Dakar 2018

Do Peugeot 205T16 ao 3008 DKR. A história (quase) completa

A Peugeot parte para o Dakar 2018 como grande favorito à vitória final. Mas vale a pena recuar até 1987, ano em que a Peugeot estreou-se no Dakar... a vencer!

Depois dos camiões do Dakar (aqui), hoje são os carros do Dakar. A minha proposta é recuarmos até ao longínquo ano de 1987,  altura em que muitos de nós ainda não era sequer nascido. Não é o meu caso, confesso. Em 1987 já tinha 1 ano de idade. Já era capaz de andar sozinho, engolir pilhas AAA (aconteceu uma vez) e dizer palavras tão complexas como “dada”, “piupiu”, “gugu” e “diferencial autoblocante”.

Objetivo desta viagem no tempo? Visitar a história da Peugeot no Dakar. Até porque este é o último ano em que a Peugeot participa no Dakar como equipa oficial — há quem diga que é para voltar às 24 Horas de Le Mans. Portanto mais um bom motivo para esta viagem de 31 anos. Talvez valha os 10 minutos de leitura. Talvez…

1987: chegar, ver e vencer

A Peugeot não tinha propriamente planos para correr no Dakar em 1987. Simplesmente aconteceu. Como vocês sabem, o Grupo B foi extinto em 1986 — todos os acontecimentos explicados aqui. De um momento para o outro, a marca francesa ficou com os Peugeot 205T16 parados na “garagem”, sem saber o que fazer com eles.

Peugeot Dakar história
O Peugeot 205 T16 Grupo B de 1986.

Foi nessa altura que Jean Todt, atual presidente da FIA, fundador e durante muitos anos responsável máximo da Peugeot Talbot Sport, se lembrou de alinhar com os 205T16 no Dakar. Excelente ideia.

Mal comparada, a estreia da Peugeot no Dakar foi como o meu nascimento… não foi planeado. Destes dois eventos, apenas um correu bem. Conseguem adivinhar qual foi?

Ari Vatanen, que conhecia o Peugeot 205T16 como ninguém, era o ponta de lança da equipa Peugeot Talbot Sport. Cabia a Vatanen a responsabilidade máxima de defender as cores da marca francesa no Dakar. E não podia ter começado de pior maneira. Ainda durante o prólogo (uma etapa “a feijões”, que serve para determinar a ordem de partida), Ari Vatanen teve um acidente. Fruto desta entrada triunfal, o Peugeot de Vatanen arrancou para a 1ª etapa do Dakar num fantástico 274º lugar da geral.

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O Peugeot 205 T16 já em modo «Dakar», com as cores da Camel.

Mas na Peugeot ninguém deitou a toalha ao chão — nem o Sr. Todt deixava. Apesar da estreia fantástica só-que-não, a estrutura da Peugeot Talbot Sport, composta por profissionais experientes que transitavam do Mundial de Ralis, depressa entrou no ritmo da mítica prova africana.

Quando o Dakar entrou em África, já Ari Vatanen perseguia os líderes da prova. Ao fim de mais de 13 000 km de prova, junto ao oceano Atlântico, era o Peugeot 205T16 que chegava em primeiro lugar a Dakar. Missão cumprida. Chegar, capotar e vencer. Ou em latim “veni, capoti, vici“.

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Areia no caminho? Apanho-a toda…

1988: Agarrem esse ladrão!

Pelo segundo ano consecutivo, a Peugeot entrou de rompante no Dakar. O Peugeot 405 T16 (que era uma evolução do 205 T16) entrou a vencer logo em França e não largou mais o topo da tabela classificativa. Até ter acontecido um imprevisto…

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O novo brinquedo da Peugeot.

Jean Todt tinha tudo planeado, ou pelo menos, tudo quanto é possível planear numa prova cheia de imprevistos. Ari Vatanen liderava confortavelmente o Dakar à 13ª etapa (Bamako,Bali), quando o seu carro foi roubado durante a noite. Alguém teve a brilhante ideia de roubar um carro de competição e achar que podia safar-se. Um Peugeot, não é? Ninguém vai dar conta…

Escusado será dizer que não se safou, nem o ladrão (que abandonou o 405 numa lixeira), nem Ari Vatanen. Quando o carro foi encontrado pelas autoridades já era tarde demais. Vatanen foi desqualificado por não comparecer a tempo à partida, e a vitória sorriu ao seu mochileiro, Juha Kankkunen, que conduzia um Peugeot 205T16 de assistência rápida.

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Acabou por ser o Peugeot 205 T16 a reclamar a vitória. O plano não era esse.

