Salão Genebra: O cenário perfeito para uma guerra silenciosa

Os expositores são trincheiras, os carros as armas e o Salão Internacional de Genebra o palco de guerra onde todos os anos os principais construtores medem forças. Numa guerra silenciosa mas declarada!

Há coisas que só presenciando é possível constatar. Uma delas é guerra silenciosa que durante vários dias decorreu no Salão Internacional de Genebra. O certame por excelência, onde as principais marcas de automóveis se confrontam, num espetáculo de luzes, glamour e mulheres bonitas, onde na verdade são os carros que constituem a «artilharia pesada». Bela mas pesada!

A estratégia é igual para todos: cada um traz o que de melhor sabe fazer e apresenta-o da forma mais espetacular e surpreendente que o dinheiro pode pagar.

É uma guerra aberta. Onde o que importa é fazer sobressair não só a qualidade do produto mas a superioridade do mesmo face à concorrência. Acham que a apresentação no mesmo evento, não de um, nem de dois, mas de três(!) hiper-desportivos foi obra do acaso? Claro que não…

Silêncio... ou acordam a besta!
Silêncio… ou acordam a besta!

Lamborghini, Ferrari e Mclaren procuraram claramente o confronto. Numa guerra que claramente se irá estender durante vários meses, quiça anos, em comparativos infindáveis, nas variadas condições e em diferentes versões dos modelos agora apresentados.

Cada construtor escolheu uma estratégia diferente

A Lamborghini quis surpreender. Ninguém espera pelo «Veneno». A Ferrari por seu lado foi mostrando o seu LaFerrari aos poucos e poucos. E a Mclaren, pelo contrário, chegou a Genebra já com o jogo praticamente todo em cima da mesa.

Nas marcas mais «comuns», estratégias diferentes mas com o mesmo fim: o confronto! BMW e Mercedes assentaram «arraiais» uma mesmo ao lado da outra. Classe A de um lado, BMW Serie 1 do outro. ML de um lado Serie 5 do outro. E assim sucessivamente, apenas com um corredor de 3 metros de largura a separar as águas. Juro que senti a tensão naquela zona de fronteira!

Avaliação do inimigo: Fita métrica em punho e apalpadelas em «todo o lado»

Mclaren P1

Ainda mal tinham sido abertas as portas à imprensa, já os primeiros tiros começavam a ser disparados. Em sentido figurativo claro! Do nada, o mundo estava virado do avesso: japoneses em força nos expositores alemães e alemães em força no expositores japoneses, americanos por todos os lados e coreanos a mesma coisa. Enfim, uma «salada russa».

Em comum quase tudo, excepto a nacionalidade. Todos se faziam acompanhar discretamente por fitas métricas — algumas a laser para não dar tanto nas vistas e todos com o mesmo propósito: medir quotas de habitabilidade, distancia entre eixos, altura ao solo da concorrência… tudo!

Já sem a fita e apenas com recurso às mãos apertavam, rodavam e apalpavam tudo o que era superfícies e botões, em locais que não lembraria a ninguém. Excepto a eles claro… Depois era vê-los a trocar impressões entre si e a anotar tudo em pequenos blocos de notas.

O novo miúdo do bairro: Os chineses da Qoros

Qoros 3 Sedan a ser observado por um grupo de alemães muito atentos...
Qoros 3 Sedan a ser observado por um grupo de alemães muito atentos…

Lembram-se da curiosidade que se gerava sempre que aparecia algum miúdo novo na escola?

De onde vem? Como se chama? Será que sabe jogar à bola?

Foi mais ou menos assim que os construtores generalistas receberam a nova marca chinesa Qoros. Uma marca que promete níveis de qualidade, fiabilidade e segurança ao «preço da china». Nunca esta expressão assentou tão bem!

Ora, com tantas promessas é natural que as restantes marcas ficassem com curiosidade em conhecer o Qoros 3 Sedan. Seriam todas essas promessas verdade ou apenas bluff? Para tirar todas as dúvidas, um batalhão de engenheiros, vindos dos «quatro cantos» do salão inundaram o relativamente pequeno espaço da Qoros. E muitos saíram a coçar a cabeça…

Acho que nunca não vi nenhum carro sofrer um escrutínio tão apertado como o Qoros. Mas o Qoros portou-se bem, contra a expectativa de muitos. Até eu fiquei surpreendido pelo design, qualidade dos materiais e inovações apresentadas. Isto, num carro que a própria marca diz já ser a versão final de produção. É caso para dizer: temos um novo miúdo no bairro.

