Ao volante

Honda Civic 1.6 i-DTEC. A opção que faltava

Após quase um ano em comercialização, a nova geração do Honda Civic recebe, finalmente, uma motorização Diesel. O 1.6 i-DTEC, já conhecido do antecessor, foi profundamente revisto em nome das emissões.

Em Roma, Itália

A décima geração do Honda Civic chegou até nós o ano passado, apenas com motorizações a gasolina, todas elas turbo-comprimidas — uma estreia absoluta para o modelo. E temos um pouco de tudo, desde um pequeno três cilindros de apenas um litro, passando pelo intermédio 1.5 litros de quatro cilindros, e acabando no todo-poderoso 2.0 litros de 320 cv do impressionante Type R — o Civic parece cobrir todas as bases.

Bem, quase todas. Só agora, após quase um ano desde o lançamento desta geração, é que o Civic recebe, por fim, uma motorização Diesel — apesar da “má publicidade” dos motores a gasóleo, continuam a ser um bloco muito importante. Os Diesel ainda representam números de vendas expressivos e são uma peça fundamental para muitos construtores cumprirem as metas obrigatórias de reduções de CO2.

Evolução

A unidade 1.6 i-DTEC é uma “velha” conhecida. Se olharmos para os números —120 cv às 4000 rpm e 300 Nm às 2000 rpm — podemos pensar que o motor é exactamente o mesmo, mas as revisões efetuadas são profundas. As normas são cada vez mais apertadas relativas às emissões NOx (óxidos de azoto), o que justificou o extenso rol de alterações ao motor.

Honda Civic 1.6 i-DTEC — motor
Parece o mesmo motor, mas muito coisa mudou.

As revisões tocaram, assim, uma série de aspetos: redução de atrito nos cilindros, um novo turbocompressor (com palhetas de novo desenho), e a introdução de um novo sistema de Conversão e Armazenamento de NOx (NSC de NOx Storage Converter) — o que coloca o 1.6 i-DTEC em conformidade com a norma Euro6d-TEMP em vigor e já preparado para os novos ciclos de testes WLTP e RDE, que entram em vigor em setembro.

Pistões em aço
O bloco e cabeça do 1.6 i-DTEC continuam a ser em alumínio, mas os pistões deixaram de o ser. São agora em aço forjado — parece ser um passo atrás, sendo mais pesados, mas são peça fundamental na redução das emissões. A mudança permitiu diminuir as perdas térmicas e, simultaneamente, aumentou a eficiência térmica. Outra vantagem foi a de ajudar a reduzir o ruído e vibrações do motor. O recurso ao aço nos pistões permitiu, igualmente, uma cabeça de motor mais estreita e leve — cerca de 280 gramas —, sem comprometer a durabilidade. Também a cambota é agora mais leve, graças a um desenho mais esguio.

Sem AdBlue

A maior vantagem do revisto sistema NSC (já presente na anterior geração) é não necessitar de AdBlue — o líquido que ajuda a neutralizar as emissões de NOx —, o componente que faz parte dos sistemas SCR (Redução Catalítica Seletiva), presentes em outras propostas Diesel semelhantes, representando menos um custo para o utilizador.

A introdução de tecnologias adicionais para reduzir as emissões NOx, em princípio, faria com que os consumos e emissões de CO2 aumentassem. No entanto, a folha de especificações revela que as emissões baixaram de 94 para 93 g/km (ciclo NEDC) — apenas uma grama, é certo, mas não deixa de ser uma redução.

A sua linearidade, por vezes, assemelhava-se mais a um motor a gasolina do que propriamente a um Diesel.

Tal só foi possível reduzindo a fricção interna, sobretudo aquela que existe entre os pistões e os cilindros, graças a um polimento tipo “planalto” — que consistem em dois processos de esmerilamento em vez de um — resultando numa superfície ultra suave. Menos atrito gera menos calor, logo, a pressão máxima de combustão (Pmax) diminuiu, resultando em menores consumos e emissões.

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Muito bem instalados

Finalmente chegou a altura de nos sentarmos ao volante do novo Honda Civic 1.6 i-DTEC, e familiarizamo-nos rapidamente com os predicados desta nova geração — excelente posição de condução, com boa amplitude das regulações tanto do banco como do volante, de muito boa pega; e robustez do interior, revelando uma montagem rigorosa, apesar de alguns plásticos não tão agradáveis ao toque.

Honda Civic 1.6 i-DTEC — interior
Bem montado, equipado e sólido. Só é pena a disposição de alguns comandos não estar ao mesmo nível.

O desenho do interior não é o mais apelativo — parece faltar alguma coesão e harmonia —, e o sistema de infoentretenimento também não convenceu revelando-se algo difícil de operar.

Altura de “dar à chave” (carregando no botão), salta logo à vista — ou será ao ouvido? — o ruído do motor (neste particular a motorização 1.0 é mais competente). A frio, o 1.6 i-DTEC revelou-se ruidoso e com um som áspero. Mas não durou muito — após os fluídos atingirem a temperatura ideal, perdeu decibéis e o ficou bem mais suave.