1989: Um questão de sorte

Em 1989 a Peugeot surgiu no Dakar com uma armada ainda mais poderosa, constituída por dois Peugeot 405 T16 Rally Raid ainda mais evoluídos. Com mais de 400 cv de potência, a aceleração dos 0-200 km/h cumpria-se em pouco mais de 10 segundos.

Ao volante, encontravam-se duas lendas do desporto motorizado: o incontornável Ari Vatanen e… Jacky Ickx! Duas vezes vice-campeão do mundo de Fórmula 1, vencedor das 24 Horas de Le Mans seis vezes e vencedor do Dakar em 1983.

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As entranhas da máquina.

Escusado será dizer que a Mitsubishi, a única equipa que fazia frente à Peugeot, ficou a contemplar a disputa a partir do degrau mais baixo do pódio. Lá na frente, Ari Vatanen e Jackie Ickx lutavam pela vitória a mais de 200 km/h. Era o tudo por tudo.

O equilíbrio entre os dois pilotos da Peugeot era tão grande que o Dakar de 1989 transformou-se num sprint.

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Jackie Ickx em modo «faca nos dentes».

Jean Todt cometeu um erro grave: meteu dois galos dentro da mesma capoeira. E antes que esta luta fratricida entregasse de bandeja a vitória ao «caracol» da Mitsubishi, o diretor da equipa decidiu resolver o assunto atirando uma moeda ao ar.

Vatanen teve mais sorte, escolheu o lado certo da moeda e ganhou o Dakar, apesar de ter capotado duas vezes. Os dois pilotos terminaram a prova com menos de 4 minutos de diferença.

1990: Adeus da Peugeot

Em 1990 a história voltou a repetir-se: a Peugeot ganhou o Dakar com Ari Vatanen aos comandos. Um problema de navegação e um encontro imediato com uma árvore quase deitou tudo a perder, mas o Peugeot 405 T16 Grand Raid conseguiu acabar a prova.

Era o fim glorioso de uma era de domínio absoluto da Peugeot. Uma era que começou como acabou: com sabor a vitória.

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A derradeira evolução do 405 T16 Grand Raid.

Foi também a última prova do mítico Peugeot 405 T16 Grand Raid, um carro que ganhou todas as competições onde alinhou. Inclusivamente Pikes Peak, com Ari Vatanen ao volante — quem mais! Essa vitória em Pikes Peak deu aso à realização de um dos mais sublimes filmes de rali de sempre. Podes ver aqui.

2015: tirar a temperatura

Após um interregno de 25 anos, a Peugeot Sport regressou ao Dakar. O mundo aplaudiu de pé. Na bagagem, a Peugeot Sport trazia mais de duas décadas de experiência nos campeonatos do mundo de Fórmula 1 (não correu bem), de rali e de resistência. Ainda assim, foi um regresso complicado.

Com o Peugeot 405 T16 Rally Raid a servir de “peça de museu”, coube ao novato Peugeot 2008 DKR defender as cores da marca. Porém, o carro de apenas duas rodas motrizes animado por um motor Diesel 3.0 V6 não estava (ainda) à altura da missão.

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A primeira geração do 2008 DKR parecia um Smart Fortwo com esteróides.

Os treinadores de bancada riram-se… “ir para o Dakar num carro de tração traseira? Estúpidos!”.

Ao volante do 2008 DKR estava uma equipa de sonho: Stephane Peterhansel, Carlos Sainz, Cyril Despres. Nomes de luxo que ainda assim levaram uma tareia monumental.

Para Carlos Sainz, o Dakar durou apenas cinco dias sendo afastado na sequência de um aparatoso acidente. Stephane Peterhansel — também conhecido por “Sr. Dakar” — terminou num desapontante 11º lugar. Quanto a Cyril Despres — vencedor do Dakar em duas rodas — não foi além do 34º lugar devido a problemas mecânicos.

Tinha tudo para correr bem mas correu mal.

Não foi, de todo, o regresso esperado. Mas já dizia o povo: quem ri por último ri melhor. Ou em francês “celui qui rit le dernier rit mieux” — o Google tradutor é uma maravilha.

2016: lição estudada

O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita. A Peugeot não acreditou neste adágio popular e em 2016 manteve a «fé» no conceito original do 2008 DKR. A Peugeot acreditava que a fórmula estava certa, a execução é que tinha sido uma desgraça.

Por isso a Peugeot alinhou no Dakar de 2016 com o conceito de 2015 totalmente reformulado.

