Personalidades

Hans Mezger. Conhece o mago dos motores Porsche

A propósito dos 70 anos da Porsche, decidimos recordar um dos nomes mais importantes da história da marca alemã, Hans Mezger. Simplesmente um dos melhores designers de motores da história.

Se és fanático pela Porsche e não tens na garagem um altar dedicado a Hans Mezger, é porque não és assim tão fanático pela Porsche. Dito isto, é muito provável que quando terminares a leitura deste artigo sintas necessidade de o fazer para reafirmar a tua fé — desculpa, não a queria colocar em causa.

No meu caso em particular, apesar de não ser fanático por nenhuma marca, confesso que também tenho os meus próprios «deuses dos motores», como Felix Wankel, Giotto Bizzarrini, Aurelio Lampredi e Ernest Henry, apenas para mencionar alguns. A lista continua, mas… não faltarão oportunidades para escrever sobre todos eles aqui na Razão Automóvel.

Este artigo será sobre Hans Mezger, considerado por muitos como o melhor designer de motores da história.

Quem é Hans Mezger?

Hans Mezger é tão somente o pai dos motores flat-six, e de alguns dos motores mais importantes da história da Porsche. Durante mais de meio século — sim, isso mesmo, mais de 50 anos! — foram produzidos Porsche com motores desenvolvidos por este engenheiro alemão (nascido a 18 de novembro de 1929).

O primeiro motor de Fórmula 1 da Porsche. Type 908.

Licenciado em engenharia mecânica pela Universidade Técnica de Estugarda em 1956, saiu diretamente dos bancos da universidade para os ateliers da Porsche para nunca a mais abandonar. O seu primeiro projeto enquanto engenheiro da Porsche foi o desenvolvimento da cabeça do motor Fuhrmann (Type 547), um bloco de quatro cilindros opostos em alumínio que equipou os vitoriosos Type 550/550 A.

Type 547
Na sua derradeira versão, este motor (Type 558 1500 S) era capaz de desenvolver 135 cv de potência às 7200 rpm. Mais o menos o mesmo que o motor 1.5 Skyactiv-G da Mazda lançado em… 2016.

Apenas dois anos depois (em 1959), Hans Mezger já era um nome muito considerado dentro da Porsche, tendo sido convidado para trabalhar no motor Type 804 que equipou o único Fórmula 1 da Porsche que venceu com um chassis da marca alemã. Tratava-se de um motor 1.5 l de oito cilindros opostos capaz de desenvolver 180 cv às 9200 rpm.

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Esta história ainda mal começou…

No final da década de 50, já não restavam quaisquer dúvidas quanto à genialidade de Hans Mezger. Uma genialidade que lhe valeu a oportunidade de desenvolver o motor do primeiro Porsche 911 em 1963.

Hans Mezger
Dos antigos flat-four para os novos flat-six, de apenas 1.5 litros para uns expressivos 3.6 litros, de pouco mais de 130 cv para mais de 800 cv de potência. Hans Mezger foi o génio nos bastidores da evolução dos principais motores Porsche durante mais de 40 anos.

Foi Hans Mezger que desenvolveu o motor Type 912 flat-12 do incontornável Porsche 917, o primeiro Porsche a reclamar uma vitória à geral nas 24 Horas de Le Mans (1971). Quão fantástico era este motor? Imensamente fantástico. Na prática tratavam-se de dois flat-six “colados” — daí o posicionamento da ventoinha ao centro —  e que na sua configuração mais radical permitia ao Porsche 917/30 Can-Am acelerar dos 0-100 km/h em apenas 2,3 segundos, dos 0-200 km/h em 5.3 segundos e atingir 390 km/h de velocidade máxima.

Porsche 917K 1971
O primeiro capítulo de uma história que já conta com 19 vitórias à geral nas 24 Horas de Le Mans.

Chega de motores de desenvolvidos por Hans Mezger? Claro que não. Ainda estamos na década de 70, altura pela qual Hans Mezger já era conhecido pela alcunha de Motoren-Papst — ou em português “Papa dos Motores”.

No seu curriculum consta ainda o desenvolvimento dos motores para modelos como o Porsche 935 e 956/962 (na galeria abaixo). Faz swipe: 

Vamos colocar as coisas nos seguintes termos: o 956/962 do Grupo C é o carro mais bem sucedido da história das 24 Horas de Le Mans, ganhou seis corridas consecutivas na década de 80.

Publicidade Porsche
Em 1983 e 1984, os primeiros sete classificados nas 24 Horas de Le Mans eram Porsche. E de 1982 a 1985 dominaram o podium. É preciso dizer mais?