Missão: sair de Roma

Esta apresentação decorreu em Roma e acreditem quando vos digo que, se acham que os portugueses conduzem mal, têm de dar um salto a Itália. Roma é uma cidade linda, cheia de história e… nada compatível com trânsito automóvel. Conduzir por lá, pela primeira vez, foi uma aventura.

As estradas, no geral, estão num estado deplorável. Se houver espaço, uma faixa de rodagem rapidamente se transforma em duas, mesmo que não haja marcações ou sinalização nesse sentido — há que estar muito atento, mesmo! A nossa “missão” era sair de Roma, o que evidenciou, rapidamente, dois aspetos do Honda Civic.

Honda Civic 1.6 i-DTEC
Ir a Roma e não ver o Papa? Check.

A primeira refere-se à visibilidade, ou falta dela, sobretudo traseira. Um problema que afeta muitos dos automóveis atuais, torna-se mais evidente quando estamos no meio de tráfego intenso e caótico, e precisamos de ter olhos na nuca.

A segunda, pela positiva, é a sua suspensão. A unidade testada trazia suspensão adaptativa — exclusivo do “hatchback” de cinco portas — e surpreendeu pela forma como lidou com os péssimos pisos de Roma. Sem queixumes de qualquer espécie, absorveu todas as irregularidades heroicamente. Trabalho fabuloso da suspensão e também mérito da rigidez do chassis.

Temos motor

Uns pequenos erros de navegação depois, saímos de Roma, o trânsito diminuiu e as estradas começaram a fluir. O Honda Civic 1.6 i-DTEC, já à temperatura ideal, revelou-se uma unidade muito agradável de usar. Mostrou disponibilidade desde os baixos regimes, com médios regimes fortes e altos regimes razoáveis.

Honda Civic 1.6 i-DTEC Sedan

A sua linearidade, por vezes, assemelhava-se mais a um motor a gasolina do que propriamente a um Diesel. E o seu ruído, quando a velocidades estabilizadas, era mais um murmúrio  — adicionando pontos à sua agradabilidade.

Não é um carro rápido, como atestam os 10 s para atingir os 100 km/h, mas as prestações são mais que adequadas para o dia-a-dia, e o binário generoso permite recuperações convincentes. Além disso, “meter uma abaixo” ou “uma acima”, é uma tarefa que efetuamos com prazer.

A caixa manual de seis velocidades do 1.6 i-DTEC é uma excelente unidade — precisa como poucas e de curso curto, uma das “tradições” que esperemos, a marca japonesa continue a manter por muitos anos.

Confiança ao volante

Se a condução em Roma era caótica, fora dela não melhora muito — o traço contínuo é apenas… um traço pintado na estrada. Mesmo quando havia oportunidade de esticar mais o motor — a bem da ciência, óbvio — atingindo velocidades mais elevadas, estava sempre alguém a “cheirar” a nossa traseira, fosse em reta ou em curva, fosse que carro fosse, até Pandas com mais de 10 anos de idade. O italianos são loucos — temos que gostar dos italianos… 

Honda Civic 1.6 i-DTEC
Honda Civic 1.6 i-DTEC na estrada.

O percurso escolhido, pouco sinuoso e irregular em praticamente toda a sua extensão, não era propriamente o mais adequado para avaliar o comportamento do Honda Civic.  Mas, nas poucas curvas desafiantes que me deparei, cumpriu sempre, sem falhas.

Inspira enorme confiança numa condução ao ataque, com uma direção precisa — mas sem transmitir grande informação sobre o que acontece no eixo dianteiro —, uma suspensão capaz de controlar eficazmente os movimentos da carroçaria e com elevados limites dinâmicos — os enormes pneus 235/45 ZR 17 devem dar um importante contributo —, resistindo bem à subviragem.

Consumos comedidos

Nestes eventos, com os carros a passarem por muitas mãos e muitos estilos de condução, os consumos verificados nem sempre são os mais realistas. E nada podia ser mais demonstrativo disso do que os dois Honda Civic que conduzi — o “hatchback” de cinco portas e o Sedan, adicionado recentemente à gama.

No geral revelavam sempre consumos baixos, mas a média de ambos não podia ser mais distinta. As duas unidades testadas apresentavam uma média geral de 6,0 l/100 km e 4,6 l/100 km — carroçaria de cinco e quatro portas, respetivamente.

Em Portugal

O Honda Civic 1.6 i-DTEC de cinco portas chegará a Portugal no final de março, e o Honda Civic 1.6 i-DTEC Sedan no final de abril, com os preços a iniciarem-se nos 27 300 euros.

Primeiras impressões

O Honda Civic 1.6 i-DTEC convenceu. É a solução adequada na gama para quem faz muitos quilómetros de forma regular — apesar dos motores a gasolina serem mais interessantes de usar, o Diesel revela igualmente um muito bom nível de agradabilidade com consumos comedidos e prestações razoáveis. Dinâmica exemplar, dando enorme confiança ao condutor, apoiada por uma excelente posição de condução. Espaço abunda e a bagageira é das maiores no segmento — o Sedan, mais comprido, acrescenta mais umas dezenas de litros a esta.


  • Consumos

  • Conjunto Motor+Caixa

  • Suspensão eficaz

  • Visibilidade, sobretudo traseira

  • Sistema de infoentretenimento

Preço

27.300

Data de comercialização: Março 2018


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