Glórias do Passado

Fiat Mephistopheles: o demónio de Turim

O Fiat Mephistopheles é uma máquina de personalidade demoníaca e um bom exemplo das colheitas mais radicais dos primórdios do automóvel.

Poucas máquinas são tão viscerais e temperamentais quanto os automóveis do princípio do séc. XX. O Fiat Mephistopheles não é exceção: uma máquina incrível sob todos os pontos de vista. Potente, radical e de difícil controlo foi apelidado de Mephistopheles pelos jornalistas da época, numa alusão a uma figura demoníaca da Idade Média — era de mitos e criaturas demoníacas.

O consumo era de dois litros por km, ou por outras palavras: 200 l aos 100 km

Era assim que se olhava para o Mephistopheles, como um objeto pejado de malvadez capaz de reclamar a qualquer momento a vida dos menos prevenidos.

Por esta altura já era hábito organizarem-se corridas — diz-se que a competição automóvel nasceu no dia em que foi produzido o segundo carro — e muitas marcas aproveitavam essas ocasiões para medir forças. Vencia na competição? Então vencia nas vendas. A velha máxima “win on sunday, sell on monday” (vence no domingo, vende na segunda-feira).

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Fiat Mephistopheles30

A Fiat não foi exceção e surgiu com uma máquina equipada com um motor impressionante. Eram 18 000 cm3 de capacidade, num motor designado de Fiat SB4. Um motor que surgiu graças à fusão de dois motores de 9,0 l de capacidade.

Em 1922 o Fiat SB4 entra na prova mítica das 500 milhas de Brooklands pelas mãos do piloto John Duff. Infelizmente e para gozo geral, Duff teve o azar de sofrer uma explosão de um dos blocos, arrancando com ele o capô e outros componentes. Duff, frustrado, resolveu abandonar a Fiat e juntar-se à Bentley na campanha pelas vitórias em Le Mans.

Fiat Mephistopheles

Demónio de Turim renasce

É nesta altura que tudo muda para o Fiat SB4 e como dos fracos não reza a história, eis que uma personalidade visionária de seu nome Ernest Eldridge se mostra interessado no potencial do Fiat SB4.

Ernest Eldridge (o herói desta história…) nasceu no seio de uma família abastada residente em Londres e cedo deixou os estudos para se juntar à frente ocidental na Primeira Guerra Mundial, com o desejo de ser condutor de ambulâncias. Terminada a guerra, o ano de 1921 marca o seu regresso à competição automóvel.  É em 1922, depois do incidente de John Duff, que Ernest chegou à conclusão que o motor de 18 l era “fraquinho” para o que tinha em mente.

Face a esta conclusão, Ernest arranjou forma de obter um motor da Fiat usado na aviação: o bloco Fiat A-12. Um SOHC (Single Over Head Cam) de seis cilindros refrigerado a água e com uma modesta potência de 260 cv para os não menos impressionantes 21,7 l de capacidade — sim, 21 700 cm3.

Fiat Mephistopheles

Ernest teve dificuldades em fazer esta troca de motor e viu-se obrigado a aumentar o comprimento do SB4 para acomodar tamanha monstruosidade mecânica, usando um chassis de um autocarro Londrino. Sim isso mesmo… um autocarro.

Resolvido o problema base, Ernest reconstruiu a carroçaria do SB4 de forma mais aerodinâmica. O coração do SB4 não foi esquecido e Ernest dotou-o de uma nova cabeça de 24 válvulas e 24 velas!!! Sim leram bem 24 velas para ajudar os seis cilindros a consumir diabolicamente toda a gasolina que pudesse ser engolida pelos dois carburadores. O consumo era de 2 l/km, ou por outras palavras: 200 l aos 100 km. Estas mudanças permitiram um aumento da potência para os 320cv às… 1800rpm!

Mas não se iludam apenas pelas especificações técnicas, o coração do demónio de Turim era um autêntico peso pesado. A cambota pesava 100 kg e o volante bimassa 80 kg. Juntos contribuíam para um binário épico, capaz de promover um disparo bíblico nos médios regimes. Tudo isto num embrulho de cinco metros e quase duas toneladas de peso! Nascia então o demónio de Turim: o Fiat Mephistopheles.

Em 1923 Ernest submete o Fiat Mephistopheles às pistas e logo nesse ano arranca um um recorde: a ½ milha mais rápida de Brooklands.

Após vários sucessos desportivos com o Mephistopheles, Ernest aponta a sua besta para a quebra do recorde de velocidade terrestre, a 6 de julho de 1924. O evento realizou-se numa estrada pública em Arpajon, a 31 km de Paris. Ernest não estava sozinho e contou com a rivalidade de René Thomas, ao volante de um Delage La Torpille V12.

Fiat Mephistopheles

As coisas não correram bem para Ernest, pois não conseguiu bater René e viu a organização aceitar o protesto da equipa francesa pelo Fiat não possuir marcha atrás.

Vencido mas não convencido, Ernest volta a Arpajon no dia 12 do mesmo mês decidido a quebrar o recorde. Auxiliado pelo seu co-piloto e mecânico John Ames, Ernest desperta o demónio mecânico do Mephistopheles num efeito sonoro digno do Apocalipse e arrancou em direção ao recorde de velocidade com um deslizar de traseira, aguentando estoicamente os comandos da besta no meio de nuvens de fumo, óleo e gasolina vaporizados. Enquanto isso, o seu co-piloto bombeava gasolina para o motor, abria a botija de oxigénio para aumentar a potência e regulava o avanço manual do distribuidor. Outros tempos…

Ernest bateu o recorde num percurso de ida e volta com a incrível marca média de 234,98 km/h, tornando-se assim o homem mais rápido do mundo.

O génio de Ernest combinado com a evocação do demónio de Turim sob forma do Fiat Mephistopheles inscreve-os para sempre na história automóvel, tornando Ernest imortal. Quanto ao demónio de Turim, esse ainda vive. É propriedade da Fiat desde 1969 e pode ser visto no museu da marca. Por vezes faz aparições em público mostrando toda a sua força demoníaca no alcatrão. Uma vez demónio, para sempre demónio…

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