Histórias

Valentino Rossi na Fórmula 1. A história completa

Valentino Rossi, lenda viva (e ativa) do MotoGP, continua a perseguir aos 39 anos de idade, o seu 10º título mundial — e persegue-o como se fosse o primeiro. Mas Valentino Rossi teve outro amor para além do MotoGP: a Fórmula 1.

A vida é feita de escolhas, sonhos e oportunidades. O problema surge quando as oportunidades, obrigam-nos a fazer escolhas que colocam em causa os nossos sonhos. Confuso? É a vida…

Este artigo é sobre uma dessas escolhas difíceis, a difícil escolha de Valentino Rossi entre o MotoGP e a Fórmula 1.

Como é sabido, Rossi escolheu permanecer no MotoGP. Mas levanto a seguinte questão: como é que teria sido se aquele que é considerado por muitos — e por mim também —, como o melhor piloto de todos os tempos, tivesse trocado as duas rodas pelas quatro rodas?

Este artigo será sobre essa aventura, esse namoro, essa vertigem, que entre 2004 e 2009, dividiu o coração de milhões de apaixonados pelos desporto motorizado. Um casamento que a ter acontecido, poderia ter juntado dois estreantes de peso: Lewis Hamilton e Valentino Rossi.

Niki Lauda com Valentino Rossi
Niki Lauda e Valentino Rossi. O reconhecimento de Valentino Rossi é transversal ao desporto motorizado. Foi o primeiro motociclista da história a ser distinguido ao mais alto nível pelo prestigidado British Racing Drivers Club — ver aqui.

Durante esses anos, 2004 a 2009, o mundo polarizou-se. De um lado, aqueles que queriam continuar a ver Valentino Rossi no MotoGP, do outro, aqueles que queria ver o “The Doctor” a repetir um feito que apenas foi alcançado uma vez, pelo grandioso Jonh Surtees: ser campeão do mundo de Fórmula 1 e MotoGP, as disciplinas rainhas do desporto motorizado.

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O início do namoro

Estávamos em 2004 e Rossi já tinha ganho tudo o que havia para ganhar: campeão do mundo nas 125, campeão do mundo nas 250, campeão do mundo nas 500, e 3x campeão do mundo em MotoGP (990 cm3 4T). Volto a repetir, tudo o que havia para ganhar.

A sua supremacia face à concorrência era tão grande que havia quem dissesse que Rossi só ganhava porque tinha ao seu dispor a melhor mota e a melhor equipa do mundo: a Honda RC211V do Team Repsol Honda.

Valentino Rossi e Marquez
Team Repsol Honda. A mesma equipa onde agora alinha um dos seus maiores rivais de todos os tempos, Marc Marquez.

Perante a constante desvalorização das suas conquistas por parte de alguma imprensa, Rossi teve a coragem e o atrevimento de fazer algo completamente inesperado: trocar a segurança da «super estrutura» da equipa oficial da Honda, por uma equipa que já não sabia o que era um título mundial há uma década, a Yamaha.

Quantos pilotos seriam capazes de arriscar desta forma a sua carreira e prestígio? Marc Marquez é a tua deixa…

Os críticos silenciaram-se quando Rossi venceu o 1º GP da temporada 2004 aos comandos da tal mota que não vencia, a Yamaha M1.

Rossi Yamaha
No final da corrida, aconteceu um dos momentos mais marcantes da história do MotoGP. Valentino Rossi encostou a sua M1 e deu-lhe um beijo em sinal de agradecimento.

Foi amor à primeira vista. Apesar dos constrangimentos levantados pela Honda — que apenas libertou o piloto a 31 de dezembro de 2003 — e que impediram-no de testar a Yamaha M1 em Valência após o fim do campeonato, Valentino Rossi e Masao Furusawa (ex-diretor da Yamaha Factory Racing Team) criaram uma mota vencedora à primeira tentativa.

Este episódio da mudança da Honda para a Yamaha serve apenas para recordar que Valentino Rossi nunca virou costas a um desafio, daí que uma ida para Fórmula 1 não fosse algo descabido.

