Entrevista

Kia. “Sem Diesel e carros cada vez maiores, vai ser difícil atingir as metas de CO2”

À conversa com Emilio Herrera, chefe de operações da Kia Europa, ficámos a saber mais sobre a Proceed, as ambições da marca e os desafios no cumprimento das metas de CO2.

Até aqui reservadas praticamente apenas e só às marcas premium, com a alemã Mercedes-Benz na linha da frente, as carrinhas enquanto expressão de estilo, inspiradas nas shooting brakes, chegam agora às marcas generalistas, com a apresentação da Kia ProCeed.

Manifestação de uma pretensa ambição ao universo premium — especialmente depois da marca já ter lançado o “Gran Tourer” Stinger —, ou nada mais que um esforço de afirmação de uma nova imagem, mais emocionante, este foi o ponto de partida para uma conversa com o espanhol Emilio Herrera, Chefe de Operações da Kia Europa. Na qual se falou não apenas da nova “menina bonita” da marca sul-coreana, mas também de Diesel, eletrificação, tecnologias, posicionamento… e, já agora, de novos modelos!

Comecemos pelo motivo principal desta nossa conversa, a nova shooting brake, Kia ProCeed. O que é que leva uma marca generalista como a Kia a entrar num território que, até aqui, parecia estar reservado apenas e só às marcas premium?

Emílio Herrera (ER) — A Kia ProCeed é a estreia da marca num segmento de mercado onde, à exceção da Mercedes-Benz CLA Shooting Brake, praticamente não há concorrência. Com a ProCeed, pretendemos oferecer um produto que não só procura congregar estética e funcionalidade, como também garantir uma outra visibilidade para a marca, nas estradas do dia-a-dia. Queremos que as pessoas passem a reparar mais na marca, a reconhecerem um Kia quando o vêem passar…

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Kia ProCeed 2018
Segundo modelo de imagem na oferta Kia, a “shooting brake” ProCeed deverá, no entanto, ser bem mais do que isso, podendo mesmo vir a valer mais de 20% da gama Ceed

Quer isto dizer quer as vendas não são o mais importante…

ER — Nada disso. O facto de ser uma proposta de imagem, não quer dizer que não estejamos a pensar no volume de vendas. Aliás, nós acreditamos que a ProCeed representará cerca de 20% da totalidade das vendas da gama Ceed, se não for mais. Basicamente, em cada cinco Ceed vendidos, um será um ProCeed. Desde logo, porque é uma proposta que, apesar do design exterior, não perdeu o aspeto prático, sendo inclusivamente mais funcional, que o três portas, já retirado da gama.

No entanto, é mais um carro que, segundo já afirmaram, apenas será comercializado na Europa…

ER — É verdade, trata-se de um carro desenhado, produzido e comercializado apenas na Europa. De resto, não é uma proposta que se adeque àquelas que são as principais exigências, por exemplo, do mercado americano, onde aquilo que mais se pretende são carros grandes, as chamadas pick-up trucks

Para mercados como o americano, a Kia tem o Stinger, ainda que as vendas não sejam propriamente de volume…

ER — A mim, os números do Stinger não me preocupam. Aliás, nunca pensámos no Stinger enquanto modelo que pudesse fazer volume, até porque se trata de um segmento dominado há muito pelas marcas alemãs. O que verdadeiramente pretendíamos com o Stinger era, apenas e só, mostrar aquilo que a Kia também sabe fazer. Já com o ProCeed, os objetivos são diferentes — o carro tem a mesma finalidade do Stinger, reforçar a imagem da marca, mas, ao mesmo tempo, deverá contribuir para o aumento dos volumes de vendas. Eu acredito que, especialmente a partir do momento em que avancemos com as versões mais básicas, o ProCeed poderá tornar-se, inclusivamente, um dos modelos mais vendidos dentro da gama Ceed.

kia stinger
Stinger com poucas vendas? Não interessa, diz a Kia, que com o Gran Tourer quer elevar a imagem da marca…

“Prefiro vender mais ProCeed que carrinhas Ceed”

Então, e a carrinha Ceed, que também já foi anunciada? Não correrão o risco de uma canibalização entre os dois modelos?

ER — Sim, é possível que possa haver alguma canibalização entre os dois modelos. No entanto, isso é algo que não nos preocupa, porque, no final, ambos os carros produzir-se-ão na mesma fábrica e, a nós, tanto nos faz vender um modelo, como outro. O importante é que o volume total de Ceed vendidos aumente face ao atual. No entanto, também digo que prefiro vender mais ProCeed, que carrinhas. Porquê? Porque a ProCeed dar-nos-á mais imagem. E não haverá outra shooting brake na gama, a não ser esta…

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Falou, há pouco, na possibilidade de lançar outras versões, mais básicas, da ProCeed. Como é que pensam fazer isso?

ER — A ProCeed shooting brake será lançada, inicialmente, em duas versões, GT Line e GT, sendo que a nossa expetativa é de que a primeira venha a vender mais do que a segunda, ainda que dependa sempre dos mercados. Lá mais para a frente, podemos lançar versões mais acessíveis, até como forma de cobrir uma maior área do mercado, o que certamente fará com que o peso da ProCeed venha a representar mais nas vendas totais da gama Ceed que os 20% que referi…

Ainda quanto ao objetivo do reforço da imagem da marca, é então possível esperar mais produtos nesse sentido…

ER – Sim, penso que sim… Até porque o objetivo da marca é que, a partir de agora, sempre que lançarmos um novo produto, exista uma versão mais emocional, aquilo que já designei de “fun factor”. Ou seja, criar nos clientes a ideia de que compro um carro porque é prático, mas também porque gosto das linhas, divirto-me ao volante…

Kia Proceed Concept
Desvendado no último Salão de Frankfurt, o Kia ProCeed Concept colcou altas as expetativas para a versão de produção… Confirmaram-se ou não?

