O Último dos…

O Último dos… Volvo com um motor V8

Nesta nossa nova rubrica, recuamos não muito no tempo para recordar o momento em que o último dos Volvo com um motor V8 desapareceu do mercado.

Facto curioso: o último dos Volvo com motor V8 foi também o primeiro. Provavelmente já deves ter adivinhado de que Volvo estamos a falar. O primeiro e último, mas não o único Volvo de produção a vir equipado com um motor V8 foi também o seu primeiro SUV, o XC90.

Foi em 2002 que o mundo ficou a conhecer o primeiro SUV da Volvo e… o “mundo” gostou. Foi o modelo certo para responder à “febre” por SUV que já se fazia sentir na América do Norte, e foi o pontapé de saída para uma família de modelos que hoje em dia são os mais vendidos na marca sueca — e nós a pensar que a Volvo era a marca das carrinhas.

Eram fortes as ambições da marca sueca para o XC90. Por baixo do capot havia motores de cinco e seis cilindros em linha, a gasolina e gasóleo. Porém, para melhor elevar-se ao patamar dos rivais premium como os Mercedes-Benz ML, BMW X5 e até o inédito e controverso Porsche Cayenne, era preciso um maior pulmão.

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Assim, no final de 2004, com alguma surpresa, a Volvo levanta o pano sobre o seu primeiro modelo equipado com um motor V8, o XC90… e que motor.

B8444S, o que significa
B é de "Bensin" (gasolina em sueco); 8 é o número de cilindros; 44 refere-se à capacidade de 4,4 l; o terceiro 4 refere-se ao número de válvulas por cilindro; e S é de "suction", ou seja, um motor naturalmente aspirado.

B8444S

Com o abstrato código B8444S a identificá-lo, este motor V8 não foi desenvolvido, como seria esperado, totalmente pela marca sueca. O desenvolvimento esteve a cargo, sobretudo, pela especialista Yamaha — só poderia sair coisa boa…

A capacidade do inédito V8 ascendia a 4414 cm3 e, como tantos outros na altura, era naturalmente aspirado. O aspeto mais peculiar desta unidade era o ângulo entre as duas bancadas de cilindros de apenas 60º — regra geral os V8 costumam ter um V de 90º para garantir um maior equilíbrio.

Volvo B8444S
Bloco e cabeça em alumínio.

Porquê então o ângulo mais estreito? Era necessário que o motor fosse o mais compacto possível para caber no compartimento do motor do XC90 assente sobre a plataforma P2 — partilhada com o S80. Ao contrário dos alemães, esta plataforma (de tração dianteira) obrigava a um posicionamento transversal dos motores, ao contrário do posicionamento longitudinal dos rivais (plataformas de tração traseira).

Este constrangimento de espaço obrigou a várias características peculiares, para lá do ângulo de 60º do V. Por exemplo, as bancadas de cilindros estão desfasadas em meio cilindro uma da outra, o que permitiu reduzir ainda mais a sua largura. Resultado: o B8444S era um dos V8 mais compactos da altura, e ao recorrer a alumínio para o bloco e cabeça, também um dos mais leves, acusando na balança apenas 190 kg.

Foi ainda o primeiro V8 a ser capaz de cumprir as exigentes normas de emissões ULEV II (Ultra-low-emission vehicle) dos EUA.

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XC90 não foi o único

Quando o vimos pela primeira vez no XC90, o 4.4 V8 debitava 315 cv às 5850 rpm e o binário máximo ascendia aos 440 Nm às 3900 rpm — números muito respeitáveis na altura. Acoplado a ele vinha uma caixa automática de seis velocidades da Aisin, que transmitia toda a força do V8 às quatro rodas via um sistema AWD da Haldex.

Há que admitir que as transmissões automáticas de há 15 anos não eram as mais rápidas ou eficazes transmissões automáticas de hoje em dia e, associado aos 2100 kg de massa do SUV, percebe-se os modestos 7,5s de aceleração dos 0 aos 100 km/h. Mesmo assim era o mais rápido dos XC90, por larga margem.

O XC90 não seria o único Volvo a estar equipado com o B8444S. O V8 também equiparia o S80, surgindo dois anos depois, em 2006. Sendo mais leve 300 kg que o XC90, e muito mais baixo, as prestações só podiam ser melhores: os 0-100 km/h eram cumpridos nuns mais satisfatórios 6,5s e a velocidade máxima ascendia a uns limitados 250 km/h (210 km/h no XC90).

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O fim dos Volvo com motor V8

Teve vida curta este V8 na Volvo. Elogiado pela sua suavidade e força, além pelo à vontade em fazer rotação e sonoridade — sobretudo com escapes aftermarket — o B8444S não resistiu à crise financeira global de 2008. A Volvo acabaria por ser vendida pela Ford em 2010 à chinesa Geely, ocasião aproveitada para reinventar a marca.

Foi nesse ano de drástica mudança que vimos também terminar a carreira do motor V8 na Volvo, precisamente com o modelo que o introduziu, o XC90 — o S80, apesar de o ter recebido mais tarde, veria ser retirada a motorização V8 alguns meses antes do XC90.

Volvo XC90 V8
O B8444S em toda a sua glória… transversal.

Agora com a Geely, a Volvo tomou uma decisão drástica. Apesar das ambições premium que a marca manteve, não teria mais motores com mais do que quatro cilindros. Como então enfrentar os cada vez mais possantes rivais germânicos? Eletrões, muitos eletrões.

Foi durante a longa recuperação da crise financeira que a discussão à volta da eletrificação e dos veículos elétricos ganhou tração e os resultados são hoje evidentes. Os Volvo mais potentes em comercialização hoje em dia ultrapassam alegremente os 315 cv do B8444S. Com mais de 400 cv de potência, combinam um motor de combustão de quatro cilindros com compressor e turbo, com outro elétrico. É o futuro, dizem…

Será que veremos o retorno de um V8 à Volvo? Nunca digas nunca, mas as probabilidade de tal acontecer são ínfimas.

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Segunda vida para o B8444S

Pode ter sido o fim dos Volvo com motor V8, mas não foi o fim do B8444S. Ainda na Volvo, entre 2014 e 2016, veríamos uma versão com 5.0 l de capacidade deste motor nos S60 que competiram no campeonato australiano V8 Supercars.

Volvo S60 V8 Supercar
Volvo S60 V8 Supercar

E uma versão deste motor seria encontrada, posicionada longitudinalmente e ao meio, no superdesportivo britânico Noble M600, lançado em 2010. Graças à adição de dois turbocompressores Garret a potência “explodia” até aos 650 cv, mais do dobro da versão naturalmente aspirada. No entanto, apesar de ser o mesmo motor, este era produzido pela norte-americana Motorkraft e não pela Yamaha.

A Yamaha, no entanto, também usou este motor em alguns dos seus barcos motores fora de bordo, onde a sua capacidade foi alargada dos 4.4 l originais para capacidades entre os 5.3 e 5.6 l.


Sobre o “O Último dos…”. A indústria automóvel atravessa o seu maior período de mudança desde que o automóvel… foi inventado. Com mudanças significativas constantemente a acontecer, com esta rubrica pretendemos não perder o “fio à meada” e registar o momento em que algo deixou de existir e passou à história para (muito provavelmente) nunca mais voltar, seja na indústria, numa marca, ou até num modelo.

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