1924, a introdução de um novo modelo acabaria por significar o princípio do fim desta solução. O culpado? O Bugatti Type 35.

Bugatti Type 35, o disruptor

Quando foi lançado em 1924, o Bugatti Type 35 destacava-se não só pela técnica — ou pelo seu motor de oito cilindros em linha —, como também pela qualidade e elegância das suas linhas, características que nem sempre associamos a automóveis que têm como destino a competição.

Bugatti Type 35
O Bugatti Type 35, por necessidade, abandonou a grelha oval — nascia a grelha em forma de ferradura.

A sua grelha de radiador distinta dos restantes Bugatti destacava-se. O Type 35 mantinha o formato do óvulo na quase totalidade da grelha, mas a sua base surgia cortada por uma simples reta. O resultado imediato foi a perda da percepção da forma do ovo, ganhando rapidamente outra associação, à de uma ferradura.

Estaria Ettore Bugatti insatisfeito com a anterior forma oval? Não, Ettore não prescindiu do óvulo. Temos que relembrar que o Type 35 foi projetado para competir, pelo que a procura por mais performance pode originar compromissos. Neste caso, o reposicionamento do eixo dianteiro do Type 35 obrigou a “cortar” a grelha na sua base.

Talvez à altura da sua concepção não se previsse o sucesso avassalador que o Bugatti Type 35 iria ter. Em menos de 10 anos e com apenas 38 unidades produzidas, o Type 35 registaria mais de 2000 vitórias em competição — ainda hoje é o automóvel de competição com mais corridas ganhas de sempre na história da competição automóvel, apesar dos mais de 90 anos de vida.

O seu sucesso rapidamente tornou-o numa referência, num símbolo, e mais tarde numa lenda. Serviria de influência e inspiração para todos os outros Bugatti que lhe seguiram e a sua grelha, resultado de uma necessidade prática, tornar-se-ia para sempre “a” identidade da Bugatti — a ferradura tomaria o lugar do ovo para nunca o mais largar.

A forma final da grelha em forma de ferradura mudaria ao longo dos anos no Type 35, estreita no início, mais larga nos anos seguintes, de modo a permitir a refrigeração correta do motor cada vez mais possante.

Tornar-se-ia rapidamente num símbolo, num elemento de design essencial na identificação de todos os Bugatti, e que permaneceu nas duas ressurreições da marca. De forma mais discreta, no Bugatti EB110, e de forma bem mais expressiva na Bugatti da era Volkswagen, primeiro com o Veyron e posteriormente com o Chiron.

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