“Premium? Nada disso! Somos e continuaremos a ser uma marca generalista”

Significa isso que a fase dos Kia acessíveis e económicos é coisa do passado?

ER — Nada disso, esse é um princípio que queremos manter. A Kia é uma marca generalista, não somos uma marca premium, não queremos ser uma marca premium, pelo que temos de manter um preço adequado; aquilo que em inglês se designa “value for money”. Não vamos ser os mais baratos do mercado, também não vamos ser os mais caros; vamos ser, sim, uma marca generalista, que procura oferecer um pouco mais de emoção, de atração!

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Isto, apesar de mais esta incursão em território premium…

ER – Definitivamente, não queremos ser uma marca premium! Não é algo que nos atraia, nem sequer pretendemos estar ao nível da Volkswagen. Queremos, sim, continuar a ser uma marca generalista. Esse é o nosso objetivo!…

E, já agora, com as maiores garantias do mercado…

ER – Isso, sim. Aliás, pretendemos alargar a garantia dos 7 anos também às viaturas Selective [n.d.r. — de retoma], Entretanto, vamos apresentar, já no Salão de Paris, o Niro 100% elétrico, com uma autonomia WLTP de 465 km, também com sete anos de garantia. É, portanto, uma medida para continuar…

Kia Niro EV 2018
Aqui apresentação na versão sul-coreana, o Kia e-Niro é a próxima proposta 100% elétrica da marca sul-coreana

“95 g/km de CO2 até 2020 vai ser uma meta difícil de alcançar”

Por falar em elétricos, para quando a eletrificação, por exemplo, dos best-sellers Sportage e Ceed?

ER – No caso da gama Ceed, a eletrificação chegará primeiro ao cinco portas, de várias formas — como mild-hybrid (semi-híbrido) de certeza; como híbrido plug-in, também; e pode ser que tenhamos mais alguma surpresa nos próximos tempos. Já o Sportage, terá também, garantidamente, uma versão mild-hybrid de 48V, embora também possa vir a contar com outras soluções…

As novas exigências em termos de emissões prometem não ser fáceis de cumprir…

ER — É preciso não esquecer que todas as marcas vão ter de cumprir 95 g/km de CO2 de média, até 2020. E isto é muito difícil num mercado que está a abandonar o Diesel e em que os carros são cada vez maiores. São duas tendências, negativas, que vêm prejudicar os esforços de cumprimento da nova normativa de CO2, sendo que a única forma de atenuar isto é através de versões elétricas, híbridos plug-in, híbridos, mild-hybrids, etc. No nosso caso, já lançámos o Diesel mild-hybrid de 48V, no próximo ano chegará o mild-hybrid a gasolina, sendo que o objetivo é desenvolver cada vez mais produtos com base nestas tecnologias, estendendo-as a toda a nossa gama…

“Vender entre seis e oito milhões de carros vai ser fundamental”

Então e o posicionamento da Kia, face à Hyundai, dentro do próprio grupo, como é que fica?

ER — Dentro daquilo que à política do grupo, posso garantir que também a Hyundai não pretende ser premium. Agora, desde que o Peter Schreyer se tornou presidente a nível mundial para o design, aquilo que temos tentado fazer é diferenciar não só as duas marcas, mas também os próprios modelos. Por exemplo, a Hyundai nunca terá uma shooting brake! Basicamente, vamos ter nos diferenciar cada vez mais, para que não haja canibalização, até porque Hyundai e Kia vão continuar a competir nos mesmos segmentos.

Hyundai i30 N teste portugal review
Diverte-te a observar o Hyundai i30N, porque, igual a este, com o emblema da Kia, não acontecerá…

No entanto, partilham os mesmos componentes…

ER — Eu acredito que a partilha de componentes e, consequentemente, de custos de desenvolvimento, será um aspeto cada vez mais importante neste setor. Ter um volume suficientemente grande, entre seis a oito milhões de carros por ano, capaz de custear o desenvolvimento de novas soluções para colocá-las cada vez mais depressa no mercado, vai ser cada vez mais importante. E, depois, há que ter também uma repartição geográfica muito boa, em praticamente todos os países do mundo, para poder sobreviver, nos próximos anos…

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Dito de outra forma, dificilmente vamos ver na estrada um Kia “N”…

ER — Como o Hyundai i30 N? Nada disso! Aliás, esse tipo de produto só tem sentido numa marca como a Hyundai, que está envolvida nos ralis, na competição. Nós não estamos nesse mundo, pelo que vamos fazer versões desportivas, sim; capazes de transmitir prazer de condução, sim; mas que nunca serão um “N”! Serão Ceed GT ou um ProCeed… Agora, também é verdade que temos vindo a evoluir o design, a melhorar a experiência de condução, e tudo isso tem sido feito com a ajuda de um senhor alemão chamado Albert Biermann. Aliás, na minha opinião, foi mesmo uma excelente contratação, justificada também nas reações que temos tido de vários media, alemães inclusive, os quais consideram que a experiência de condução nos nossos carros melhorou muito. Chegando mesmo a dar-lhes melhor nota que ao Volkswagen Golf!

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