Consideravelmente mais baixo e mais largo que o 2008 DKR de 2015.

A Peugeot ouviu as queixas dos seus pilotos e melhorou os pontos negativos do carro. O motor Diesel 3.0 litros V6 twinturbo tinha agora uma entrega de potência mais cheia a baixas rotações, o que aumentou consideravelmente a capacidade de tração.

Por seu turno, o chassis de 2016 era mais baixo e mais largo, o que aumentou a estabilidade face ao modelo de 2015. A aerodinâmica também foi totalmente revista e a nova carroçaria permitia ainda melhores ângulos de ataque aos obstáculos. A suspensão não ficou esquecida, e também foi redesenhada a partir de uma folha em branco, com o objetivo de distribuir melhor o peso pelos dois eixos e tornar a condução do 2008 DKR menos exigente.

Em termos de pilotos, foi adicionado um elemento ao trio maravilha: o 9x Campeão do Mundo de ralis, Sebastien Loeb. O lendário piloto francês entrou no Dakar «ao ataque» até ter percebido que para ganhar o Dakar, primeiro é preciso terminar.

Sebastien Loeb — Alguém tem fita cola por aí?

Devido ao acidente de Loeb, a vitória acabou por sorrir à “raposa velha” Stephane Peterhansel que ganhou o Dakar por uma confortável margem de 34 minutos. Tudo isto depois de um arranque muito cauteloso de Peterhansel, a contrastar com o ímpeto de Loeb. A Peugeot estava de volta e em força!

2017: Um passeio no deserto

Claro que 2017 não foi um passeio no deserto. Minto, por acaso até foi… a Peugeot fez o pleno ao colocar três carros nos três primeiros lugares.

Até podia escrever que foi uma vitória “suada” mas também não foi… pela primeira vez na história do Dakar, a Peugeot equipou os seus carros com ar-condicionado.

Em 2017 o nome do carro também mudou: passou de Peugeot 2008 DKR para Peugeot 3008 DKR, numa alusão ao SUV da marca. Claro que estes dois modelos são tão parecidos como o Dr. Jorge Sampaio, ex-Presidente da República, e a Sara Sampaio, um dos “anjos” da Victoria Secret  — o equivalente à Pininfarina da roupa íntima feminina. Isto é, partilham o nome e pouco mais.

Adivinhem qual deles é o Dr. Jorge Sampaio.

Adicionalmente, devido às mudanças no regulamento do Dakar em 2017, a Peugeot modificou o motor para reduzir os malefícios da restrição na admissão que afetou os carros com duas rodas motrizes. Apesar das alterações nos regulamentos, o domínio demolidor da Peugeot face à concorrência continuou — apesar da perda de potência e do ar-condicionado.

O Dakar 2017 foi também uma bonita reedição da batalha fratricida da equipa Peugeot Sport em 1989 — lembram-se? —, desta feita com Peterhansel e Loeb como protagonistas. A vitória acabou por sorrir a Peterhansel. E desta vez não houve ordens de equipa nem «moeda ao ar» — pelo menos na versão oficial dos acontecimentos.

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Rumo a mais uma vitória.

2018: a última volta rapazes

Como disse no início do artigo, 2018 será o último ano da Peugeot no Dakar. A última volta para a «equipa maravilha» Peterhansel, Loeb, Sainz e Cyril Despres.

O Dakar 2018 não será uma edição tão fácil como a última. Os regulamentos voltaram a “apertar” e foi concedida maior liberdade técnica ao carros com tração integral para nivelar a competitividade — nomeadamente mais potência, menos peso e maior curso de suspensão. O sonho molhado de qualquer engenheiro.

Peugeot Dakar história
Cyril Despres a testar a versão 3008 DKR Maxi deste ano.

Por seu turno os carros de tração traseira ganharam maior largura de eixos. A Peugeot voltou a refazer as suspensões e Sesbastien Loeb já disse à impressa que o novo Peugeot 3008 DKR 2018 “é mais estável e fácil de pilotar”. Pouco depois de ter dito à isto à imprensa, capotou! A sério…

Depois de amanhã, começa o Dakar 2018. E como disse um dia Sir. Jack Brabham “when the flag drops, the bullshit stops!”. Veremos que leva a melhor e se a Peugeot é capaz de reeditar a despedida de 1990. Não será fácil mas não apostem contra os franceses…

Sabes responder a esta?
Qual é marca do camião que venceu o Dakar em 2017?
Não acertaste.

Mas podes descobrir a resposta aqui:

Camiões do Dakar. Tudo o que queres saber sobre estes «monstros»