A emancipação do automóvel está próxima!

17/10/2012
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Mais de cem anos após a sua massificação, a emancipação do automóvel está próxima. E isso não são boas notícias para os amantes da condução.

Aproveitando alguns raios de sol muito tímidos, a equipa do Razão Automóvel reuniu-se numa esplanada para falar de outra coisa que não automóveis – já não estávamos a aguentar a clausura de 14h seguidas na nossa redação a dissertar sobre as «quatro rodas». E como é tradição dentro de qualquer grupo de colegas de trabalho/amigos, toda a ação desenrolou-se ao sabor daquela bebida que é servida bem fresca e é extraída da cevada. Bebida da qual não recordo o nome nem a marca, desculpem…

Bebida vai, bebida vem e não tardou que a filosofia começasse tomar conta dos acontecimentos dentro da minha mente. “Ponto de ordem à mesa! O Guilherme vai apresentar uma moção”, disse o Tiago Luís.

Rapaziada, os automóveis são como nós – disse eu. As gargalhadas sucediam-se a mais de 8.000 rpm, mas fui prontamente interrompido: Então vamos voltar a falar de automóveis? A sério?! Já chega… – Disse o Diogo com um sorriso de desespero.

Obviamente, eu percebi a mensagem… não estavam reunidas as condições para eu dissertar sobre a «coisa». Mas fui para casa a pensar naquilo que não disse. E aquilo que não disse é que o crescimento da indústria automóvel se assemelha ao nosso crescimento, seres humanos. Não acreditam? Então leiam…

Fase Bebé

Tal como os bebés humanos, os primeiros automóveis eram inúteis. Faziam pouco mais do que avariar, dar trabalho, despesas e dores de cabeça. Exactamente como os bebés. A utilidade imediata do dois? Nenhuma. Mas em comum ambos tiveram a sorte da humanidade continuar a apostar neles porque tinham/têm a esperança de que um dia o cenário ia/vai mudar. Os bebés crescem e tornam-se homens e os carros cresceram e tornaram-se úteis, como vamos ver no próximo capítulo.

Ainda bem que não desistimos à primeira contrariedade…

Fase infância

Depois da fase natal vem a infância e tal como nos seres humanos, nos carros esta fase manifestou-se da mesma forma. Por volta de 1910 já podíamos sair de casa de carro e ter (quase…) a certeza de chegávamos a cavalo nele e não em cima de um cavalo…. O equivalente em termos humanos, a mandar uma criança comprar manteiga à mercearia e ela trazer… manteiga. Não gomas ou rebuçados…

De todo o modo, nesta fase tal como as crianças também os carros ainda não faziam exactamente o que nós queríamos nem da forma que queríamos. Faziam «birras» por tudo e por nada, e a solução só chegava à martelada (no caso das crianças dispensa-se este utensílio). Os comandos de direcção eram rudimentares, os travões inexistentes e os restantes controlos tinham a complexidade de uma aeronave.

Fase adolescência

Superada a infância, chega a idade mais interessante… A irreverente «idade do armário». Ou no caso dos automóveis a «idade da garagem», também conhecida por adolescência. Podemos situar esta fase lá para o início da década de 60 com final na década de 90.

Os carros neste período de vida começaram a ser verdadeiramente «conduzíveis». As potências começaram a subir, e dão-se as primeiras grandes descobertas. Afinal de contas estamos na adolescência, não é verdade? E isso reflete-se ao volante. Alguns carros são «irresponsavelmente» potentes, autênticos loucos por fortes atravessadelas e travagens queimadas. Não interessa se o «corpo» acompanha o ímpeto da «alma»… é preciso é emoções fortes! Sem filtros…

A segurança, esse parente pobre da indústria automóvel durante tantos anos, era algo praticamente acessório.

Fase Adulta

Chegamos então à fase adulta e sem mais nem menos, chegam também responsabilidades. Uma vez mais tal como nos humanos, também nos carros as responsabilidades pesam…

Aquele escape directo sem catalizador, equivalente ao piercing na língua? Esqueçam! Tem de dar lugar a um escape menos audível, porque agora somos responsáveis e estamos verdadeiramente preocupados com o ciclo reprodutor das cigarras e dos grilos (que como sabem dependem da inexistência de poluição sonora). Tinha uns vizinhos que deviam ser parentes afastados desses insectos…

Os litros e litros de cerveja?! Perdão, de gasolina. Esses também têm os dias contados. A palavra de ordem é poupança e preocupação com a sustentabilidade do dia de amanhã. Os motores grandes começam a dar espaço aos pequenos turbinados.

A diversão também deixa de ser o tópico nº1. A electrónica invade o nosso automóvel, tal como as nossas noitadas são invadidas pela companhia da televisão. As atravessadelas passam a pequenos deslizes, e as travagens queimadas são substituídas pelo soluçar de um sistema de ABS teimoso.

E é aqui que se dá a «parcial» emancipação do automóvel. Ele deixa de fazer aquilo que nós queremos para passar a fazer apenas aquilo que quer. São controlos de tracção, de viragem, de travagem e de sei lá mais o quê.

Podemos dizer que a fase adulta do automóvel aqui descrita corresponde aos tempos actuais. Como disse anteriormente, algures aqui na Razão Automóvel “hoje até um aleijado de olhos vendados e sob a influência de drogas leves consegue fazer tempos decentes em pista”. Tal não é o grau de «parentalidade» dos automóveis de hoje.