Em 2005, já a caminho do seu 2º título mundial aos comandos da Yamaha M1, Valentino Rossi acreditava que o MotoGP não tinha nenhum desafio à sua altura.

Valentino Rossi em Yamaha M1
O momento em que Valentino Rossi recebeu a bandeira de xadrez aos comandos da mota que não vencia.

Honra seja feita ao, na altura, jovem italiano de cabelo encaracolado, que se auto-intitula “The Doctor”: nunca teve medo de desafios. Foi por isso que quando o telefone tocou em 2004, Valentino Rossi disse «sim» a um convite muito especial.

Do outro lado da linha estava Luca di Montezemolo, presidente de Scuderia Ferrari, com um convite irrecusável: testar um Fórmula 1. E só quem não conhece a sede por vitórias de Valentino Rossi é que poderá achar que o piloto italiano aceitou testar um Fórmula 1 apenas por diversão.

Definitivamente, Valentino Rossi não tinha ido apenas ver «a bola»…

Primeiro teste. Schumacher boquiaberto

O primeiro teste de Valentino Rossi aos comandos de um Fórmula 1 aconteceu no circuito de testes da Ferrari, em Fiorano. Naquele teste privado, Rossi partilhou a garagem com outro piloto, outra lenda, outro campeão: Michael Schumacher, heptacampeão do mundo de Fórmula 1.

Valentino Rossi com Michael Schumacher
A amizade entre Rossi e Schumacher foi uma constante ao longo dos anos.

Luigi Mazzola, na altura um dos engenheiros da Scuderia Ferrari incumbido por Ross Brawn de aferir a competitividade de Valentino Rossi, recordou recentemente na sua página de Facebook o momento em que o italiano saiu pela primeira vez das boxes da equipa.

Na primeira tentativa, o Valentino deu umas 10 voltas à pista. Na última volta, conseguiu um tempo incrível. Lembro-me que o Michael Schumacher, que estava sentado ao meu lado a olhar para a telemetria, ficou admiradíssimo, quase incrédulo.

Luigi Mazzola, engenheiro da Scuderia Ferrari

O tempo não era impressionante apenas pelo simples motivo de Rossi nunca ter testado um Fórmula 1. O tempo era impressionante mesmo em comparação direta com os tempos obtidos pelo campeão alemão, Michael Schumacher.

Valentino Rossi com Luigi Mazzola
“Quando Ross Brawn me chamou ao escritório e me disse que tinha sido incumbido pelo Luca di Montezemolo de ajudar e avaliar Valentino Rossi como piloto de F1, soube imediatamente que era uma oportunidade única”, escreveu Luigi Mazzola no seu Facebook.

A imprensa especializada entrou em delírio e estava lançada uma série de testes, “pelo menos sete testes” recordou Luigi Mazzola, na tentativa de apurar quão competitivo seria Valentino Rossi.

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Valentino Rossi, teste na Fórmula 1 com Ferrari
A primeira vez que Valentino Rossi testou um Fórmula 1, o capacete foi emprestado por Michael Schumacher. Na imagem, o primeiro teste do piloto italiano.

Em 2005, Rossi regressou a Fiorano para mais um teste, mas a prova dos nove ainda estava para vir…

Mas antes de continuar esta história, importa recordar um facto interessante. Ao contrário do que poderíamos pensar, Valentino Rossi não começou a sua carreira no motociclismo, foi no Karting.

Valentino Rossi kart

O objetivo inicial de Valentino Rossi era alinhar no Campeonato Europeu de Karting, ou no Campeonato Italiano de Karting (100 cm3). Porém, o seu pai, o ex-piloto de 500 cm3, Grazziano Rossi não conseguia suportar os custos desses campeonatos. Foi nessa altura que Valentino Rossi ingressou nas minimotas.

