Covid-19

As restrições à circulação e o caos no trânsito

Ontem, um pouco por todo o país, milhares de automobilistas foram surpreendidos por operações de controlo. Um controlo que é bem-vindo, mas não desta forma.

Cumprir, ponto final. Não vou tecer considerações sobre o mérito das medidas impostas pelo Governo relativas às restrições à circulação entre concelhos entre os dias 30 de outubro e 03 de novembro para travar o contágio pelo novo coronavírus.

Temos de acreditar que todas as medidas, como esta e outras, foram pensadas até à exaustão. Porém, toda a regra tem a sua excepção. E a excepção de ontem parece-me grave demais para voltar a ser repetida.

Ontem, milhares de pessoas, após uma longa semana de trabalho, foram confrontadas com operações STOP montadas à saída dos grandes centros urbanos. Gerou-se o caos no trânsito. Filas de trânsito intermináveis provocadas artificialmente por todo o país.

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Estava entre esses milhares de pessoas. Há minha volta não vi carros com famílias prontas para um fim-de-semana, vi pessoas a tentar regressar às suas casas. Como disse, não questiono a necessidade das restrições à circulação. Mas questiono o «modos operandi» do controlo efetuado durante a tarde de ontem.

Das mensagens que troquei com amigos e das mensagem que li nas redes sociais — é uma amostra limitada, mas que não deve ser menosprezada — registei um sentimento dominante: indignação. E numa altura em que pessoas e instituições começam a acusar o cansaço (legítimo) do combate ao novo coronavírus, não podemos desbaratar os nossos esforços. Além do trânsito e do aparato mediático, duvido que se tenha alcançado mais algum propósito.

São dúvidas que não podemos voltar a alimentar. Sob prejuízo de, na eventualidade de termos de voltar a medidas mais restritivas, já se ter instalado um sentimento de aversão às medidas, ou pior, à autoridade.

Eixo Norte-Sul
Lisboa, Abril de 2020. É um equilíbrio complexo, onde a severidade das medidas tem de ter correspondência nos seus efeitos.

Por isso exige-se formas mais eficientes de combater esta pandemia. Neste caso concreto? Porque não operações STOP nos lanços de portagem e vias mais afastadas dos centros urbanos? Controlando assim, efetivamente, quem viaja para fora da sua zona de residência e permitindo a mobilidade dos milhares de pessoas que todos os dias transitam na periferia de Lisboa e Porto, em trajetos casa/trabalho/casa.

Neste combate, temos de estar todos juntos. Não nos afastem.

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