Falta saber se o novo «miúdo» vai sofrer bullying ou vai ter força para manter-se de pé neste primeiro embate contra os «grandalhões do quarto ano». Eu apostava na segunda hipótese, os chineses estão mesmo determinados em vencer na Europa. Mas isso já e tema para outro post: a importância do «raquítico» mercado europeu para a industria chinesa. Um tema a ser desenvolvido em breve…

O porquê deste salão ser realizado na cidade de Genebra

Luzes, câmara, acção!
Luzes, câmara, acção!

Desde 1905 que todos os anos — exceptuando alguns anos por causa de um tal de Adolf Hitler… — que por esta altura, mais coisa menos coisa o mundo automóvel tem sempre encontro marcado na Suiça, mais concretamente na cidade de Genebra.

Uma localização que não foi escolhida ao acaso, muito pelo contrário. Até porque, se há coisa que não existe na industria automóvel é coincidências ou acasos…

E há pelo menos três grandes motivos para que a cidade de Genebra seja a capital mundial do automóvel por excelência todos os anos, ano após ano.

O primeiro motivo — e talvez o mais forte — é não ter nenhum construtor de automóveis sediado no seu território. O segundo é a sua centralidade e por último (talvez o mais interessante…) prende-se com um facto histórico que remonta há 200 anos.

Como sabem, o campo de batalha ideal para um confronto de cavalheiros deve ser neutro. O campo não deve pender nem para um lado nem para o outro. E o território suíço é tudo isso, até porque como disse, os suíços não têm industria automóvel e portanto ninguém joga em casa — futebolisticamente falando.

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Mas os motivos são mais profundos. E levam-nos a viajar um pouco no tempo, nomeadamente até ao ano de 1815.

Sabias que...
Sabias que a Suíça é o segundo país neutro mais antigo do mundo? Provavelmente não, mas o que é facto é que os Suíços não se envolvem numa guerra desde que a sua neutralidade foi estabelecida pelo Congresso de Viena em 1815.

Um país neutro, como sabes, não toma partido em caso de guerra e em retorno espera não ser atacado por ninguém. Uma política de neutralidade portanto. E um “neutralista” é um espécie de mediador das partes conflituantes em assuntos internacionais. E verdade seja dita: se os «tipos» conseguiram manter a sua neutralidade perante a pressão da Alemanha Nazi no decurso da II Guerra Mundial, não são os «tipos dos automóveis» que lhes vão fazer frente.

Posto isto, não é de estranhar que a Suíça tenha sido escolhida para sede de algumas das mais importantes organizações internacionais, como é o caso do Fórum Económico Mundial, Cruz Vermelha, Organização Mundial do Comércio e do segundo maior Escritório das Nações Unidas. Ah… e claro, do Salão Internacional de Genebra!

Imprensa automóvel: A vida de um repórter de «guerra»

Aqui o bem mais escasso eram as tomadas eléctricas.
Aqui o bem mais escasso eram as tomadas eléctricas.

Dia 6 de Março pelas 7h30 da manhã, lá estava a Razão Automóvel pela primeira vez à porta do Salão Internacional de Genebra lado a lado com as principais publicações da especialidade, vindas de todo o mundo.

A simplicidade da nossa equipa  — que era só eu, desdobrado em vários heterónimos: o Guilherme «fotografo», o Guilherme «editor», o  Guilherme «informático» e o Guilherme «editor de conteúdos», contrastava com as imensas equipas de algumas publicações. Em alguns casos mais de 40 membros, entre fotógrafos e jornalistas.

Nas apresentações das marcas era o «salve-se quem puder».

Valia tudo para tirar a melhor fotografia, do melhor plano e na melhor posição. Inclusive apoiar o tripé na cabeça do colega da frente. E se querem saber, venci algumas dessas batalhas pessoais com os colegas da Autobild. Eles protestavam em alemão mas nós serenamente mantivemos a máquina fotográfica em riste, até porque como já disse eu valia por 4.

Apesar da «correria» houve algum tempo para desfrutar...
Apesar da «correria» houve algum tempo para desfrutar…

Acabada a apresentação, era uma correria para a sala de imprensa — onde a internet era mais rápida, para fazer a transferência dos conteúdos para Portugal de forma mais célere. E depois, novamente a mesma história, toda de início.

É caso para dizer que neste cenário de batalha, senti-me um verdadeiro repórter de guerra. Num confronto onde as armas apenas atacam os nossos corações e os nossos sentidos e onde ninguém se importa de ser atingido. E foram tantos os carros que me atingiram.

Por tudo isto valeu a pena. Esperamos que tenham gostado tanto de seguir o Salão Automóvel de Genebra pela  Razão Automóvel quanto nós gostámos de vos trazer todas as novidades em primeira-mão, aqui em www.razaoautomovel.com e no nosso facebook.

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