Além do Karting e da Fórmula 1, Valentino Rossi também é um adepto dos ralis. Chegou a alinhar numa prova do Campeonato do Mundo de Ralis aos comandos de um Peugeot 206 WRC em 2003, e em 2005 venceu um tal de Colin McRae no Monza Rally Show. Alias, desde então que Valentino Rossi é presença assídua nesta prova de ralis.

Valentino Rossi, Ford Fiesta WRC
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O momento da verdade. Rossi no tanque dos tubarões

Em 2006, Rossi recebeu um novo convite para testar um Fórmula 1 da Ferrari. Desta vez era ainda mais a sério, não era um teste privado, era uma sessão de testes oficiais de pré-temporada em Valência, Espanha. Era a primeira vez o piloto italiano ia medir forças diretamente com os melhores do mundo.

Teste no Ferrari Fórmula 1

Na prática, um lago de tubarões onde habitavam nomes como Michael Schumacher, Fernando Alonso, Jenson Button, Felipe Massa, Nico Rosberg, Juan Pablo Montoya, Ralf Schumacher, Robert Kubica, Mark Webber e por aí em diante.

Eu não lhe dei nenhum conselho, ele não precisa

Michael Schumacher

Nesse teste em Valência, Rossi colocou em sentido muitos destes tubarões. No final do segundo dia de testes, Rossi alcançou o 9º melhor tempo (1min12,851s), a apenas 1,622s do Campeão do Mundo em título, Fernando Alonso e a apenas um segundo do melhor tempo de Michael Schumacher.

Luigi Mazzola com Valentino Rossi
Luigi Mazzola, o homem que orientou Valentino Rossi na sua aventura pela Fórmula 1.

Infelizmente, estes tempos não permitiram uma comparação direta com os melhores do mundo. Ao contrário dos restantes pilotos, Valentino Rossi pilotou em Valência um Fórmula 1 de 2004 — o Ferrari F2004 M — enquanto que Michael Schumacher pilotou um Fórmula 1 mais recente, o Ferrari 248 (spec 2006).

Além das melhorias em termos de chassis, do modelo de 2004 para 2006, a grande diferença entre os Ferrari de Rossi e Schumacher dizia respeito ao motor. O monolugar do italiano estava equipado com um motor V10 “limitado” enquanto que o alemão já usava um dos novos motores V8 sem restrições.

O convite da Ferrari

O ano de 2006 foi talvez o momento da história onde a porta da Fórmula 1 esteve mais aberta para o piloto italiano. Em simultâneo, foi também nesse ano que Valentino Rossi perdeu pela primeira vez um título na classe rainha, desde a introdução das MotoGP.

Foto de família, Valentino Rossi e Ferrari
Parte da família. É assim que a Ferrari considera Valentino Rossi.

Sem sabermos, os dias de Schumacher na Ferrari também estavam contados. Kimi Raikkonen juntar-se-ia à Ferrari em 2007. Rossi também tinha apenas mais um ano de contrato com a Yamaha, mas voltou a assinar com a marca dos «três diapasões» para ganhar mais dois títulos de MotoGP.

Valentino Rossi, Yamaha
Rossi ainda hoje continua a correr pela marca japonesa, depois de uma passagem de má memória pela equipa oficial da Ducati.

Depois disto, o chefe da Ferrari, Luca di Montezemolo, afirmou que teria colocado Rossi num terceiro carro se as regras o permitissem. Dizia-se que a proposta que a Ferrari apresentou efetivamente ao piloto italiano, passava por uma temporada de aprendizagem noutra equipa do Mundial de Fórmula 1. Rossi não aceitou.

Adeus Fórmula 1?

Depois de perder dois campeonatos no MotoGP, em 2006 para Nicky Hayden, e em 2007 para Casey Stoner, Valentino Rossi voltou a conquistar mais dois mundiais. E em 2008 voltou a sentar-se aos comandos de um Fórmula 1.

Valentino Rossi testou nessa altura o Ferrari da temporada 2008, nos testes de Mugello (Itália) e Barcelona (Espanha). Mas este teste, mais do que uma verdadeiro teste, parecia mais uma manobra de marketing.

