Indústria

Sergio Marchionne. Recordamos o legado do «homem forte» da Fiat

Após 14 anos na dianteira dos destinos da Fiat — posteriormente FCA —, Sergio Marchionne foi este fim de semana substituído compulsivamente por Mike Manley, CEO da Jeep. Vamos recordar o legado de uma das personalidades menos consensuais da indústria automóvel moderna.

O plano já estava traçado e tinha sido confirmado no início do mês passado: Sergio Marchionne seria substituído em 2019 na liderança do grupo Fiat Chrysler Automobiles (FCA). Mas este fim de semana, foi comunicado que Mike Manley, até agora CEO da Jeep, será o novo CEO do grupo, com efeitos imediatos.

A razão para esta súbita decisão advém do estado de saúde de Sergio Marchionne, que se agravou profundamente nos últimos dias. De acordo com as publicações italianas La Reppublica e La Stampa — que falam mesmo numa condição irreversível — Marchionne encontra-se em coma desde a passada sexta-feira. A razão por detrás da sua condição, deve-se, de acordo com comunicado da FCA, a complicações sofridas após uma intervenção cirúrgica no passado mês de junho.

Face a estes acontecimentos, vale a pena recordar alguns dos momentos mais marcantes de Sergio Marchionne enquanto CEO do Grupo FCA, desejando em simultâneo as rápidas melhoras do seu estado de saúde.

Precisam de reparar alguma coisa? Chamem o Marchionne

Sergio Marchionne nunca foi uma figura consensual — não há meio termo, ou gosta-se ou detesta-se —, sempre direto, doa a quem doer; e capaz de tomar as decisões mais difíceis com elevado sentido de pragmatismo, foi convidado a liderar os destinos da Fiat em 2004.

Um convite que foi visto na altura como a última esperança para tirar o ainda denominado Grupo Fiat do que parecia ser uma derrocada inevitável. Como a história veio a demonstrar, não foi.

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Trabalhador incansável, super exigente consigo e com todos os que o rodeavam, tratou de reorganizar a operação de todo o grupo — hierarquias inflexíveis foram simplesmente destruídas, eliminando 2000 cargos executivos no processo, por exemplo —, e conseguiu com que a GM lhe pagasse dois mil milhões de euros em 2005, para que o grupo americano não fosse obrigado a comprar a divisão automóvel do grupo italiano, fruto de um acordo firmado no ano 2000.

Eu gosto de reparar coisas e ser brusco, Fiat precisa de ser reparada agora.

Sergio Marchionne, 2004, após tornar-se CEO do Grupo Fiat
Sergio Marchionne, 2018

A Fiat voltou rapidamente aos lucros, algo que quase ninguém acreditava ser possível — Marchionne não é um “tipo dos automóveis”, mas sim um tubarão do mundo da finança. Para salvar o grupo não usou um bisturi, mas atacou o problema com uma moto-serra.

Se a recuperação do grupo Fiat pareceu milagrosa, o que dizer quando em 2009 ficou à frente de outro grupo falido, a norte-americana Chrysler, também pronta a fechar portas. Mais uma vez, Marchionne viu o potencial do grupo, principalmente da Jeep, e mesmo quando todos diziam que juntar a Fiat à Chrysler era o mesmo que ter dois pés esquerdos, ele provou o contrário.

Marchionne passou a viver, praticamente, no jato privado da FCA, com intermináveis viagens entre Turim e Detroit, para conseguir com que estes dois grupos com culturas totalmente distintas conseguissem encontrar uma forma de co-existir e crescer — no passado a Daimler e a Chrysler tentaram fundir-se e simplesmente não funcionou.

Mas Marchionne, mais uma vez, com a sensibilidade de um “rinoceronte numa loja de porcelana”, levou a dele avante e, para incredulidade de todos os analistas que previam um monumental falhanço, o grupo prosperou — a fusão dos dois grupos aconteceria em 2013, formando o que conhecemos agora como Fiat Chrysler Automobiles.

Transformou a Jeep no motor de crescimento global do grupo — vende atualmente quase dois milhões de veículos por ano, mais do dobro do que vendia em 2009 —; separou a Ram da Dodge, a equivalente à Fiat Professional, tornando-se numa das divisões mais lucrativas e poderosas do grupo — a Pick-up, é o modelo mais vendido e um dos mais lucrativos do grupo, com mais de meio milhão de unidades por ano; e tomou decisões controversas como eliminar os sedan médios (berlinas de quatro portas) da Chrysler e Dodge, devido à sua fraca rentabilidade — muito criticado na altura, vimos a Ford este ano tomar decisão semelhante.

Outras decisões tomadas, como o spin off da CNH — produz veículos agrícolas, industriais, pesados de mercadorias e passageiros (IVECO) — e Ferrari (2015), permitiram aumentar o valor do grupo como um todo, como destas duas empresas em particular. A marca do cavalino rampante quase que duplicou o seu valor nestes três anos. A próxima a sair da esfera da FCA será a Magnetti-Marelli, decisão anunciada em junho.

O spin off da Ferrari permitiu os fundos para a reinvenção da Alfa Romeo que, finalmente, tem o hardware certo para levar a luta para outros premium alemães. Vimos a Maserati crescer desmesuradamente — de 6-7000 unidades por ano, vende agora 50 mil — tem mais modelos, motorizações Diesel e até um SUV.

Por outro lado, vimos outras marcas sofrer por falta de novos modelos: Fiat, Chrysler e Dodge revelam grandes lacunas nas suas gamas. E a Lancia? Bem, num grupo com tantas marcas e com fundos limitados, prioridades tiveram de ser definidas. A histórica marca italiana simplesmente não tem o potencial global de uma Alfa Romeo ou Maserati, pelo que continua a definhar, com apenas um modelo (Lancia Y) e presente apenas num mercado (Itália).

E agora?

É impossível concordar com todas as medidas de Sergio Marchionne, sobretudo as relativas aos automóveis em si, mas a sua saída deixa ao seu sucessor, Mike Manley, um grupo muito mais forte de quando entrou. A FCA é lucrativa e este ano conseguirá livrar-se de todas as dívidas que tinha. A saúde financeira nunca foi tão robusta, apesar de ainda não ser altura de “abrir o champanhe”.

Mike Manley
Mike Manley, Ex-CEO da Jeep e agora CEO da FCA.

A indústria automóvel passa pelo seu maior período de mudança desde que o automóvel foi criado. Eletrificação, conetividade e condução autónoma vão reinventar não só o automóvel, como todo o seu modelo de negócio. Na última apresentação aos investidores, a 1 de junho, permitiu-nos ver como o grupo usará as suas divisões premium e Ram, aquelas com maior potencial de lucro líquido, para “atacar” esta nova realidade.

Caberá a Mike Manley, o arquiteto do crescimento exponencial da Jeep na última década, levar a bom porto os ambiciosos planos e objetivos encetados por Sergio Marchionne, um CEO já com estatuto de lenda na indústria, moldando um grupo mundial à sua medida. Conseguirá Mike Manley preencher o enorme vazio deixado por Marchionne?

Desejamos as rápidas melhoras a Sergio Marchionne.

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