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Inveja? Volkswagen quer reduzir competição da… Skoda

O sucesso da Skoda tem levantado tensões dentro do grupo Volkswagen, que consideram ser injustamente beneficiada perante outras marcas do grupo.

A Skoda está há 26 anos integrada no grupo Volkswagen. Passou de marca estagnada do lado errado da Cortina de Ferro a uma das marcas com performance mais pujante dentro do grupo. Com uma margem operacional de 8,7% só a Porsche suplanta a Skoda, tendo ultrapassado até a Audi o ano passado. Compare-se esta, com a margem da marca Volkswagen de apenas 1,8%, apesar de, em termos absolutos, vender bastantes mais unidades.

Como é possível?

Integrada no grupo alemão, a Skoda tem tido acesso, praticamente sem restrições, às tecnologias desenvolvidas por outros e coloca-as em automóveis produzidos onde a mão de obra é substancialmente mais barata – média de 10,10 euros à hora na República Checa contra 38,70 euros na Alemanha.

O resultado são produtos que pouco ou nada ficam atrás dos outros em termos qualitativos, e até vencem os seus “irmãos” em comparativos na imprensa especializada, uma situação que nada agrada a Volkswagen. Não era suposto os Skoda estarem na base do grupo?

Conclusões como para quê comprar um Golf quando podemos ter um mais espaçoso Octavia com a mesma tecnologia por um preço mais acessível não são inéditas. Para cúmulo, a Skoda também tem conseguido constantemente melhores posições nos diversos estudos de fiabilidade conhecidos.

Agora que o grupo prepara-se para entrar numa nova era de mobilidade elétrica, a Volkswagen quer reduzir as vantagens da Skoda, consideradas injustas,  e reposicionar de forma mais clara as suas marcas. Uma contenda que não é de agora e reaviva tensões no núcleo do grupo Volkswagen – disputas entre lucros e postos de trabalho, e entre um controlo centralizado e autonomia para as suas 12 marcas.

Como alterar a situação?

Entre as soluções propostas está o aumento do valor das royalties para usufruir da tecnologia desenvolvida pelas restantes marcas do grupo. Como exemplo, o acesso à plataforma MQB desenvolvida pela Volkswagen e que é a base de praticamente todos os modelos médios da marca: Octavia, Superb, Kodiaq e Karoq.

Mas outras ameaças surgem no horizonte. A quebra das vendas de modelos como o Golf e o Passat ameaça postos de trabalho na Alemanha e os sindicatos já demonstraram a sua preocupação. No entanto, a ameaça do sucesso da Skoda pode significar também uma solução para as fábricas alemãs.

Ou seja, a transferência de parte da produção da Skoda para as fábricas alemãs – correntemente com excesso de capacidade -, salvaguardará os postos de trabalho alemães. Mas o retirar de produção das fábricas checas, por outro lado, põe em causa até 2000 postos de trabalhos, segundo o principal sindicato checo.

Herbert Diess, CEO da marca Volkswagen defende que medidas têm de ser tomadas para proteger a marca alemã da competição direta com os modelos mais baratos da Skoda. Para tal é necessário uma maior diferenciação do posicionamento e público-alvo de ambas as marcas, sobretudo quando nos referimos aos futuros modelos elétricos – como exemplo, tanto a Volkswagen como a Skoda preparam para o mesmo segmento um crossover com estilo coupé elétrico.

Batalha interna – deveria ser este o foco?

Tal como a Volkswagen tinha anunciado há poucos meses, neste novo mundo, o seu rival é a Tesla. Não deveria ser esse o foco? Matthias Mueller, o CEO do grupo, desdramatizou a contenda ao referir que com quase 100 modelos no grupo, seria impossível não se pisarem uns aos outros. E alguma competição interna também é saudável.

Mas prejudicar uma marca do grupo perante outra não acabará por prejudicar todo o grupo? A mensagem parece ser clara. A Skoda tem de saber o seu lugar na cadeia alimentar: na base.

 

 

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