Como disse Stefano Domenicali em 2010: “Valentino teria sido um excelente piloto de Fórmula 1, mas ele optou por outra via. Ele faz parte da nossa família e é por isso que quisemos dar a ele esta oportunidade.”

Estamos felizes por estarmos juntos mais uma vez: dois símbolos italianos, a Ferrari e Valentino Rossi.

Stefano Domenicali
Valentino Rossi em teste na Ferrari
Ferrari #46…

Mas talvez a derradeira oportunidade de Rossi de correr na F1 tenha ocorrido em 2009, na sequência da lesão de Felipe Massa na Hungria. Luca Badoer, o piloto que substituiu Massa nos GP’s seguintes, não deu conta do recado, e voltou a falar-se no nome de Valentino Rossi para assumir um dos Ferrari.

Falei com a Ferrari sobre correr em Monza. Mas sem testar, não fazia sentido. Já decidimos que entrar na Fórmula 1 sem testes é mais arriscado do que divertido. Não dá para entender tudo em apenas três dias.

Valentino Rossi

Mais uma vez, Rossi demonstrou que não olhava para a possibilidade de ingressar na Fórmula 1 como uma experiência. A ser, tinha de ser para tentar vencer.

E se ele tivesse tentado?

Imaginemos que esta oportunidade tinha surgido em 2007? Uma temporada em que o carro da Ferrari ganhou mais de metade das corridas – seis com Raikkonen e três com Felipe Massa. O que poderia ter acontecido? Rossi conseguiria igualar John Surtees?

Valentino Rossi, teste na Ferrari

Já imaginaram as repercussões que a chegada de Valentino Rossi teria tido na Fórmula 1? Um homem que arrasta multidões e é conhecido por milhões. Sem sombra de dúvidas, o nome maior do motociclismo mundial.

Seria uma história tão romântica que é impossível não colocar a questão: e se ele tivesse tentado?

A própria Ferrari colocou essa questão há poucos meses, num tweet com o título “What if…”.

Entrentanto, já passou mais de uma década desde que Valentino Rossi teve a possibilidade de ingressar na Fórmula 1. Atualmente, Valentino Rossi está no segundo lugar do campeonato, apenas atrás de Marc Marquez.

NA RAZÃO AUTOMÓVEL: A Fórmula 1 precisa de um Valentino Rossi

Quando lhe perguntam como é que se sente, Valentino Rossi diz que está “em plena forma” e que treina “mais que nunca para não sentir o peso da idade”. A prova de que as suas palavras são verdadeiras, é que tem batido de forma regular o piloto que deveria ser o «ponta de lança» da sua equipa: Maverick Vinales.

À marca japonesa, Valentino Rossi só pede uma coisa: uma mota mais competitiva para continuar a vencer. Rossi ainda tem mais duas temporadas para tentar alcançar o seu 10º título mundial. E só quem não conhece a determinação e o talento do piloto italiano, que ostenta o mítico número 46, é que pode duvidar das suas intenções.

Valentino Rossi em Festival de Goodwood, 2015
Esta imagem não é de um GP de MotoGP, é do Festival de Goodwood (2015). Foi assim que o maior festival do mundo dedicado aos automóveis recebeu Valentino Rossi: vestindo-se de amarelo. Não é impressionante?

Para terminar esta crónica (que já vai longa), deixo-vos com as palavras que Luigi Mazzola, o homem que assistiu a tudo isto na primeira fila, escreveu na sua página de Facebook:

Tive o prazer de trabalhar com Valentino Rossi durante dois fantásticos anos. Nos dias de teste, ele chegava à pista de calções, t-shirt e chinelos. Era uma pessoa normalíssima. Mas quando entrava na box mudava tudo. A sua mentalidade era igual à de Prost, Schumacher e de outros grandes pilotos. Recordo um piloto que arrastava e motivava toda a equipa, era capaz de dar indicações com uma precisão incrível.

Foi isto que a Fórmula 1 perdeu…

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