O que é que se segue? 

Até aqui homem e máquina comportaram-se da mesma forma. Foram bebés, crianças, adolescentes e adultos. Felizmente para os automóveis é aqui que se separam as águas. Os automóveis nunca vão ser velhos ao contrário de nós.

Então para onde vai a nossa amada máquina? O caminho creio eu é o da «desumanização» do automóvel. Mais cedo do que tarde a borracha queimada numa estrada de montanha vai dar lugar a um computador que conduzirá por nós. Em plena segurança mas sem apelo nenhum. O objecto que tanto amávamos caminha no sentido de tornar-se num «electrodoméstico». Cada vez mais eléctrico, limpo e seguro.

O automóvel vai emancipar-se e tornar-se completamente independente. O ser humano vai deixar de ser «guia» para passar a ser «guiado». Os sistemas que agora apenas nos corrigem, no futuro vão mesmo nos substituir. Se isso é uma coisa má? Talvez não.

Muitas vidas serão poupadas nas estradas. E no final de contas vamos poder sempre contar com os putos irreverentes dos anos 90 e 80 (e porque não 2000?), que hão de ter sempre lugar cativo nas nossas garagens. E já agora, uma visão: sonho que no futuro os autódromos e estradas privadas deste país vão transformar-se numa espécie de reserva protegida de automobilistas, onde as velhas glórias vão sempre poder «esticar as pernas». E nós também… Afinal de contas, os automóveis não envelhecem não é verdade? E quanto a nós não há volta a dar… vamos ser sempre uns apaixonados do volante. Quais adolescentes!

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Diretor Editorial e co-fundador da Razão Automóvel. Tem 29 anos, ama os automóveis mas tem uma paixão secreta: as duas rodas! Praticante de todo-o-terreno, iniciou-se nas lides da condução aos comandos de um Citroen Ax. Não resiste a umas boas curvas, seja no asfalto ou numa folha de papel.

  • Nuno Silvestre

    Uma palavra: Espectacular!

    Por acaso, já tinha feito esta analogia com um grupo de amigos… e é realmente incrível.
    Aliás, a analogia até era mais com o género feminino. Experimentem pensar no assunto :D:D:D

  • Nuno

    Excelente artigo !

  • Carlos Ferreira

    Bom dia.
    Antes de mais quero dar os meus parabéns pelo trabalho que desenvolvem! Sou Licenciado em Engenharia Automóvel e apaixonado por este Mundo. Tanto com a cabeça, como com o coração, valorizo muito o vosso empenho!
    Quanto a este artigo, eu estou inteiramente de acordo!
    Eu costumo fazer analogia entre o ser humano e o automóvel, mais numa perpectiva de diagnóstico (saúde). E de facto existe uma relação brilhante entre os seres de duas pernas e o de quatro rodas. Afinal de contas, foi a inspiração da humanidade que lançou ao Mundo esta obra de arte designada por "automóvel".

  • André

    Eu acho que ainda assim o mundo automóvel está a passar pela próxima fase… A fase da pré-3a idade, altura em que o Homem decide aproveitar a vida e arriscar (engates a miúdas mais novas, testar desportos radicais…), mas sempre com o conhecimento que trouxe da sua vida. Eu acho que estamos nessa fase, porque basicamente estamos a reviver os anos 80/90, mas com outras qualidades, e segurança (Porsche 959 -> 918 Spyder, Ferrari F40 -> F70, Maclaren F1 -> P1, Toyota AE86 -> GT86, Honda NSX… por aí fora). Ou seja a vontade de diversão voltou, depois de todo o tempo de procura da segurança e da sustentabilidade, mas é uma diversão com alguma maturidade, menos risco que antes…

    E o próximo passo, infelizmente, também será como o Homem… A 3a idade, altura em que o corpo já não mexe como dantes, é preciso ajudas, outros tratam das coisas por nós… Os carros infelizmente, e contra todas as forças do meu ser, também serão assim… Planeiam rotas, fazem tudo sozinhos, com ajudas de sistemas de segurança totalmente novos, o carro será mais uma maca, ou cadeira de rodas automática própria de um serviço de geriatria…
    Só não sei é se um novo ciclo ocorrerá, tal como ocorre na vida…

    • Carlos Ferreira

      Concordo com a opinião. De facto a tendência será essa. Infelizmente é assim que se consegue diminuir a sinistralidade rodoviária.
      Mas atenção, nada será tao rápido quanto parece. A tecnologia está a evoluir muito mas… Por exemplo, nos próximos 20… ou talvez 30 anos, o motor de combustão interna continuará a dominar o mercado automóvel. Quanto à assistência à condução, enfim, teremos de aprender a conviver com ela, pensando de uma maneira positiva (é concebida para salvar vidas)..

  • HMAc

    Execelente post!!! Parabéns!!! Fico contente por saber que ainda há entusiastas com o mundo automóvel!!! Parabéns

  • José Pinheiro

    Genial, excelente artigo!

  • André Couto

    muito bom ! 🙂

  • Carlos

    Excelente, adorei o que li, um artigo muito bem estruturado, a cerveja tem destas coisas! 🙂
    Grande Abraço

  • Mário Fernandes

    Muito boa análise! O incrivel é que quem gosta (verdadeiramente) de automóveis nunca deixará de os humanizar. É de facto uma extenção do nosso ego!