Último tango

Um fim de semana de despedida

Talvez seja a última vez que escrevo sobre a atual geração do Renault Mégane R.S. Trophy. Por isso deixei a equipa da Razão Automóvel para trás e fui dar uma volta com ele. O último Tango.

“Guilherme, este fim-de-semana vamos fotografar o Trophy?”. “Não Maccario, não vamos” — respondi eu ao Gonçalo Maccario mesmo antes de ele continuar a falar. “Este fim-de-semana vai ser só a dois”.

Peguei em meia dúzia de peças de roupa, pus de parte algum dinheiro para o combustível, e arranquei em direção à Serra da Arrábida, tendo como último destino o meu amado Alentejo.

Como sabem, já saiu a nova geração do Mégane e é só uma questão de tempo até que o R.S. (nas imagens) meta os papéis para a reforma. Face a isto, tínhamos de dançar um «último tango».

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Porquê? Porque o Renault Mégane R.S. Trophy é no meu entender (e salvo melhor opinião…) o FWD mais visceral, transcendente e apoteótico que já conduzi.

E olhem que já conduzi praticamente todos. Só me falta mesmo o novo Type R.

Para não ser injusto com o SEAT Leon CUPRA 280 ou com o Golf R, digo isto esquecendo as cotas de habitabilidade, o lado prático, o equipamento, etc. Ou dito de outra forma: no que toca a sensações puras de condução, o R.S. Trophy é o «rei do pedaço». Pode até nem ser o mais rápido. Mas nas sensações é.

Abaixo de 50 000 euros é praticamente impossível encontrar um modelo capaz de nos fazer suar tanto a camisola como faz o R.S. Trophy.

Podem até haver outros modelos mais divertidos e acessíveis de conduzir (porque há), mas o único que desafia efectivamente os nossos sentidos e nos faz agarrar no volante como se o dia de amanhã dependesse disso — e depende mesmo… — é este.

Por tudo isto não podia deixá-lo ir sem o conduzir mais uma vez. As fotografias estão uma desgraça porque foram tiradas com um telemóvel com a resolução de uma «batata».

renault megane r.s. trophy

Saí de casa algo tarde mas cheguei à Arrábida algo cedo (o Mégane tem este dom…).

Com a Serra da Arrábida cheia de pessoas e ciclistas desliguei por breves momentos o modo «corrida» no botão RS (do lado esquerdo do volante) e decidi perder a respiração com as paisagens, não com as travagens. Segurança acima de tudo.

Além do mais, com o escape no modo «normal» senti que já não interferia com os rituais de acasalamento das cigarras e demais insectos que povoam esta bela reserva natural.

Por brincadeira, apenas assustei um casal de namorados parado à beira da estrada com um festival de rateres. E nem cobrei bilhete. Quem é amigo quem é?

Chegado a Setúbal parei para tomar um café (0,60€) e para reabastecer o Mégane (60€…). Fiquei à espera que a noite e o frio fizessem a Serra da Arrábida ficar deserta. Era hora de… vocês sabem. Braaaaaap, fssiiuuuu!

Vamos às sensações! Sabendo de antemão que não vou dizer nada de novo, o chassi Cup do Mégane R.S. Trophy é simplesmente divinal.

Haja coragem para explorá-lo e ele responde de uma forma quase telepática.

As suspensões Öhlins e os travões Brembo são simplesmente infatigáveis e casam na perfeição com todo o conjunto. Melhor parceiro para um tango de borracha queimada e beijos no apex? É difícil.

A velocidade que o R.S. Trophy leva para o interior das curvas quase desafia as leis da física.

“Para colmatar estas rugas, a Renault Sport (um bem haja para vocês rapazes!) equipou o Trophy com um fantástico sistema de escape da Akrapovic.”

Sabem aquele compasso de espera que fazemos nas transições direita esquerda (ou vice-versa) à espera do reequilíbrio das massas para inserir novamente o carro na trajetória pretendida? No Mégane R.S. Trophy não é preciso esperar. É pensar e executar! Assim mesmo. Sem mais nem menos. Pelo meio sustemos a respiração mas isso faz parte da experiência.

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Nesta equação de performances avassaladoras, devo dizer que após ter experimentado outras motorizações 2.0 Turbo a gasolina, o único elemento que começa a acusar o peso dos anos neste conjunto é mesmo o motor.

Os 275 cv chegam e sobram mas o motor tem um regime demasiado curto e a caixa ressente-se por isso — uma mudança demasiado baixa interfere com o balanço do carro em apoio (fica muito preso) e uma mudança mais alta castiga-nos à saída da curva (o motor sai da zona ideal de rotação).

renault megane r.s. trophy

Para colmatar estas rugas, a Renault Sport (um bem haja para vocês rapazes!) equipou o Trophy com um fantástico sistema de escape da Akrapovič. Quando o coletor de escape aquece há rateres para todos os gostos (menos para quem não gosta…).

As saudades que vou ter(!!!) dos olhares de reprovação de algumas pessoas à chegada deste Mégane amarelo a um semáforo!

Futuro

Falando agora do futuro. Como sabem, estive na apresentação internacional do novo Mégane que decorreu em Portugal. Aproveitei para perguntar à equipa de desenvolvimento do novo Renault Mégane, como é que vai ser o próximo R.S. mas eles fecharam-se em copas — podem encontrar algumas rumores aqui.

Seja como for, a equipa da Renault Sport vai ter de se esforçar muito para superar esta geração: chassi magnifico, caixa manual, suspensões «pata negra», diferencial mecânico, direção fantástica. Renault Sport, não facilitem p-o-r f-a-v-o-r!

Quanto a mim, vou sobrevivendo como posso à tentação de comprar um R.S., novo ou usado, tanto faz. Com 30 anos de idade ainda tenho ossos e coração para aguentar o convívio diário com esta máquina — que não sendo confortável, também não é tão desconfortável quanto isso.

O problema são os consumos, acima de 15 l/100km em ritmos rápidos e algures entre 8 ou 9l/100 km em ritmos normais. Não vos posso dar um número concreto porque sucumbi sempre à tentação do “ok, só mais estas curvas!”. Não levem a mal mas era uma despedida…

Se tens um, parabéns. Odeio-te.

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