Shiro Nakamura. O futuro da Nissan nas palavras do seu histórico chefe de design

Shiro Nakamura retira-se da Nissan após 17 anos. Foi chefe de design da marca e mais recentemente líder de todo o grupo. É agora substituído por Alfonso Albaisa, que sai da Infiniti.

Foi Carlos Ghosn, o diretor executivo da Aliança Renault Nissan, quem trouxe Shiro Nakamura para a Nissan em 1999, saindo da Isuzu. Rapidamente Nakamura passou a ser uma peça fundamental no mudar de rumo da marca nipónica. Foi sob a sua supervisão que obtivemos carros que marcaram a indústria, como o Nissan Qashqai ou o “Godzilla” GT-R. Também foi ele que nos trouxe o radical Juke, Cube e o elétrico Leaf. Mais recentemente, supervisionou de tudo um pouco dentro do grupo Nissan, desde a low-cost Datsun à Infiniti.

Em jeito de despedida, Shiro Nakamura, agora com 66 anos, em entrevista à Autocar durante o último Salão de Genebra, referiu-se ao futuro da Nissan e à passagem de testemunho dos projetos que estavam a seu cargo.

O futuro do Nissan Qashqai

2017 Nissan Qashqai em Genebra - frente

Segundo Nakamura, a próxima geração será um desafio ainda maior, porque tem de evoluir, mas sem perder o que faz do Qashqai um Qashqai. O crossover japonês ainda é o líder absoluto do mercado, pelo que não existe necessidade de o reinventar. Nakamura refere que não é apenas uma questão de proteger os seus pontos fortes, terão de ir mais longe.

Genebra foi precisamente o palco de apresentação do restyling deste modelo, ainda supervisionado por Nakamura. Ou seja, o sucessor só será apresentado daqui a dois ou três anos. Segundo o designer, o novo modelo já está praticamente terminado, isto é, o design já está praticamente “congelado”.

Quanto ao interior, onde o Nissan Qashqai tem sido alvo de algumas críticas, Nakamura refere que é onde assistiremos às maiores mudanças. Será o interior que vai refletir as novidades tecnológicas, e o destaque mais visível será o tamanho crescente dos ecrãs.

2017 Nissan Qashqai em Genebra - traseira

O renovado Qashqai recebeu o ProPilot, a tecnologia da Nissan para veículos autónomos. De momento está no nível um, mas o sucessor vai integrar mais funções que o colocarão no nível dois. Pelo que o design do HMI (Human Machine Interface ou Interface Homem Máquina) está a ser desenhado de raiz tendo em consideração o maior papel que a condução autónoma terá no futuro.

É de esperar um interior com mais e avançadas funções, mas não veremos mais botões que os atuais. O aumento das dimensões do ecrã não só permitirá conter mais informação, como deixa adivinhar que o acesso a novas funções possa ser conseguido exclusivamente através do seu uso.

O novo Nissan Juke

Passando para o outro crossover de sucesso da marca, sob o qual já nos tínhamos debruçado em mais pormenor, o sucessor do Juke deverá ser conhecido ainda este ano. Segundo Nakamura, “o Nissan Juke tem de manter a sua distinção e funkiness. Tentámos ao máximo manter a sua peculiaridade. Daremos um grande passo com o design, mas continuará a ser reconhecido como um Juke. Os elementos chave têm de se manter como o carácter da face ou as proporções. Os carros pequenos são mais fáceis, podem ser bastante agressivos .”

Haverá um novo “Godzilla”?

2016 Nissan GT-R

Muito se tem especulado sobre um sucessor do Nissan GT-R, e o tópico de discussão costuma girar à volta da hibridização da nova geração. No entanto, pelas declarações de Nakamura, parece que a questão mais correta seria “existirá mesmo um sucessor?”. O atual modelo, apesar das evoluções anuais, celebra este ano o seu 10º aniversário desde que foi apresentado. A última atualização viu o GT-R ganhar um novo e muito necessário interior.

