Dia da criança

Quando eras puto também «roubavas» o carro ao teu pai?

Cresci no Alentejo. O acesso a todo o tipo de veículos estava muito facilitado à partida... e eu aproveitei. Mas tanto!

Oficialmente comecei a conduzir aos 18, mas iniciei-me nas lides da condução mais cedo. Aos 9 anos já conduzia ao «ralenti» acompanhado pelo meu pai e por volta dos 14 anos já lhe subtraia o carro nas suas idas à caça. Acompanhava-o meu pai religiosamente todos os fins-de-semana, mas não era para caçar…

Quando chegava a altura de meter literalmente os pés ao caminho dizia-lhe sempre: “deixa estar pai, eu fico aqui no carro a ouvir música”. Claro que não era a ouvir música… até porque depressa troquei o interesse que tinha pelos carrinhos de brincar pelo interesse em carros «à séria». A certeza de que naqueles largos hectares era só eu, o carro e mais ninguém – para além de um caçador solitário abandonado pelo próprio filho… – dava-me a confiança necessária para ligar o carro e ir dar umas curvas.

Caramba... como eu gostava de voltar atrás e dizer ao puto que há 16 anos andava a «contar pinheiros», que ele ia fundar (...) um dos sites de automóveis mais lidos do país.

Quando o meu pai regressava, lá estava o velho Citroen Ax 1.0 Spot exactamente no mesmo sítio. Mas claro, só isso não chegava para esconder que nas últimas horas o carro tinha estado em todo lado, excepto ali, naquele local. O rombo no depósito era impossível de esconder e os salpicos de lama sucediam-se ao longo de toda a carroçaria. Hoje sei que o meu pai sabia, mas na altura eu pensava que não.

Era mais ou menos assim que me sentia quando levava o carro ao meu pai...
Era mais ou menos assim que me sentia quando levava o carro ao meu pai…

E foi assim que aprendi a conduzir. Foi assim que comecei a interiorizar os primeiros truques de condução «avançada». O truque (que não é truque nenhum…) que me recordo melhor de aprender foi que o carro era perfeitamente controlável em deriva de traseira quando provocado pelo travão de mão, desde que mantivesse constante a aceleração. Podia manter-me em slide durante vários metros. Fantástico!

Daí para a frente, nunca mais fui o mesmo. Foi naquele momento que o prazer de condução se sobrepôs, pela primeira vez, à adrenalina que era «desviar» o carro do meu pai para outros propósitos. Foi ali que descobri que gostava mesmo de conduzir. Doença que dura até aos dias de hoje, sem melhoras e com tendência a agravar.

Apesar da minha tenra idade, a consciência de que a velocidade era uma arma letal fez com que nunca me excedesse muito nesse campo. As estradas onde estas histórias tiveram lugar também não permitiam grandes velocidades, talvez 50km/h de velocidade máxima – e muito pontualmente.

Primeiro porque eram só curvas contra curvas, e depois porque o pequeno Citroen Ax com apenas 50cv não fazia milagres. Ainda assim estreie-me várias vezes na modalidade «contar pinheiros», prática usual entre os pilotos de rali sempre que falham uma curva. E eu falhava algumas, confesso. Tantas que lhes perdi a conta.

Seja a bordo de um Mégane RS ou de uma «máquina do passado» como o VW Polo G40, para nós conduzir é um acto personalizado que acaba por reflectir-se nos textos.

Foi neste misto de tentativas e erros que fui descobrindo os segredos dos tração dianteira. Uns anos mais tarde vieram as motas – a minha outra grande paixão – fossem de duas ou quatro rodas, não importava. Mas foi no segundo tipo, as de quatro rodas, que comecei o «estágio» para os automóveis de tração traseira. A condução de uma moto4 (quad), em termos dinâmicos assemelha-se mais a um automóvel do que propriamente a uma verdadeira mota. E aos poucos e poucos fui sedimentando toda esta mescla de experiências, que me ajudam imenso desde que fundámos a Razão Automóvel.

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Na minha cabeça, aquele Citroen Ax (que viria a ser o meu primeiro carro) assemelhava-se a isto.

Podia ter sido um piloto?

Claro que não. Sou igual a tantos outros condutores. Rápido, mas incapaz de retirar aquele meio segundo por volta que faz a diferença entre o comum dos mortais e os predestinados.

Chego ao final deste texto sem saber muito bem porque é que o escrevi. Acho que foi simplesmente porque gosto de carros e gosto de falar e escrever sobre carros. E para além do mais, quantas pessoas podem-se dar ao luxo de escrever sobre automóveis e serem lidas por tanta gente como eu?

Caramba… como eu gostava de voltar atrás e dizer ao puto que há 16 anos andava a «contar pinheiros», que ele ia fundar juntamente com o Tiago, o Diogo e o Vasco um dos sites de automóveis mais lidos do país. Algo que me faz questionar neste exacto momento, o que estaríamos nós a fazer – eu que escrevo e vocês que lêem – se naquela altura o puto que «contava pinheiros» não tivesse tido a coragem de roubar o carro ao pai e iniciar o ciclo de acontecimentos que acabou por culminar neste momento que agora partilhamos.

Muito provavelmente estavam noutro site de automóveis, a ler as especificações de um citadino aborrecido, ou sobre a capacidade da mala de um Porsche 911. Porque talvez seja aqui que nós, Razão Automóvel, marcamos a diferença: nós partilhamos experiências. Seja a bordo de um Mégane RS ou de uma «máquina do passado» como o VW Polo G40, para nós conduzir é um acto personalizado que acaba por reflectir-se nos textos.

Bem, é melhor parar… a filosofia começou a tomar conta da minha cabeça. E como conversa puxa conversa mais alguns parágrafos e estou a escrever sobre o significado da vida ou a origem do universo.

PS: Como duvido que alguém leia este texto até ao final vou escrever algumas palavras aleatoriamente aqui: turbo galinhas sulfato de palha faz bem à hemoglobina zundapp! Se alguém der com isto que avise 😂.

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