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A história (mal contada) do revolucionário Mercedes-Benz 190 (W201)

Porque nem só de desportivos se faz a história do automóvel (muito pelo contrário…), hoje damos destaque ao Mercedes-Benz 190, uma berlina familiar que marcou gerações.

Vou falar-vos de um carro que pela sua durabilidade, design e inovação merece um lugar no «Olimpo dos Automóveis». Falo — como já adivinharam pelas fotos…— do Mercedes-Benz 190 (W201).

Devo dizer que sempre que vejo um Mercedes-Benz 190 gosto de pensar que ele é o resultado de um cruzamento muito bem sucedido entre um sofá de sala vulgar, um carro, um tanque de guerra e um relógio suíço. Para mim foi desta mixórdia que nasceu o W201. Se o destino deixar, será esta versão que hei-de transmitir aos meus netos daqui por muitos anos “era uma vez um sofá, um tanque…” — enfim, pobres crianças.

Sou capaz de apostar convosco que quando esse dia chegar ainda andarão muitos Mercedes-Benz 190 pelas nossas estradas… a fazer a rodagem! Reza a lenda — alimentada pelas várias tribos de taxistas que povoam o nosso país… — que os 190 só acabam de fazer a rodagem para lá do milhão de quilómetros. Até lá, no problema!

 

mercedes-benz 190 w201

Mas para além desta minha versão da história, há outra muito menos plausível (claro…). Uma versão que diz que o Mercedes-Benz 190 é o resultado de vários anos de estudo e de pesquisa intensiva da marca alemã. Segundo essa versão, corria o ano de 1976 quando a «toda-poderosa» Mercedes-Benz começou a olhar com preocupação para uma aspirante a marca de luxo chamada BMW.

Essa preocupação tinha um nome: E21. Ou se preferirem BMW Série 3. Uma berlina que conservava todas as qualidades dos carros de luxo do segmento superior mas que tinha dimensões mais comedidas. E qual não foi o espanto da Mercedes quando descobriu que o mercado até estava receptivo a pagar (e bem!) por um carro com essas características: mais pequeno mas igualmente luxuoso. Foi um abalo tremendo nas convicções da Mercedes-Benz. Afinal de contas nem toda a gente queria um “salão multiusos” com rodas. Algo mais pequeno mas igualmente bom também servia.

Foi por isso que entre 1976 e 1982 a marca alemã não parou dia e noite, enquanto não finalizou a resposta à rival BMW. Em 1983 foi finalmente lançado o contra-ataque: nascia o Mercedes-Benz 190 W201.

Mercedes-Benz 190 w201

Apelidado na altura de “baby-mercedes”, era um carro que pese embora o aspeto conservador, era revolucionário para a época. O 190 representava uma completa mudança de paradigma para a marca da estrela. Foi o primeiro Mercedes-Benz a dispensar as dimensões XXL; a não fazer uso intensivo de cromados por toda a carroçaria; e a inaugurar uma nova linguagem estilística.

Foi também o primeiro carro do segmento a montar uma suspensão multilink no eixo traseiro, e o primeiro Mercedes a recorrer a uma suspensão McPherson na dianteira. Só isto diz muito do empenho da marca em criar algo inovador. E conseguiu isso sem beliscar os valores que guiavam a marca na década de 80: conforto, fiabilidade, tradição e imagem.

Mercedes-Benz 190 w201

Na parte mecânica, foram vários os motores que habitaram o capot do W201 durante os 11 anos que esteve no ativo. Desde o mais conservador 2000 cm3 Diesel de 75cv que animaram muitos dos táxis que circularam em Lisboa, até ao mais exótico e potente motor 2300 cm3 a gasolina preparado pela Cosworth (o primeiro motor de 16 válvulas da marca). Se por esta altura já estão a pensar que me esqueci das versões Evo I, Evo II e 3.2 AMG, pronto, já os mencionei.

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Apesar das diferenças de rendimento, todos os motores tinham um denominador comum: a fiabilidade à prova de bala. No interior, o ambiente era marcadamente Mercedes-Benz. Materiais da melhor qualidade, sempre acompanhados pelo típico rigor germânico na montagem e nos detalhes. Campo onde o 190 deixava algo a desejar era na ergonomia. O volante tinha dimensões mais próprias para o leme de um navio e o espaço nos lugares traseiros não abundava.

Mercedes-Benz 190 W201

No campo dinâmico, apesar de toda a tecnologia empregue no desenvolvimento da suspensão e do chassi (foi a primeira vez que a Mercedes recorreu a programas informáticos) não se pode esperar muito de uma berlina familiar dos anos 80. Cumpria com zelo e diligência todas as solicitações normais do dia-a-dia, mas nada de grandes aventuras por estradas de montanha. A direção muito desmultiplicada, em conjunto com a tração traseira e umas suspensões talhadas para passeios ao fim da tarde, não faziam milagres.

No fundo a Mercedes-Benz foi bastante humilde quando projetou o W201, só quis que ele fosse o melhor naquilo que tinha de ser mesmo bom: conforto, fiabilidade, imagem e inovação. Conseguiu. Pelo menos é isso que dizem as três milhões de unidades vendidas.

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