Nakamura refere-se ao GT-R como um Porsche 911, isto é, uma contínua evolução. Se aparecer um novo, tem de ser melhor em tudo. Só quando não for possível melhorar o atual modelo é que avançarão para uma renovação completa, e segundo o designer, o GT-R ainda não está a envelhecer. De momento todos os GT-R continuam a vender bem.

Outro modelo em dúvida: o sucessor para o 370Z

2014 Nissan 370Z Nismo

Carros desportivos de preço mais ou menos acessível não têm tido vida fácil. É difícil justificar financeiramente o desenvolvimento de um novo coupé ou roadster de raiz, quando os volumes de vendas costumam ser tão pequenos. Para contornar essa situação, foram sendo estabelecidas parcerias entre vários construtores: Toyota GT86/Subaru BRZ, Mazda MX-5/Fiat 124 Spider e os futuros BMW Z5/Toyota Supra são o melhor exemplo desta realidade.

Se a Nissan avançará ou não para um modelo de negócio semelhante, não sabemos. Nakamura também não tem nada a acrescentar sobre um eventual sucessor do Z. Segundo o designer, atualmente é complicado encontrar o conceito correto. O mercado é pequeno para coupés de dois lugares e só mesmo a Porsche parece encontrar clientes suficientes. Existem já muitas propostas para um sucessor do Z, mas são mais exercícios do género “e se…” do que propostas sérias para um sucessor.

Talvez seja necessária uma nova abordagem. Nissan Bladeglider?

“O Bladeglider é apenas uma experiência, não está planeado para produção. Mesmo que consigamos produzir o número certo de unidades ao preço correto, não sei se o mercado é grande o suficiente. No entanto, é um carro interessante – um verdadeiro três lugares”, refere Shiro Nakamura.

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Para quem não conhece o Nissan Bladeglider, trata-se de um estudo para um desportivo elétrico. Desenvolvido como hipotético modelo de estrada do fenomenal Deltawing, o Bladeglider tem no seu formato em delta (quando visto de cima) a sua principal característica. Ou seja, a frente é muito mais estreita que a traseira.

Já foram concebidos dois protótipos do Bladeglider, com a mais recente iteração a ser conhecida durante os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro em 2016. O modelo permite transportar três ocupantes, com uma posição central de condução, à la McLaren F1.

Por falar em elétricos, o Nissan Leaf será acompanhado por mais modelos

Aqui, Nakamura não tem dúvidas: “Haverá muitos tipos de veículos elétricos no futuro. O Leaf é mais um modelo, não uma marca”. Como tal, veremos não só mais modelos elétricos na Nissan como também a Infiniti os terá. Em primeiro lugar, será apresentado o novo Leaf em 2018, prontamente seguido por outro modelo, de diferente tipologia.

Os citadinos são os veículos ideais para um grupo motriz elétrico, mas não devemos ver nenhum modelo nesses moldes a breve prazo. Nakamura assume que gostaria de trazer um dos kei cars japoneses para a Europa, mas tal não é possível devido à diferença de regulamentos. Segundo ele, um kei car faria um excelente citadino. No futuro, a haver um carro citadino por parte da Nissan, Nakamura admite que poderia ser um elétrico.

O designer também se refere à Nismo. Qashqai Nismo no horizonte?

Shiro Nakamura é da opinião que existe a oportunidade para uma gama completa de modelos sob a marca Nismo. Até um Qashqai Nismo poderia ser equacionado, mas teria de haver uma revisão completa do crossover: motor e suspensão teriam de oferecer outro patamar de performance e competências. Não se pode resumir apenas a mudanças cosméticas. De momento, a Nismo tem versões do GT-R, 370Z e do Juke, assim como do Pulsar.

O sucessor de Shiro Nakamura é Alfonso Albaisa, que assume agora as rédeas como diretor criativo da Nissan, Infiniti e Datsun. Até agora, Albaisa ocupava o cargo de diretor de design da Infiniti. A sua anterior posição passa agora a ser ocupada por Karim Habib, proveniente da BMW.

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