Pocket-rocket

Lembras-te deste? Fiat Uno Turbo I.E., membro honorário do clube dos caixotes rápidos

Continuamos o nosso périplo pelos "pocket-rocket" dos anos 80 e 90. Depois do Volkswagen Polo G40 e do Citroën AX GTI, chegou a altura de conhecer outro membro do clube dos 'caixotes rápidos': o Fiat Uno Turbo I.E.

Há textos que me custam muito escrever. Custam porque sei que vou ter de falar mal de um carro que apesar dos inúmeros defeitos, gosto muito. Mesmo muito. Por isso, vamos começar pela parte boa do saudoso Fiat Uno Turbo I.E. — porque daí para a frente vai ser sempre a descer.

Ora bem, que motor!

Tive oportunidade de andar num e valha-nos Nossa Senhora do Binário e dos Cavalos a Vapor! Que ímpeto!

Se num futuro longínquo tivesse de voltar ao passado e resgatar um modelo para mostrar aos meus netos como eram os motores e os automóveis antes de serem tomados de assalto pelos génios da electrónica, era um Fiat Uno Turbo I.E. que eu ia buscar. Mortal, tresloucado, imprevisível e pouco seguro.

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Até às 3000-3200 rpm, o afamado motor 1.4 Turbo pouco ou nada desenvolvia, mas daí para a frente desviem-se que aí vai ele. O turbo de geometria fixa com 0,8 bar enchia os ‘pulmões’ e só parava a descarga de potência já em torno das 6000 rpm.

Era um motor bipolar: ou tudo ou nada. Não havia meio termo. Um comportamento que tornava muito difícil a condução em estradas mais reviradas. Mas que por outro lado também a tornava mais excitante.

É que para todos os efeitos estamos a falar de um motor 1400 cm3, que apesar de ter apenas oito válvulas e um sistema de injeção multiponto, graças à sobrealimentação debitava uns belos 118 cv. Uma referência para a época — as más línguas diziam que tinha mais, a rondar os 130 cv…

Motor memorável, chassis também, mas não pelos melhores motivos

Mas se o motor era de facto memorável pelo seu caráter bipolar, o mesmo já não se pode dizer do chassi. Desculpem o exagero, mas certamente haverá por aí carroças de burro com um comportamento dinâmico mais digno que este Fiat Uno Turbo I.E..

A suspensão traseira de eixo semi-rígido, para além de ser tão confortável como um sofá em granito, atribuía ao Turbo I.E. um comportamento tão confiável como um político. Raramente cumpria a sua função e demitia-se de colaborar nas piores alturas, piorando ainda mais situações que só de si já eram delicadas.

Quanto à dianteira, essa pobre coitada, fazia o que podia para digerir os 118 cv que chegavam sempre de rompante. Felizmente os travões cumpriam o seu papel com brilhantismo. Brilhantismo esse que só era beliscado pelo tamanho ridículo das jantes e pneus. 118 cv lembram-se?

Equipamento era ponto forte

No interior, contrariamente ao Volkswagen Polo G40 que não tinha absolutamente nada — nem mesmo fecho centralizado ou vidros eléctricos — este tinha tudo e mais alguma coisa. Um excelente volante de uma conhecida marca italiana, uma extensa lista de equipamento de série e uma habitabilidade considerável. Faltava-lhe apenas uma coisa: qualidade de construção. Os ruídos parasitas e as vibrações eram de série.

fiat uno turbo i.e.

Enfim… um carro à imagem do seu tempo. Despreocupado com os consumos, emissões poluentes ou com aquele conceito muito estranho à época chamado segurança. Por outro lado, eram tempos em que automóvel rimava com despreocupação e diversão. E isso tudo, só por si, são motivo mais que suficientes para enaltecer um carro que afinal até podemos dizer que não tinha defeitos. Digamos que tinha, isso sim, caprichos. Era um carro muito caprichoso! E isso nem é mau. Até porque para quem queria paz e sossego haviam outras opções…

Os jovens lobos que sobreviveram à experiência recordam-no com saudade. Hoje, menos jovens do que há 20 anos atrás, podem ser encontrados na estrada, pacatamente ao volante de propostas muito mais racionais e seguras. Há muito que abandonaram o clube dos caixotes rápidos. Os tempos são outros.

Off-topic: Encontrei uma imagem interessante do quadrante muito completo de um Fiat Uno Turbo I.E., supostamente captada em Portugal. Pelos vistos, havia quem achasse que o pequeno Turbo I.E. aguentava mais uns cavalos extra:

fiat uno turbo i.e. painel de instrumentos, 240 km/h

Sobre o “Lembras-te deste?”. É a rubrica da Razão Automóvel dedicada a modelos e versões que de alguma forma se destacaram. Gostamos de recordar as máquinas que outrora nos fizeram sonhar. Embarca connosco nesta viagem no tempo aqui na Razão Automóvel.

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