Lentos e furiosos

Também és do tempo das DT 50 LC e dos Saxo Cup?

A juventude é dada a excessos, e quem nunca os cometeu que atire a primeira pedra. Portanto vamos rir um pouco… até porque sobrevivemos. Uma resposta aos defensores dos fumarentos.

Fumarentos. Há alguns dias escrevi um artigo sobre a problemática dos carros Diesel mal modificados. Expliquei que não era contra a modificação de automóveis, vulgo tuning, e que aprecio todas as suas manifestações, seja qual for a sua natureza (Stance, OEM+, etc…).

Escrevi também que há limites que não podem ser ultrapassados. E escrevi que há um limite que me parece preocupante e que continua a fazer «escola» junto de algumas franjas da comunidade de amantes dos automóveis: os fumarentos. Este artigo é uma resposta às críticas.

No dia em que publiquei aquele texto, parecia que tinha dado um pontapé num enxame de abelhas. Já estava à espera, mas não tanto… caíram na minha caixa de e-mail algumas mensagens menos amistosas, com argumentos a defender os «coal runners» nacionais.

Oh… a ironia (desculpem, não resisti).

O artigo teve quase 4 000 partilhas orgânicas e espalhou-se pelas redes sociais a uma velocidade surpreendente. Também podia ter falado dos «escapes diretos» nos carros a gasolina e dos concursos de tiros, mas não quis misturar assuntos.

Defendi e defendo que a temática das modificações nos automóveis deve ser discutida à margem dos exageros — que são a exceção e não a regra.

A NÃO PERDER: Afinal de contas, quem é que usa os motores de quem?

O tuning é uma atividade da qual dependem muitas empresas, na qual muita gente investe dinheiro e que gera receitas de impostos. Por estes motivos (e muitos mais) é uma atividade que merece um enquadramento legal que não tome a «árvore pela floresta». Nem todos são fumarentos, street racers e outras derivações menos abonatórias…

Tu não sabes o que é isto

Foi uma das frases que mais li. Que não entendo, que não percebo, que não conheço o mundo das preparações. Parcialmente têm razão. Conheço pouco mas conheço o suficiente. Conheço o suficiente para saber que quando as coisas são bem feitas não há cortinas de fumo negro e espesso.

Quero dizer-vos também que compreendo os argumentos de quem faz essas alterações na procura de mais potência. Compreendo mas não posso aceitar. Não aceito porque prejudica tudo e todos de uma forma desproporcionada. E parece-me que a palavra desproporcionada é fundamental. Há limites, em tudo. Até na competição quanto mais nos carros que circulam na via pública.

Portanto deixem-me falar do meu tempo…

Aos que visitam menos a Razão Automóvel, deixem-me dizer algo que os mais antigos aqui da casa já sabem: tenho 32 anos, sou alentejano e o meu primeiro carro foi um Citroen AX. Com muita pena minha, não sou um “betinho rico que não gosta dos fumarentos porque tem o carro que quer”. Era bom que fosse verdade…

Deixe-me dizer que as minhas vivências também se cruzaram com os exageros, com os devaneios e com o «pisar da linha». Ahh… gerações da década de 70 e de 80 levantem o braço se ainda se lembram das Yamaha DT 50 LC!

DT 50 LC
A famosa LC.

Não passou assim tanto tempo, mas parece que foi noutra vida que à porta de qualquer escola secundária havia um manancial de Yamaha DT 50 LC a perder de vista. Acho que naquele tempo, a única vez que vi uma DT 50 LC de «origem» foi dentro de um stand.

Rabeiras levantas, kit de 80 cm3, adeus autolube, micas xpto, escape de rendimento, eram acessórios obrigatórios.

Qual é que andava mais? Nem imaginam as tardes perdi a discutir questões deste género. Normalmente a resposta só surgia depois de um tira teimas — vocês sabem do que eu estou a falar. Entre mentiras e meias verdades, há quem afirme a pés juntos que havia LC’s a dar 140 km/h. Um amigo meu levou a coisa aos extremos e montou no quadro de uma pequena LC o motor da toda poderosa TDR 125 (uma DT 125 R mais burguesa). Aquilo andava mesmo muito… um abraço para o Choina!

Ainda sem carta de condução, vivi do lado de fora (porque não tinha carta…) a época dourada dos Saxo Cup, dos concursos de som e do tuning à base de fibra de vidro. Pouco depois surgiram os primeiros Diesel modificados. Tinha chegado a era dos comerciais rápidos…

UNICORNIO
Tentei encontrar a imagem de um SEAT Ibiza GT TDI de origem mas não consegui…

Muitos de nós sobreviveu a esse tempo por sorte. Nunca tive a felicidade de ter um Saxo Cup, mas tive um Citroen AX Spot (sim… Spot, não é Sport). Um demónio do asfalto — e não só — equipado com um potente motor 1.0 l de 50 cv de potência. Consegui apanhar um multa por excesso de velocidade naquilo. Como? Podia dizer que «não sei como» mas sei muito bem como…

Digo isto com nostalgia, com um sorriso na cara e sem orgulho nenhum.

Os dias de hoje

Crescemos e percebemos que 90% dos nossos comportamentos eram absurdos. Falando um pouco mais das minhas vivências, cresci no Alentejo, onde pedir o carro “emprestado” a partir dos 14 anos para puxar o travão de mão à volta de um pinheiro era algo normal. Hoje este tipo de comportamento parece-me altamente reprovável.

Reprovável, sem dúvida. Mas tenho esperança que um dia um meu filho tenha desejo de o fazer… era sinal que lhe tinha passado o «vício».

Mas posso dar mais exemplos. Se recuarmos um pouco mais no tempo, a sociedade portuguesa dividia-se entre aqueles que defendiam o uso do cinto de segurança e os que defendiam que o cinto de segurança não servia para nada. Se continuarmos a recuar no tempo, até havia quem defendesse que o automóvel era uma invenção inútil.

Toda esta ladainha para dizer que muito provavelmente vai acontecer o mesmo com aqueles que hoje defendem os «fumarentos». Amanhã vão olhar para trás e dizer: “Caramba, era mesmo estúpido!”.

Entretanto, voltando à «terra dos crescidos», volto a frisar: devemos continuar a defender uma frase muito batida mas que é verdade «o tuning não é crime!». Não é crime, e em muitos caso melhora inclusivamente a segurança dos modelos em questão. Mas para que a árvore não seja confundida com a floresta, devemos contrariar o «culto dos fumarentos». Continuo a achar que os «coal runners» nacionais não têm lugar junto dos amantes de automóveis. Entendo os vossos argumentos mas não os posso aceitar.

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