Por esta altura Hans Mezger já tinha vencido praticamente tudo o que havia para vencer. O Porsche 911 era um sucesso de vendas e a supremacia da Porsche em todas as categorias em que competia era incontestável.

Porsche 930 Turbo
De alguma forma, no intervalo das corridas, ainda houve tempo para desenvolver outro ícone: o Porsche 911 (930) Turbo.

Mas havia algo por cumprir. Apesar da vitória da Porsche na Fórmula 1 na década de 60, com um motor e um chassis com a assinatura da marca, muito tinha mudado desde a década de 60.

Conseguiria Hans Mezger desenvolver um motor vencedor para a Fórmula 1 moderna?

O regresso às vitórias Fórmula 1

Hans Mezger esteve envolvido em três programas de Fórmula 1, um dos quais no início da década de 60 como referi mais acima. O terceiro programa foi um falhanço monumental devido às restrições orçamentais da Footwork em 1991 — contrariamente ao que possam pensar, a Porsche sempre teve recursos muito limitados.

Foi no segundo programa de Fórmula 1 que Hans Mezger conheceu maior sucesso nesta modalidade. Com os bolsos cheios pelo patrocínio da TAG, a Porsche aliou-se à McLaren para as temporadas de 1984 a 1987.

Nasceu assim o projeto TAG V6 (nome de código TTE P01). Tratava-se de um motor 1.5 de arquitetura V6 Turbo (a 4.0 bar de pressão) capaz de desenvolver 650 cv de potência. Na especificação de qualificação a potência máxima subia para os 850 cv de potência.

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Nikki Lauda à conversa com Hans Mezger.
Nikki Lauda à conversa com Hans Mezger.

Com este motor, a McLaren alcançou o período mais vitorioso da sua história, reclamando dois títulos de construtor em 1984 e 1985, e ainda três títulos de pilotos em 1984, 1985 e 1986. O TAG V6 rendeu 25 vitórias em GP’s À McLaren entre 1984 e 1987.

O último período de Hans Mezger na Porsche

Se bem se recordam, Hans Mezger entrou para a Porsche em 1956 e já chegámos à década de 90. O mundo superou a II Guerra Mundial, o automóvel democratizou-se, o Muro de Berlim caiu, os telemóveis vieram para ficar, a Internet invadiu os computadores.

Enfim, o mundo mudou mas algo manteve-se imutável: Hans Mezger.

Naturalmente, para manter a supremacia, Hans Mezger teve de inovar. Mas até nisso manteve-se igual a si mesmo. A inovação e a busca pela perfeição mecânica esteve sempre na sua forma de estar.

Hanz Mezger

Com centenas de vitórias no seu currículo, nos quatro cantos do mundo e nas principais modalidades do desporto automóvel, este engenheiro alemão ainda encontrou força para um último tango. Esse tango foi o Porsche 911 GT1 que correu em Le Mans na década de 90.

Porsche 911 GT1 (1998)
Porsche 911 GT1 (1998).

Hans Mezger despediu-se da Porsche em 1994 mas o seu legado manteve-se bem vivo durante quase mais duas décadas. Todas as gerações do Porsche 911 GT3 e GT3 RS — exceptuando a geração 991 — foram equipados com motores Mezger derivados da unidade desenvolvida para o Porsche 911 GT1.

Características? O som inebriante, a subida de rotação alegre, porém cheia de força, as últimas 3000 rpm, a entrega de potência e a fiabilidade à prova de quase tudo fizeram dos Porsche 911 GT3 RS aquilo que são hoje. Máquinas reverenciadas por tudo e por todos, reis e senhores do Nürburgring Nordscheleife.

Numa pequena parte — ainda assim numa parte maior do que alguma vez ousei sonhar — posso dizer que já senti, toquei e explorei algumas das obras deste génio dos motores. Tive o privilégio de conduzir todos os Rennsport (RS) da Porsche, alguns dos quais com a assinatura de Hans Mezger.

rennsport, guilherme costa no meio dos 911 RS
Melhor do que o lugar onde estou sentado, só no interior de um destes Rennsport: 964 e 993 Carrera RS à esquerda; 996 e 997 GT3 RS à direita.

É por todos estes motivos, e por mais alguns (que ficaram por escrever…), que considero Hans Mezger o melhor designer de motores da história do automóvel.

Venceu nas pistas, venceu no mercado e criou alguns dos maiores ícones da industria automóvel e do desporto motorizado; falo do Porsche 911 e do Porsche 917K mas podia falar de tantos outros. Sintam-se à vontade para discordar de mim e para nomear aquele que para vocês é o melhor designer de motores da história da indústria automóvel. Estes foram os meus dois cêntimos…

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