M, o princípio

BMW 2002 Turbo. Foi aqui que começou a divisão M

Depois da viagem às origens da AMG na passada semana, entramos novamente na máquina do tempo para recordar as origens da divisão M: o BMW 2002 Turbo. Segurem-se…

Vamos então recuar à década de 60′, época em que a oferta automóvel alemã ao nível das marcas generalistas ainda refletia a depressão do pós-guerra. Os automóveis espelhavam o estado de alma dos alemães: eram todos aborrecidos e sérios.

“2002 Turbo era um carro rude com duas faces: dócil como uma educadora de infância até às 3800 rpm e a partir daí bruto e rude como uma sogra mal disposta”

Se eram bons meios de transporte? Sem dúvida. Confortáveis e fiáveis? Também. Mas não eram mais que isso. A alternativa a este quadro deprimente tinha alguns custos. Ou se optava pelos pouco fiáveis carros ingleses ou então pelos «raçudos» mas diminutos desportivos italianos.

Foi então que a BMW — acrónimo de Bayerische Motoren Werke, ou em português Fábrica de Motores Bávara — depois de anos e anos a construir aviões, motos e alguns carros decidiu entrar em força no mercado automóvel. Em boa hora o fez.

bmw 2002 turbo

E fê-lo com o modelo 1500, que era tudo aquilo que as outras berlinas contemporâneas daquele segmento, não sua maioria, não eram: fiáveis, relativamente despachadas e moderadamente espaçosas. O 1500 conseguia levar cinco adultos com algum conforto e foi com base neste modelo que nasceram os modelos 1600, 1602 e toda a família 2002 ti, tii e Turbo. E é este último, o 2002 Turbo, que é motivo desta viagem ao passado.

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Resumindo em poucas palavras: o BMW 2002 Turbo foi uma criação disparatada, um autêntico exercício de loucura. Baseado na estrutura do BMW 1602 e com recurso ao bloco do 2002 tii, o 2002 Turbo contrariava todas as convenções estabelecidas. Eram menos de 900 kg de peso para 170 cv às 5800 rpm — isto na década de 70!

Potência esta que era “gentilmente” fornecida por um motor de quatro cilindros, de somente 2000 cm3 alimentados por um turbo KKK a 0,55 bar sem dump-valve e injeção mecânica Kugelfischer. Como dizem os brasileiros: Nossa!

Este foi aliás, o modelo que pela primeira vez trouxe para a produção em série a sobrealimentação. Até então, nenhum carro tinha montado um turbo. Recordo que a sobrealimentação era uma tecnologia que desde a sua génese estava reservada à aviação, pelo que até faz algum sentido que tenha sido a BMW — tendo em conta as suas origens aeronáuticas — a pioneira na aplicação desta tecnologia à industria automóvel.
bmw 2002 turbo

Toda esta miscelânea tecnológica teve como consequência números que até nos dias de hoje envergonham muitos desportivos: 0-100km/h cumpridos em 6,9 s e uma velocidade de ponta a «aflorar» os 220km/h. Como estes não fossem ingredientes suficientes para fazer disparar os níveis de adrenalina , toda esta potência era «escoada» pelo eixo traseiro, através de uns pneus tão pequenos que eram capazes de rivalizar com as medidas de um carrinho de bébé, uns “gigantes” 185/70 R13.

BMW 2002 Turbo

Mas a loucura não ficou por aqui — aliás, ainda agora começou. Esqueçam os turbos de geometria variável, os motores com entrega de potência dócil e os aceleradores fly-by-wire, o 2002 Turbo era um carro rude com duas faces: dócil como uma educadora de infância até às 3800 rpm e a partir daí bruto e rude como uma sogra mal disposta. E que sogra! Este comportamento bi-polar devia-se à presença de um turbo e do consequente efeito «turbo-lag». Enquanto o turbo não entrava em funcionamento tudo ok, mas daí para a frente… desviem-se. Vai começar o festival da potência e da borracha queimada.

Mas não pensem que o 2002 Turbo era só um motor potente numa carroçaria BMW. O 2002 turbo era o “state-of-art” do design de um desportivo da época.

bmw 2002 turbo 5

Todo o carro transpirava desportividade: travões maiores, cavas de rodas mais largas e diferencial traseiro auto-blocante faziam parte de um pacote que incluía volante e assentos desportivos, manómetro de turbo, spoiler dianteiro e traseiro pronunciados e por fim faixas azuis e vermelha ao longo do carro. Sim, leram bem: faixas azuis e vermelhas. Não vos recorda as cores de alguma coisa? Exatamente, as cores da M! Estava então lançadas as cores que iriam acompanhar a linha desportiva da BMW até aos dias de hoje.

Mas o toque final de loucura, que confirma o estado de embriaguez da administração bávara quando aprovaram a produção do BMW 2002 Turbo, está na inscrição “2002 turbo” no spoiler dianteiro de forma invertida como nas ambulâncias. Dizia-se na altura que era para que os outros condutores distinguissem o 2002 Turbo dos outros modelos da gama e o deixassem passar. Sim isso mesmo, para se desviarem! A diferença de perfomance do 2002 Turbo para os outros carros era tanta que literalmente os atirava para a valeta.

Alias, conduzir um BMW 2002 Turbo baseava-se nesta filosofia: atirar os outros carros para a valeta e cruzar os dedos para não ir lá parar por arrasto. Um carro para homens de barba rija e pêlo no peito portanto…

bmw 2002 turbo

Apesar de todos os atributos e “defeitos” o reinado do BMW 2002 Turbo foi sol de pouca dura. A crise petrolífera de 1973 deitou por terra qualquer aspiração comercial que o modelo tivesse, e um ano depois de ter entrado em comercialização o 2002 “consumidor-compulsivo-de-gasolina” Turbo deixou de ser produzido, corria o fatídico ano de 1975. Mas ficou a marca. A marca de um modelo que foi pioneiro na utilização da sobrealimentação e que lançou as sementes que deram origem à “M”.

Há quem atribua ao BMW M1 de 1978, o título de “primeiro M”, mas para mim não há dúvida que o pai legitimo da M é o 2002 Turbo um dos pais legítimos da M Motorsport é o BMW 2002 Turbo (1973) — que a par do 3.0 CSL (1971) deu o pontapé de partida à BMW Motorsport. Mas foi ao 3.0 CSL que os engenheiros da marca acabaram por dar primazia por aproximar-se mais das especificações de competição dos carros de turismo daquela época do que os series 01 e 02, com os quais começaram as primeiras preparações para competição (lançado em 1961). O legado destes modelos perdura nos mais icónicos modelos da BMW: o M1, M3 e M5.

Regressando ao presente, não há dúvida que temos muito que agradecer ao velho e rabugento 2002 Turbo. Longa vida à divisão M! Que a divisão desportiva da BMW nos continue a oferecer modelos tão marcantes como este no futuro. Não é pedir pouco…

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