Indústria

Existem 227 formas de melhorar o Tesla Model 3

O "inferno de produção" do Tesla Model 3 tem causas concretas, reveladas, sobretudo, pelo desmontar e consequente análise exaustiva do modelo.

Já referimos anteriormente sobre o potencial de lucro do Tesla Model 3. Foi uma das conclusões à análise exaustiva ao modelo — desmontado até “ao último parafuso” — efetuada pela consultoria de engenharia Munro & Associates.

O seu CEO, Sandy Munro, deixou-se impressionar pela tecnologia do modelo, associada às baterias e eletrónica, que considera a mais avançada da indústria nos dias de hoje.

No entanto, Munro teceu várias críticas que, de acordo com o próprio, impedem o Model 3 de atingir o seu potencial, nomeadamente o mau design (não uma crítica à estética, mas sim à concepção); e a produção, que apesar dos números crescentes, necessita de muitos mais recursos do que noutras linhas de produção.

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Tesla Model 3, Sandy Munro e John McElroy
Sandy Munro, CEO da Munro & Associates (à esquerda)

Munro concluiu que a unidade em concreto do Tesla Model 3 desmontado custa mais 2000 dólares (1750 euros) a construir que um BMW i3 (outro dos modelos que já passaram pelo seu crivo), isto sem contar com os custos adicionais provenientes da linha de montagem.

A raíz dos problemas? A inexperiência de Elon Musk

Elon Musk, o CEO da Tesla, tem a visão, sem dúvida, mas isso não o torna um especialista em fabricar automóveis. Os problemas reportados por Sandy Munro revelam a inexperiência de Musk na indústria automóvel:

Se este carro fosse feito noutro lugar qualquer, e Elon (Musk) não fizesse parte do processo de produção, eles (Tesla) fariam muito dinheiro. Eles estão a aprender todos os velhos erros que os outros todos cometeram há anos.

Mas Munro é um confesso admirador da tecnologia concebida e empregue pelo fabricante norte-americano — demonstrando as suas raízes “Sillicon Valley” —, pelo que, tendo em conta a própria análise elaborada pela sua empresa, elaborou uma lista com 227 medidas de melhoramento para “endireitar” de vez o Model 3. 

Lista que enviou à própria Tesla… sem custos.

Tesla Model 3 — Linha de produção

O que pode ser melhorado

Grande parte das soluções referem-se à concepção do corpo do Model 3, ou seja, estrutura monobloco e painéis da carroçaria, que Munro considera ser o principal problema, adicionando peso, custos, e complexidade desnecessárias.

Ele destaca alguns exemplos — infelizmente não temos acesso a todas as 227 medidas — e soluções mais eficazes para resolver o mesmo problema encontradas na concorrência:

  • Estrutura em aço e alumínio na base do carro — concebida para aumentar a segurança, Munro refere que não é necessária, já que o pack de baterias, situado no chão da plataforma, adiciona toda a rigidez necessária. Resultado: aumento de peso e custos sem trazer grandes benefícios.
  • Porta da bagageira em alumínio — constituída por nove peças unidas por pontos de soldadura e rebites. Munro sugere substituí-la por uma peça única em fibra de vidro como se vê noutros construtores.
  • Cava da roda traseira — também constituída por nove peças de metal rebitadas, soldadas e coladas. No Chevrolet Bolt é apenas uma peça estampada em aço, por exemplo.

A própria Tesla já tinha referido em ocasiões anteriores que continuam a fazer melhoramentos constantes na linha de produção e do automóvel. Já tínhamos referido, por exemplo, a supressão de 300 pontos de soldadura que se revelaram desnecessários e têm sido reportados otimizações constantes na linha de produção.

Apesar do Model 3 que Munro desmontou ser ainda um dos primeiros a serem produzidos, não integrando muitos dos melhoramentos que entretanto aconteceram, ele foi ao ponto de dizer que a Tesla deveria despedir o chefe de engenharia que concebeu a estrutura/carroçaria do Model 3, reforçando com “nem o deviam ter contratado”, já que é onde residem grande parte das “dores de cabeça” na linha de produção.

Apesar de não terem sido referidos nomes, efetivamente, a Tesla despediu Doug Field, chefe de engenharia de veículos no passado mês de junho. Sabe-se agora que o Tesla Model 3 foi o primeiro carro desenvolvido por ele.

Tesla Model 3

“A automatização excessiva na Tesla foi um erro”

O outro grande problema, segundo Munro, é o excesso de funcionários na linha de produção. Se inicialmente a aposta na automatização era defendida por Elon Musk, esta acabou por ser errada — até muito por culpa dos problemas de concepção do carro, como o excesso de pontos de soldadura, referenciados por Munro —, um erro admitido pelo próprio Musk há uns meses.

Só que agora, passámos do “8 para o 80”, com a fábrica de Fremont, onde todos os Tesla são produzidos — uma antiga unidade pertencente à Toyota e GM — a empregar à volta de 10 mil funcionários, que produzirão este ano qualquer coisa como 350 mil Tesla (S, X e 3).

Compare-se com os números na altura que a Toyota e GM produziam lá automóveis. No seu pico 4400 funcionários produziam 450 mil veículos por ano.

A justificação para tão grande número de funcionários pode ser explicada em parte pela produção “em casa” de peças que no geral são produzidas externamente por fornecedores, como os bancos; justificação descartada por Munro: “Mesmo com três turnos e muito trabalho feito em casa, não há justificação para precisares de 10 mil pessoas”.
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Custos e potencial de lucro

O Tesla Model 3 desmontado tinha um preço de 50 mil dólares, com o custo de produção calculado por Munro a ficar nos 34 700 dólares (30 430 euros) — neste cálculo não estão integrados os custos de engenharia, investigação e desenvolvimento. Mesmo adicionando custos de logística e um cálculo generoso para mão de obra, a margem de lucro bruta deverá exceder os 30%, um valor notável na indústria automóvel.

Ele estima que mesmo numa versão de entrada o Model 3 possa atingir 10% de margem, com um custo de produção inferior a 30 mil dólares (26 300 euros) — graças a uma bateria mais pequena (e barata), e menos equipamento instalado. Números ligeiramente melhores que os pouco mais de 30 mil dólares para um Chevrolet Bolt e os aproximadamente 33 mil dólares de um BMW i3 (ambos também analisados anteriormente pela Munro & Associates).

De acordo com Sandy Munro, agora é uma questão de a Tesla tornar lucrativa a vantagem tecnológica de que dispõe. Para isso, não só a marca tem de manter um certo nível de produção, como recomenda que Elon Musk contrate executivos com experiência na tarefa de construir e montar automóveis. Se ele o conseguir, Munro diz que Elon “não está longe de fazer dinheiro”.

Fonte: Bloomberg

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